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Câmara Técnica
de Cosméticos - CATEC
Parecer Técnico
ASSUNTO:
Uso de antitranspirantes e sua relação com câncer
de mama
I) Introdução
Recentemente,
informações tem sido divulgadas através da
Internet, na maioria das vezes anônimas, as quais veiculam
informações relacionando-se os sais de alumínio
e seus derivados, usados em antitranspirantes e possíveis
casos de ocorrência de câncer de mama.
Com o objetivo
de trazer informações à população,
pautadas em dados, à luz dos conheci-mentos científicos
atuais a Anvisa - AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÃNCIA
SANITÁRIA - através da GERÊNCIA-GERAL DE COSMÉTICOS
constituiu subcomissão de trabalho, com-posta por Membros
da CATEC - Câmara Técnica de Cosméticos, para
avaliação das informações acima referidas,
e posterior emissão de parecer técnico cientifico.
II) Definição e Legislação Brasileira
Segundo o
Decreto 79094/77(1), antiperspirantes são produtos "destinados
a inibir ou dimi-nuir a transpiração, podendo ser
coloridos e/ou perfumados, apresentados em formas e veículos
apropriados, bem como, associados aos desodorantes". Os diferentes
ativos preconizados para uso como antiperspirantes e suas recomendações
de uso são regulamentados através da Resolução
79/00(2) - Anvisa - item V. Todos os produtos referidos como antitranspirantes
/ antiperspirantes são classificados como produtos de grau
de risco 2, passíveis de registro, obedecidas as formali-dades
legais. Mas, segundo Draelos(3) desodorantes são tidos
como formulações destinadas a re-mover o odor das
axilas, enquanto que os antitranspirantes são usados para
promoverem a redu-ção da quantidade de suor produzido
através de mecanismos fisiológicos. A maioria dos
antitrans-pirantes também funciona como desodorante, mas
a maioria dos desodorantes não age como anti-transpirante.
III) Fisiologia
da transpiração e mecanismo de ação
dos antitranspirantes
Antecedendo
a discussão a respeito da fisiologia da transpiração
e mecanismos de ação dos antitranspirantes, a título
de melhor entendimento do presente parecer, deve ser abordado
as-pectos pertinentes à absorção de sais
de alumínio através da pele, conforme enfocado por
Anane e cols(4). Segundo Cavington(5), os sais de chumbo são
solúveis em água, a mesma propriedade físico-química
atribuída aos sais de zircônio. O mecanismo de absorção
através da pele está su-jeito à distintos
fatores tais como: solubilidade do ativo, formulação,
concentração, tempo de ex-posição,
condições fisiopatológicas da pele, etc.
Com o objetivo de tentar esclarecer a absorção dos
sais de alumínio presentes nas formulações
de antiperspirantes, Flarend e cols(6) desenvolve-ram trabalho
experimental onde indivíduos do sexo masculino e feminino
foram expostos à solu-ções de cloridróxido
de alumínio(Al2 (OH)5.Cl.2 H2O) a 21%, contendo alumínio
radioativo. Para tanto, 0,4 mL da solução acima
referida, foram transferidas para seringas e, aplicada nas axilas
dos voluntários e, em seguida, espalhadas com algodão(swab).
Os autores observaram todos os cuidados necessários para
a realização do experimento. A avaliação
da absorção do alumínio, uti-lizando-se da
molécula radioativa foi determinada nas amostras de sangue
e urina. As aplicações desta solução
e as coletas de amostras de sangue e urina foram realizadas segundo
o delineamento do protocolo previamente elaborado. A absorção,
quer através das análises realizadas nas amos-tras
de sangue e/ou de urina, ficou plenamente caracterizada. Entretanto,
segundo os autores, as concentrações de alumínio
radioativo eram tão baixas que tornavam os resultados não
confiáveis. Finalizando, os autores sugeriram que uma simples
aplicação nas axilas da solução de
cloridró-xido de alumínio, na concentração
referida, não aumentou significativamente a carga de alumínio
corpóreo. Entretanto, os autores salientaram que estudos
mais detalhados tornar-se-ão necessários para esclarecer
a absorção do alumínio através da
pele.
A transpiração assume importante ação
no mecanismo fisiológico relativo aos processos de regulação
da temperatura corpórea (homeostase) ou seja, procurando
manter o estado de equi-líbrio entre as variações
de temperatura corpórea e a do meio ambiente. No suor,
como principais constituintes, foram determinadas elevadas concentrações
das seguintes substâncias químicas: ácido
láctico, uréia, aminoácidos e cloreto de
sódio, às quais tem sido atribuídas propriedades
no processo de hidratação natural (NMF), conseqüentemente,
participando na elaboração de um fil-me hidrolipídico
de superfície, que mantém a umidade da camada córnea
da pele(7). Ainda, como fator natural de hidratação
das axilas cerca de 25.000 glândulas écrinas são
capazes de produzirem grandes quantidades de agentes perspiratórios,
em resposta ao calor e aos estímulos emocionais. Papa e
col(8), propuseram que, dentre os compostos químicos mais
utilizados para reduzir a perspiração os sais de
alumínio e seus complexos (cloridroxido) têm sido
referidos como os mais freqüentes, opinião da qual
participa Exley(9). Papa e col. propuseram ainda que alguns sais
inor-gânicos atuavam nos ductos das glândulas sudoríparas
promovendo danos na difusão do suor secretado para o espaço
intersticial. Eles se retrataram em sua teoria(8). Shelley e col(10)
propuse-ram que alguns sais metálicos se combinam às
fibrilas de queratinas intraductais causando fecha-mentos dos
ductos écrinos e a formação de uma "rolha"
córnea e assim, obstruindo o fluxo de suor para a superfície
da pele. Papa e col.(8) apresentaram evidências de que os
antiperspirantes contendo sais de alumínio podem alterar
o estado fisiológico do ducto sudoríparo, através
da formação de um molde de alumínio no seu
interior, ou seja, devido a formação de um bloqueio
físico prevenindo, dessa forma, o fluxo do suor existente.
