Informe
Técnico nº. 37, de 28 de julho de 2008
Botulismo Intestinal
Em
maio de 2007 um famoso noticiário semanal divulgou reportagem
na qual relatou que 16% do mel brasileiro poderia estar contaminado
com Clostridium botulinum. Produtores e comercializadores de
mel – representados na Câmara Setorial da Cadeia
Produtiva do Mel e Produtos Apícolas, sob responsabilidade
do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
– mostraram-se muito preocupados com a repercussão
daquela reportagem sobre o comércio do produto. Assim,
demandaram da Anvisa, representada naquela Câmara Setorial
pela Gerência de Ações de Ciência
e Tecnologia de Alimentos/ Gerência Geral de Alimentos/
Anvisa (GACTA/ GGALI/ Anvisa), manifestação sobre
o assunto. Preocupada com essa possível contaminação
do mel brasileiro, a GACTA/ GGALI/ Anvisa pautou o assunto na
22ª e 23ª reuniões ordinárias da Câmara
Técnica de Alimentos – fórum formado por
especialistas de notório saber, os quais fornecem suporte
técnico à Gerência Geral de Alimentos da
Anvisa. Seguindo orientações dos especialistas,
aquela Gerência estabeleceu contato com a Coordenação
de Vigilância das Doenças de Transmissão
Hídrica e Alimentar/ Secretaria de Vigilância em
Saúde/ Ministério da Saúde a fim de saber
se haveria casos notificados de Botulismo Intestinal no país.
Até aquele momento não havia qualquer notificação
de caso confirmado da doença no Brasil. Com base em publicações
oficiais da Secretaria de Vigilância em Saúde/
Ministério da Saúde e publicações
científicas sobre contaminação do mel brasileiro
com C. botulinum elaborou-se o presente documento.
1 Descrição da doença
O botulismo
é um doença neuroparalítica grave, não
contagiosa, resultante da ação de uma potente
toxina produzida pela bactéria Clostridium botulinum.
Apresenta elevada letalidade e deve ser considerado uma emergência
médica e de saúde pública. Para minimizar
o risco de morte e seqüelas, é essencial que o diagnóstico
seja feito rapidamente e que o tratamento seja instituído
precocemente. Quando causado pela ingestão de alimentos
contaminados, é considerado como doença
transmitida por alimento. A notificação
de um caso suspeito é considerada como surto. A exposição
a alimentos com risco para presença de esporo de C. botulinum
reforça a suspeita em menores de um ano.
Nas amostras de alimentos é comum encontrar formas esporuladas
do Clostridium botulinum, em especial no mel.
É importante salientar que neste alimento, devido ao
alto conteúdo de açúcar e baixa atividade
de água, o esporo não tem condições
de germinar e, portanto, não há produção
de toxina. O botulismo intestinal só se inicia após
a transformação do Clostridium botulinum da forma
esporulada para a forma vegetativa, que se multiplica e libera
toxina no intestino.
2 Agente etiológico
O Clostridium botulinum é um bacilo gram-positivo, anaeróbio,
esporulado e sua forma vegetativa produz toxinas patogênicas
para o homem.
3 Reservatório
Os esporos do Clostridium botulinum são amplamente distribuídos
na natureza, em solos e sedimentos de lagos e mares. São
identificados em produtos agrícolas como legumes, vegetais
e mel e em intestinos de mamíferos, peixes e vísceras
de crustáceos.
4 Modo de transmissão
O botulismo intestinal ocorre com maior freqüência
em crianças com idade entre 3 e 26 semanas –
por isso foi inicialmente denominado botulismo infantil –
devido à ingestão de esporos da bactéria
presentes no alimento, seguida de sua fixação
e multiplicação no intestino. A ausência
da microbiota de proteção permite a germinação
de esporos e a produção de toxina na luz intestinal.
Em adultos são descritos alguns fatores predisponentes,
como cirurgias intestinais, acloridria gástrica, doença
de Crohn e/ou uso de antibióticos por tempo prolongado,
que levaria à alteração da flora intestinal.
5 Período de incubação
O período de incubação não é
conhecido devido a impossibilidade de determinar o momento da
ingestão de esporos. Períodos de incubação
curtos sugerem maior gravidade e maior risco de letalidade.
6 Período de transmissibilidade
Não há relato de transmissão de uma pessoa
a outra.
7 Manifestações clínicas
Nas crianças, o aspecto clínico do botulismo intestinal
varia de quadros com constipação leve à
síndrome de morte súbita. Manifesta-se inicialmente
por constipação e irritabilidade, seguidos de
sintomas neurológicos caracterizados por dificuldade
de controle dos movimentos da cabeça, sucção
fraca, disfagia, choro fraco, hipoatividade e paralisias bilaterais
descendentes, que podem progredir para comprometimento respiratório.
Casos leves caracterizados apenas por dificuldade alimentar
e fraqueza muscular discreta têm sido descritos. Em adultos,
suspeita-se de botulismo intestinal caso apresentem paralisia
flácida aguda, simétrica e descendente, com preservação
do nível de consciência caracterizado por um ou
mais dos seguintes sinais e sintomas: visão turva, diplopia,
ptose palpebral, boca seca, disartria, disfagia ou dispnéia
na ausência de fontes prováveis de toxina botulínica,
como alimentos contaminados, ferimentos ou uso de drogas. O
botulismo intestinal tem duração de duas a seis
semanas, com instalação progressiva dos sintomas
por uma a duas semanas, seguida de recuperação
em três a quatro semanas.
8 Complicações
Desidratação e pneumonia por aspiração
podem ocorrer, precocemente, antes mesmo da suspeita de botulismo
ou do primeiro atendimento no serviço de saúde.
