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Informes
Técnicos
Informe Técnico nº 23, de 17 de abril de 2007
Esclarecimentos sobre as avaliações de
segurança e eficácia do Ácido Linoléico
Conjugado – CLA
I. Introdução
O ácido linoléico conjugado – CLA é
um termo coletivo utilizado para descrever um grupo de isômeros
geométricos e posicionais do ácido linoléico.
Esses compostos podem ser produzidos naturalmente por hidrogenação
e isomeração bacteriana no intestino de animais
ruminantes ou podem ser produzidos quimicamente por meio da isomeração
alcalina do ácido linoléico (Banni, 2002).
A alimentação dos seres humanos fornece pequenas
quantidades de CLA oriundos da gordura do leite e de carnes de
animais ruminantes, sendo que mais de 70% do CLA nesses alimentos
é representado por apenas um isômero, o c9, t11-CLA
(McLeod et al., 2004). Estimativas de ingestão de CLA por
humanos variam de 140mg a 1g/dia, dependendo da metodologia utilizada
e dos hábitos alimentares da população.
O CLA produzido quimicamente e disponível comercialmente
em alguns países são preparações de
misturas de isômeros, contendo geralmente 40% de c9, t11-CLA,
40% de t10, c12-CLA e 20% de outros isômeros (McLeod et
al., 2004).
Para que as preparações comerciais contendo CLA
possam ser comercializadas no Brasil como alimento é necessário
que as empresas apresentem documentação científica
comprovando a segurança de uso e eficácia das alegações
dos produtos, uma vez que essas substâncias serão
utilizadas em níveis superiores aos atualmente observados
na alimentação da população brasileira.
Assim, os produtos contendo CLA podem ser avaliados na categoria
de novos alimentos (Resolução nº. 16/1999)
ou na categoria de alimentos com alegações de propriedade
funcional (Resolução nº. 18/1999 e Resolução
nº. 19/1999) e possuem obrigatoriedade de registro com base
no disposto no Anexo II da Resolução RDC nº.
278/2005.
II. Objetivo
Comunicar os resultados das avaliações de segurança
e eficácia do ácido linoléico conjugado –
CLA realizadas até o momento pela Gerência de Produtos
Especiais/ GPESP/GGALI da Anvisa.
III. Análise
A segurança e a eficácia do ácido linoléico
conjugado isolado, nas formas líquidas ou em cápsulas,
ou como ingrediente alimentar para ser adicionado em vários
alimentos foram avaliadas em diversas ocasiões. Ao todo
foram realizadas sete avaliações em um período
de três anos. A primeira ocorreu em outubro de 2003 e a
última foi concluída em outubro de 2006.
As principais questões e evidências científicas
que levaram ao indeferimento de todas as solicitações
realizadas até o momento estão sintetizadas a seguir:
- A ingestão de CLA recomendada pelas empresas supera em
mais de vinte vezes as quantidades usualmente consumidas pela
população, o que levanta preocupações
quanto à segurança de uso desses produtos.
- Existem evidências científicas obtidas em animais
de experimentação e em humanos demonstrando que
a suplementação com CLA pode causar efeitos adversos.
- Estudos experimentais conduzidos em animais e estudos de revisão
demonstraram que a suplementação de CLA pode levar
ao aumento do fígado, esteatose hepática, hiperinsulinemia
e diminuição dos níveis séricos de
leptina (West et al., 1998; DeLany et al., 1999; West et al.,
2000; Tsuboyama-Kasaoka et al., 2000; Kelly, 2001; Clement et
al., 2002; Takahashi et al., 2002; Roche et al., 2002; Yamasaki
et al., 2003; Poirier et al, 2005).
- Estudos randomizados duplo-cegos com homens obesos demonstraram
que os grupos recebendo suplementação com o isômero
t10, c12-CLA tiveram um aumento significativo da resistência
à insulina, da glicemia, do estresse oxidativo e dos marcadores
de inflamação e uma redução significativa
dos níveis de HDL colesterol quando comparados com os grupos
placebos (Riserus et al., 2002a; Riserus et al., 2002b).
- Indivíduos com diabetes tipo 2 suplementados com uma
mistura de isômeros de CLA por oito semanas demonstraram
uma diminuição dos níveis séricos
de leptina (Belury et al., 2003).
- Riserus et al. (2004) demonstraram por meio de um estudo randomizado
duplo-cego com homens obesos que a suplementação
com o isômero c9, t11-CLA aumentou significativamente a
resistência à insulina e a peroxidação
lipídica quando comparado com o grupo placebo.
- Os mecanismos bioquímicos de ação dos
diferentes isômeros e sua interação ainda
não foram adequadamente elucidados e comprovados, sendo
que a maioria desses dados é oriunda de estudos experimentais
em camundongos e de estudos in vitro (Pariza, 2004; McLeod et
al., 2004; Wang and Jones, 2004).
- As evidências existentes sugerem, por exemplo, que o
CLA pode influenciar a apoptose e a diferenciação
celular, alterar o balanço energético, inibir a
lipogênese e aumentar a oxidação lipídica,
entre outros (Pariza, 2004; McLeod et al., 2004; Wang and Jones,
2004).
- Os dados científicos sobre a eficácia do CLA
em humanos também são controversos. Terpstra (2004)
destaca que os estudos realizados em humanos sobre os efeitos
da suplementação de CLA na perda de gordura corporal
tiveram efeito consideravelmente menor do que os obtidos em estudos
experimentais com ratos.
IV. Considerações Finais
Assim, as evidências científicas avaliadas até
o momento não comprovam a segurança de uso e a eficácia
do ácido linoléico conjugado isolado ou como ingrediente
alimentar.
Os efeitos adversos observados em muitos estudos precisam ser
melhores esclarecidos e entendidos. Também são necessários
mais estudos bem controlados que elucidem adequadamente os mecanismos
de ação dos diferentes isômeros e sua interação
em seres humanos e que comprovem sua eficácia.
Portanto, com o intuito de proteger e promover a saúde
da população, o ácido linoléico conjugado
isolado ou como ingrediente alimentar para ser adicionado em vários
alimentos não devem ser comercializados no Brasil como
alimento até que os requisitos legais que exigem a comprovação
de sua segurança de uso, mecanismos de ação
e eficácia sejam atendidos.
VI. Referências
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