Presumiu-se, ainda, que a secreção pu-desse ser
reabsorvida pelo ducto. Segundo os referidos autores, a alteração
acima referida não causa danos à saúde em
razão da grande quantidade de outras glândulas écrinas
às quais assegu-ram os processos envolvidos na termorregulação.
IV) Conclusão
.
Segundo Pasqualete(11), membro do corpo clínico do CEPEM
- Centro de Estudos e Pes-quisa da Mulher), a notícia divulgada
na Internet "quase todos os casos de câncer de mama
acon-tecem no quadrante superior da área do peito, justamente
onde os nódulos linfáticos estão locali-zados
e que, mulheres que passam antiperspirantes, logo depois de raspar
as axilas , aumentam o risco de incidência de câncer"
pode ser esclarecida. Continuou o Dr. Pasqualete: "De fato,
a inci-dência de câncer observada neste quadrante
é um pouco maior, mas a explicação é
simples. É justamente ali que encontramos a maior quantidade
de tecido mamário e, portanto, é uma área
com maior possibilidade para desenvolvimento da doença.
É importante lembrar que, a drenagem linfática da
mama não ocorre apenas na axila, mas em outros locais,
como mediastino e peritônio (áreas no tórax)".
Segundo dados
fornecidos pelo Instituto Nacional de Câncer dos Estados
Unidos também não foram mencionadas pesquisas que
pudessem evidenciar, até a presente data, tal correlação.
Ainda, segundo o Food and Drug Administration (FDA), orgão
que regulamenta, entre outros, o setor de produtos cosméticos,
também não foram relatados, até o momento,
dados que pudessem evidenciar qualquer suporte à teoria
de que os ativos presentes em formulações de antitranspi-rantes
ou desodorantes pudessem causar câncer, conseqüentemente,
segundo o FDA, parece não haver embasamento científico
para esta preocupação.
Ainda, em
relação ao assunto objeto deste parecer, constantes
informações são veiculadas através
da literatura científica bem como através de órgãos
governamentais de alta credibilidade a exemplo dos que se seguem:
http://cis.nci.nih.gov/resources/intlist.htm
cepem@opelink.com.br
www.inca.gov.br
Após
avaliação dos dados apresentados na literatura cientifica,
de divulgação e orgãos de regulamentação,
podemos inferir que até o presente momento não foram
apresentados dados ca-pazes de inferir a relação
sais de alumínio / incidência de câncer de
mama, embora a abordagem absorção de sais de alumínio
deva continuar na mira dos pesquisadores da área.
Este é, s.m.j. o nosso parecer.
V) Referências Bibliográficas
1- Decreto
79094, de 05 de janeiro de 1977, regulamentando a Lei n.º
6360, de 23 de setembro de 1976.
2- Resolução n.º 79, de 28 de agosto de 2000,
publicada em DOU de 31/08/00
3- Draelos, Z. D. Cosméticos em Dermatologia. 2.a ed.,
1999. Editora Revinter, Rio de Janeiro.
4- Anane, R., M. Bonini, J. M. Bergstein and D. J. Sherrard..
New Engl. J. Med. 1984, 310:1079.
5- Covington, T. R.. Handbook of Nonprescription Drugs, 11 ed.,
1996, American Pharmaceuti-cal Association, Washington DC.
6- Flarend, R., Bin, T., Elmore, D. Hem, S. L. Food Chem. Toxicol.,
2001, 39, 163-168.
7- Draelos, Zoe Diana. Aspectos da Transpiração.
Cosmetics & Toiletries, 2001, Vol. 13,
jan/fev, pág 36-42.
8- Papa, C. M. and Kligman A. M. Mechanisms of eccrine anhidrosis:
II. The antiperspirant effect of aluminun salts. J. Invest. Dermatol,
1967, 49:139.
9- Exley, C. Does antiperspirant use increase the risk of aluminium-relates
disease including Al-zheimer's disease? Molec. Med. Today, 1998,
4, 107-109.
10- Shelley, W. B., Hurley, H. J., Jr. Studies on topical antiperspirant
control of axillary hyperhi-drosis. Acta Dermatol. Venereol.,
1975, 55, 241.
11- Pasqualete, H. A. Afastado elo entre desodorante e tumor.
Entrevista ao Jornal O Globo de 05 de janeiro de 2000.
III) Subcomissão
Dermeval de
Carvalho - Prof. Titular aposentado de Toxicologia da Universidade
de São Paulo e Coordenador do Curso de Ciências Farmacêuticas
da Universidade de Ribeirão Preto
Elisabete Pereira dos Santos - Prof. Adjunto/Faculdade de Farmácia
- Universidade Federal do Rio de Janeiro
Octavio Augusto França Presgrave - Tecnologista - Instituto
Nacional de Controle de Qualidade em Saúde/FIOCRUZ - RJ.
Lúcia Helena Fávaro de Arruda - Dermatologista (Sociedade
Brasileira de Dermatologia) e Prof. da Faculdade de Medicina de
Jundiaí.
Ana Lúcia Pereira - Farmacêutica/MsC. Bioquímica
- Gerência Geral de Cosméticos/ Agência Nacional
de Vigilância Sanitária
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