| Brasília,
8 de dezembro de 2005
- 10h15
Livro
conta a história da vigilância sanitária
no Brasil
Resenha de Carlos Tavares
A história da Vigilância Sanitária
brasileira é a história do país, a
história do medo da doença e da morte, um
relato de tragédias e heroísmos, de conquistas,
desafios e perdas, uma espécie de certificado de
resistência às atrocidades do poder, à
ignorância dos governantes, ao descaso das autoridades
sanitárias que no passado isolavam os doentes como
método de cura. E tratavam a população
com a habitual truculência da cegueira administrativa,
em relação à Saúde Pública,
empregando muitas vezes nas comunidades revoltadas a providencial
profilaxia da violência e da brutalidade. Mas essa
é uma memória que deveria permanecer guardada
a sete chaves, se uma nação não fosse
feita também da matéria dos traumas e do sonho
de evolução e modernidade.
É essa história que o escritor Eduardo Bueno
narra em À Sua Saúde – A Vigilância
Sanitária na História do Brasil – a
primeira tentativa de reunir dados, extrair de fatos históricos,
da realidade do passado e do presente, os contornos nebulosos
daquilo que no Brasil Colônia se resumia a uma expressão
– “água vai” – em nome da
Higiene, enquanto nos ares da nova “pátria”
impunha-se a ferro e fogo, no meio rudimentar da Ciência,
a teoria dos miasmas como única explicação
para a destruição do homem pelas enfermidades,
novas e desconhecidas, que a natureza e os colonizadores
trouxeram à Terra de Santa Cruz.
A partir de uma exaustiva pesquisa, encomendada pela Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa),
vertida em livro pela Editora Anvisa, em 208 páginas
Bueno nos mostra como foi construído no Brasil, desde
antes mesmo de seu “descobrimento”, por Cabral,
o conceito de Vigilância Sanitária. Relata
os fatos com tal vigor narrativo, para o resgate histórico
do cotidiano das caravelas e dos incipientes processos de
tratamento e cura, com pleno domínio da técnica
do flash-back, para não cansar o leitor, que fica
difícil não tragar todas as linhas do livro
de um só gole.
Não temos apenas com a obra a história da
Vigilância Sanitária e dos embriões
de formação das ações de Saúde
Pública e de barreiras sanitárias do Brasil,
mas também uma parte da história antiga da
Higiene, da Alimentação e da Medicina, desde
as remotas invenções da inteligência
egípcia, persa, helênica e romana para abater
seus principais inimigos – os micróbios. A
viagem pelo passado da Medicina e da doença que Eduardo
Bueno nos traz só é possível imaginar
com os bilhetes certos para a entrada em outro universo
complexo e fascinante – o da pesquisa documental.
O escritor, autor dos consagrados A Viagem do Descobrimento,
Náufragos, traficantes e Degredados e Capitães
do Brasil, livros de história que carregam o
feito de atingir milhões de leitores, enclausurou-se
durante sete meses nas bibliotecas da Fundação
Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, visitou a Biblioteca Nacional,
os arquivos do Ministério da Saúde e entrevistou
personagens com presença de fundamental importância
na história contemporânea da Vigilância
Sanitária e da Saúde Pública. Entre
eles os ex-presidentes da Anvisa, médicos de vasta
experiência em gestão de Saúde Pública,
Gonzalo Vecina e Cláudio Maierovitch Pessanha Henriques.
Não há dúvida quanto ao caráter
documental do livro, obra de registro histórico que
nem por isso perde o sabor literário de uma narrativa
de medo, de crenças e de horror, injustiças
e vitórias, de renascimento de um povo a partir de
medidas políticas e sanitárias inovadoras
como as de Oswaldo Cruz, com o combate à febre amarela,
e Carlos Chagas, no combate à peste bubônica.
Enfim, À Sua Saúde, configura-se
um rico e extenso relicário de fatos e episódios
indeslindáveis do contexto social e político,
da história do Brasil Colônia, Brasil Império
e República, até os dias atuais. Sem dúvida
uma memória recuperada e consagrada à Saúde
Pública e a quem a realizou nos preceitos de Hipócrates
e de Avicena. Além de tudo isso, conta com introdução
do escritor membro da Academia Brasileira de Letras (e médico
sanitarista) Moacyr Scliar (A orelha de Van Gogh),
o que faz ressaltar sobremaneira o valor da obra.
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