Fármacos manipulados têm sido consumidos
cada vez mais
Fonte: Escola Nacional de Saúde Pública
(ENSP)
Gisele Huf (INCQS) e Francisco José Roma Paumgartten
(ENSP) foram os primeiros a se apresentarem na mesa redonda Viabilidade
tecnológica da produção de medicamentos manipulados
seguros e eficazes, que faz parte da oficina "Medicamentos
manipulados: um desafio para a vigilância sanitária".
A pesquisadora do INCQS explicou o quanto é difícil
se estimar o uso de medicamentos manipulados a partir das receitas
ou do consumo da população, e que esse controle
é feito a partir do que é vendido nas farmácias.
"Esse campo só cresce no Brasil. Cada vez mais a população
passa a consumir tais medicamentos sem se preocupar com a qualidade
deles".
Gisele revelou que entre os anos de 2000 e 2005 o INCQS recebeu
amostras de medicamentos para que fossem feitas análises
de seus conteúdos. Nesse período, foram relatados
51 casos de gravidade elevada com respeito ao consumo de medicamentos
manipulados, causando oito óbitos – a maioria em
crianças – e pelo menos 14 internações
hospitalares. Em todos os casos os medicamentos apresentavam ou
excesso de quantidade das substâncias prescritas ou até
mesmo algumas que não constavam na prescrição
original.
A pesquisadora acredita que o papel da agência reguladora
será fundamental para mostrar ao paciente que é
melhor utilizar o medicamento industrializado, aprovado pela Anvisa
e fabricado com rigorosos controles de qualidade, do que se arriscar
a tomar medicamentos que possam afetar a sua saúde e colocar
sua vida em risco. Informou ainda que seria necessário
que a agência criasse listas de substâncias liberadas
ou não para manipulação, como uma das formas
de controlar o mercado.
Já Francisco Paumgartten apresentou alguns dados
estatísticos (em power point)
a respeito do crescimento desse mercado no Brasil. Em 1998, existiam
apenas 2100 farmácias de manipulação. Esse
número mais que dobrou em quatro anos. Em 2002, estavam
registradas 5200 farmácias. O mesmo ocorreu com especialistas
em manipulação, que nesse período passaram
de 8710 para 14560 profissionais.
Em um breve resumo, o pesquisador contou como se iniciou a questão
do controle sobre as farmácias de manipulação
por parte do governo. Em 2003, foram registrados óbitos
de quatro crianças por uso inapropriado de medicamentos
manipulados. Eles continham alto teor de clonidina, substância
usada como estimulador de crescimento. Com o fato, a Anvisa estabeleceu
a resolução
RE 1621, que proibia o uso de medicamentos de baixo índice
terapêutico. Entretanto, devido a pressões por parte
desse mercado, a Anvisa voltou atrás e liberou sua comercialização.
Em 2004, novas mortes ocorreram na Bahia e em São Paulo.
Um grupo técnico da Anvisa se reuniu para discutir a reformulação
da RDC
33, sobre Boas Práticas de Manipulação.
Entretanto, essa regulamentação ainda é falha,
motivo pelo qual levou a Agência a instituir a Consulta
Pública 31 (PDF),
a fim de aperfeiçoar e adequar essa questão para
uma melhor política nacional.
Paumgartten destacou ainda as principais diferenças entre
medicamentos industrializados (produzidos em larga escala/linha
de produção) e manipulados (menor escala e de forma
artesanal). Entre os fatores destaca-se a questão do controle
de qualidade, que é mais eficaz quando feito em produção
de larga escala. "É difícil fazer um controle
de qualidade em cima de medicamentos fabricados especialmente
para consumo pessoal. Não há como", explicou
o pesquisador. Há também a necessidade de se controlar
as matérias primas/princípios ativos das substâncias
que são utilizadas. Entretanto, afirma, isso é fácil
de se fazer nas indústrias, mas nem sempre é possível
garantir a qualidade deles nas farmácias de manipulação.
E concluiu: "Tudo isso que estamos vendo nessa oficina é
apenas uma pequena parte de um problema muito maior que existe
em nosso país".
O documento final a ser construído nesta oficina de trabalho
será acrescentado à consulta pública da Anvisa,
com vistas a contribuir para uma proposta mais para a política
de medicamentos manipulados no Brasil.
Confira aqui como foi a apresentação
dos pesquisadores Gisele Huf (INCQS) e Francisco José Roma
Paumgartten (ENSP), na oficina "Medicamentos manipulados:
um desafio para a vigilância sanitária".
|