Infecções respiratórias podem ocorrer em
qualquer momento da hospitalização. A longa permanência
sob assistência ventilatória e os procedimentos
invasivos são considerados importantes fatores de risco.
9 Diagnóstico clínico
A anamnese e exames físico e neurológico do paciente
são imprescindíveis para o diagnóstico
do botulismo intestinal. Por ser uma doença do sistema
nervoso periférico, o botulismo não está
associado a sinais de envolvimento do sistema nervoso central.
Movimentos involuntários, diminuição do
nível de consciência, ataxia, crises epilépticas
(convulsões), espasticidade, assimetria significativa
da força muscular e déficit sensitivo em indivíduos
normais não são manifestações indicativas
do botulismo.
10 Diagnóstico laboratorial
O diagnóstico laboratorial mais comum consiste na detecção
da toxina botulínica por meio de bioensaio em camundongos.
Realiza-se também o isolamento da bactéria através
de cultura de amostras.
11 Tratamento
O sucesso do tratamento da doença está diretamente
relacionado à precocidade com que é iniciado e
às condições do local em que é realizado.
Apóia-se em dois conjuntos de ações: tratamento
de suporte e tratamento específico.
12 Prognóstico
Um tratamento de suporte meticuloso pode resultar em completa
recuperação. A letalidade do botulismo diminui
de forma considerável quando a assistência médica
dos pacientes é prestada em unidades de terapia intensiva
(UTI). Mortes precoces geralmente resultam de falha em reconhecer
a gravidade da doença e retardo em iniciar a terapia.
Quando as mortes ocorrem após a segunda semana, geralmente
resultam de complicações, como as associadas à
ventilação prolongada.
13 Aspectos epidemiológicos
Os casos de botulismo intestinal têm sido notificados
na Ásia, Austrália, Europa, América do
Norte e América do Sul. A incidência e a distribuição
real não são precisas porque os profissionais
de saúde em poucas ocasiões suspeitam de botulismo.
Ele pode ser responsável por 5% dos casos de morte súbita
em lactentes. Nos Estados Unidos são notificados aproximadamente
100 casos por ano.
14 Aspectos sanitários
Cereser e colaboradores (2008), realizando revisão bibliográfica,
revelaram que pesquisas microbiológicas em todo o mundo
têm encontrado esporos de Clostridium botulinum entre
4 e 25% das amostras estudadas.
Schocken-Iturrino e colaboradores (1999) pesquisaram a presença
de esporos de C. botulinum em 85 amostras de mel obtidas aleatoriamente
em diversas fontes comerciais (supermercados, pequenos apiários
e entrepostos) de quatro Estados brasileiros (Mato Grosso do
Sul, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e São Paulo).
Dessas amostras, vinte e três (27,06%) apresentaram crescimento
de microrganismos com turbidez e produção de gás.
Esfregaços confirmaram as culturas como bastonetes Gram-positivos
produtores de esporos. As demais 62 (72,94%) amostras apresentaram
outros tipos de bactérias, principalmente cocos. Das
85 amostras analisadas, seis foram positivas para C. botulinum
(7,06%), das quais duas foram identificadas como produtoras
de toxinas A (considerada uma das mais perigosas para humanos),
uma, de toxina B e as outras três, de toxina D.
Rall e colaboradores (2003), pesquisando 100 amostras de mel
vendido em supermercados, feiras-livres e comércio porta-a-porta
em várias cidades do Estado de São Paulo, observaram
que todas as amostras foram negativas para Salmonella, Shigella
e coliformes totais, mas 3% delas apresentaram esporos de C.
botulinum. Além disso, observaram a presença de
fungos e leveduras em 64% das amostras, sendo que somente 25%
excederam os critérios estabelecidos, atingindo contagens
que variaram de zero a 1,5 x 105 UFC/g. Observaram ainda pequenos
bastonetes Gram-positivos esporogênicos em 42% das amostras.
Ragazani e colaboradores (2008) analisaram cem amostras de
mel comercializadas por ambulantes, mercados e feiras livres,
em seis Estados do Brasil (São Paulo, Mato Grosso, Goiás,
Minas Gerais, Ceará, Santa Catarina). Em 61% das amostras,
observaram a presença de bactérias esporuladas.
Dentre essas amostras, 39% apresentaram bactérias sulfito-redutoras,
sendo que 11% eram do gênero Clostridium e 28% do gênero
Bacillus. Dentre os 11% isolados de Clostrídios, 7% foram
confirmados como sendo Clostridium botulinum. Assim os resultados
obtidos por Ragazani e colaboradores (2008) reforçam
a recomendação de que o mel não deve ser
incluído na dieta de crianças menores de um ano
de idade.
15 Notificação
Conforme a Portaria SVS/MS n. 5, de 21 de fevereiro de 2006,
o botulismo é doença de notificação
compulsória. A suspeita de um caso de botulismo exige
notificação à vigilância epidemiológica
local e investigação imediata. Uma vez caracterizada
a suspeita de botulismo, tal fato deve ser comunicado, imediatamente,
aos níveis hierárquicos superiores e áreas
envolvidas na investigação, dando início
ao planejamento das ações.
16 Estratégias de prevenção
A população deve ser orientada sobre o preparo,
a conservação e o consumo adequado dos alimentos
associados a risco de adoecimento. Especificamente no caso do
botulismo intestinal, os pais e educadores devem ser
alertados para não incluir o mel na alimentação
de crianças menores de um ano de idade.
Medidas sanitárias cabíveis devem ser adotadas
de acordo com a legislação vigente e a situação
encontrada.
17 Bibliografia
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