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desafios da Aids
Fonte:
Folha de S.Paulo - 06/12/20011
CAIO ROSENTHAL e MÁRIO SCHEFFER
No último final de semana, manifestações
em todo o mundo marcaram o Dia Mundial de Luta Contra a Aids. No
vale do Anhangabaú, em São Paulo, ONGs estenderam
uma colcha de retalhos gigante, tecida em memória das 150
mil pessoas que já morreram por causa da doença no
Brasil.
Em Paris, ativistas protestaram "contra a outra guerra, que
mata 10 mil pessoas por dia". Lembraram que, após o
atentado de 11 de setembro, uma coalização mundial,
liderada pelos países ricos, rapidamente disponibilizou recursos
sem limites para combater o terrorismo, soma que jamais foi destinada
para conter a epidemia. Uma passeata de crianças tomou as
ruas de Johannesburgo, África do Sul, para dizer ao mundo
que a epidemia está bem longe do fim, apesar da insistência
de seus governantes em negar a existência do HIV.
Aqui, quando a Aids surgiu, o meio médico e as pessoas infectadas
compartilhavam sensações de dor, sofrimento, angústia,
revolta, medo e impotência. Assim, sem rumo e sem remédio,
por muito tempo assistimos à Aids levar aqueles que nos eram
próximos e queridos. Vimos a Aids separar amantes, desmanchar
sonhos e interromper projetos e histórias de vida.
Somente quando conseguimos juntar tantos sentimentos, de tantas
pessoas, foi possível criar uma consciência coletiva,
corajosa e contundente, que imprimiu avanços e conquistas,
mas que nem sequer são definitivas.
Nessas duas décadas, a Aids mexeu com aspectos sociais e
culturais, subverteu crenças religiosas e colocou em xeque
verdades científicas. Revoluções ocorreram
no campo da medicina, da sexualidade, da ética e das políticas
de saúde pública. A epidemia levou todos nós
a profundas reflexões sobre valores, conceitos e preconceitos.
A Aids demonstrou, ainda, que era possível que as pessoas
afetadas por uma doença se unissem para lutar por seu próprio
destino. Foi assim que nasceram as ONGs de militância contra
a epidemia. Avessos aos métodos tradicionais e movidos pela
urgência, milhares de ativistas impuseram, na garra e no grito,
a idéia de que o Brasil e o mundo estão diante de
uma urgência sanitária que exige medidas excepcionais.
Em breve, teremos medicamentos mais eficazes e toleráveis,
mas também precisamos de uma vacina preventiva
Os esforços de cientistas e médicos foram recompensados:
a Aids, hoje em dia, é uma doença crônica. Isso
graças à combinação de drogas potentes,
ainda que não possamos nos esquecer das dificuldades de adesão
ao tratamento e da intolerância aos efeitos colaterais.
O arsenal anti-Aids aguarda reforços. Em futuro próximo,
teremos medicamentos mais eficazes e toleráveis, mas também
precisamos de uma vacina preventiva. Têm avançado pouco
os estudos de vacinas, considerados de alto risco para uma indústria
farmacêutica que já explora o lucro certo e exorbitante
com os anti-retrovirais. Se não houver compromisso político
e financeiro prioritário dos países ricos, certamente
as pesquisas de vacinas vão naufragar.
Quanto ao programa brasileiro de combate à Aids, elogiado
pelos quatro cantos do mundo, é preciso encarar alguns fantasmas
que podem ameaçar sua excelência no futuro. A começar
pela ganância dos laboratórios multinacionais detentores
das patentes. Após liderar a cruzada pela mudança
no Tratado Internacional de Propriedade Intelectual (Trips) na última
reunião da OMC (Organização Mundial do Comércio),
o Brasil deve fazer valer o texto que defendeu: "Nada deve
impedir o país a tomar medidas para proteger a saúde
pública". Do contrário, a produção
de novos genéricos baratos estará comprometida no
curto prazo.
Coragem e soberania são necessárias para a quebra
das patentes, único meio de salvar a vida de milhões
de pessoas, aqui e nos outros países pobres. A frouxidão
das políticas de prevenção, a manutenção
do preconceito e a não-garantia plena dos direitos das pessoas
que vivem com Aids -aliadas aos péssimos indicadores de saúde,
ao desemprego, à péssima distribuição
de renda, à miséria e ao descaso com os compromissos
sociais- compõem o caldo de cultura para a propagação
do HIV.
Exemplo contundente vem do continente africano, onde a baixa expectativa
de vida da população vai inviabilizar alguns países
nas próximas décadas. Viver num Brasil e num mundo
sem Aids não é apenas um sonho.
Resta a certeza de que o homem será capaz de vencer todos
os desafios que lhe são impostos.
Caio Rosenthal, 52, é médico infectologista e conselheiro
do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo.
Mário Scheffer, 34, sanitarista, é ativista da luta
contra a Aids e membro do Conselho Nacional de Saúde.
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