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10/12
Disputa comercial põe decisão da Anvisa sob suspeita
10/12
Mercado de genéricos desperta estrangeiros
10/12
Desabafo




Disputa comercial põe decisão da Anvisa sob suspeita
Especialistas contestam decisão do órgão que registrou o remédio Gengraf, usado por transplantados, como genérico
Fonte: Folha de S.Paulo - 10/12/2001

WLADIMIR GRAMACHO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Uma disputa milionária que envolve os laboratórios Abbott e Novartis colocou sob suspeita decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). As duas fábricas competem pelo controle nas vendas do medicamento genérico ciclosporina, estimadas em R$ 60 milhões anuais.
O medicamento é destinado a pacientes transplantados e pretende reduzir as chances de rejeição do órgão. Pelo menos 8.000 pessoas consomem a droga no país, segundo estimativa de entidades que os representam.
A batalha, que já ganhou os tribunais, atém-se ao que, aparentemente, é uma firula técnica: saber se o medicamento do Abbott (Gengraf) é exatamente igual ao produto adotado como referência para a concessão do registro como genérico, produzido pelo Novartis (Sandimmun Neoral). Mas o detalhe, dizem especialistas, pode custar a vida de pacientes.
Sendo igual, a Anvisa estava correta quando em 7 de maio deu ao Gengraf, do Abbott, registro como genérico. Não sendo, a Anvisa cometeu um erro.
O que a legislação (lei 9.787) exige como critério para a concessão do registro de genérico é que o medicamento seja intercambiável, ou seja, que permita ao paciente comprar qualquer um dos produtos disponíveis no mercado a partir da mesma receita médica.
Controvérsias
"Não há diferença entre o medicamento genérico ciclosporina do Abbott e o medicamento de referência Sandimmun Neoral", sustenta o diretor-presidente da Anvisa, Gonzalo Vecina Neto.
Segundo ele, o Gengraf foi submetido a cinco testes de bioequivalência e foi aprovado. Além disso, os exames foram aprovados pela FDA, a Anvisa dos EUA, diz.
Há controvérsias. O professor Antônio Carlos Zanini, coordenador do Sistema de Informação sobre Medicamentos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, sustenta que "o medicamento da Abbott demora mais para ser absorvido".
Em resumo, "o paciente corre riscos ao usar a receita de um [com dosagem e posologia adequadas" para comprar o outro e vice-versa", afirma Zanini.
A opinião do diretor da Faculdade de Farmácia da UFMG, Gerson Pianetti, é diferente. Ao fazer uma simulação em laboratório, Pianetti concluiu que os dois medicamentos demoram o mesmo tempo para serem absorvidos pelo estômago.
Mas o especialista da UFMG faz ressalvas. "Meu teste não foi feito em seres humanos. O ideal é que esse produto seja testado no Brasil, com amostras da população brasileira, para acabar com essa discussão", diz Pianetti.
Já o presidente do Conselho Regional de Farmácia do Distrito Federal, Antônio Barbosa da Silva, sustenta que "os medicamentos são substancialmente diferentes, o que contraria a legislação brasileira sobre os requisitos para a concessão de registro genérico".
Para ele, o registro "foi concedido de modo irregular". O conselho move ação judicial contra o registro. Já teve duas vitórias.
No dia 5 de setembro, o juiz federal substituto Carlos Eduardo Martins, da 6ª Vara de Brasília, considerou que "não sendo [os medicamentos" intercambiáveis entre si, não poderia a Anvisa ter concedido o registro de medicamento genérico ao Gengraf".
Em 4 de outubro, a decisão foi ratificada pelo juiz Tourinho Neto, presidente do Tribunal Regional Federal (TRF) de Brasília. O mérito do caso deve ser julgado pelo TRF nas próximas semanas.
Além desse litígio, Barbosa e Vecina ameaçam mover processos judiciais um contra o outro. Acusam-se mutuamente de agirem de má-fé.
"Vecina não está sendo transparente. Até para preservar a Anvisa, ele deveria exigir um teste de bioequivalência a ser feito no Brasil", diz Barbosa. "O Barbosa é um sujeito correto mas é um pouco estabanado no jeito que faz as coisas", afirma Vecina, que não cogita a hipótese de reestudar o caso.
Distância
Os próprios laboratórios têm mantido alguma distância da polêmica. "Como o produto [do Abbott" foi registrado pela Anvisa, ele certamente atende às exigência deste órgão", informou nota da Novartis enviada à Folha.
"A ciclosporina produzida pelo Abbott é distribuída em quase 20 países desde maio de 2000, após aprovação do FDA. Sua bioequivalência foi demonstrada em estudos específicos. Se necessário for, [a empresa" irá adotar as medidas legais cabíveis contra aqueles que divulgam informações errôneas sobre o produto", diz o Abbott, também em nota oficial.
Para a Anvisa, contudo, não há o que discutir. "Nós conseguimos vencer [todas as etapas para o registro". Então, não achamos que haveria qualquer empecilho para dar o registro", diz Vecina.
A Procuradoria da República em São Paulo tem inquérito aberto sobre o caso. Em Brasília, a Polícia Federal estuda pedido de inquérito para investigar o registro.
Ao analisar o caso, a gerente-geral de Medicamentos Genéricos da Anvisa, Vera Valente, pediu em 16 de abril parecer do professor José Gomes de Pinho. O parecer tem fomentado a polêmica.
Na resposta, de 27 de abril, Pinho sustenta que "o conteúdo do produto Neoral apresenta-se sob a forma de microemulsão [partículas menores", enquanto o conteúdo do produto Gengraf está na forma de dispersão [partículas maiores". Do exposto, infere-se que o conteúdo do produto Gengraf difere substancialmente do Neoral".
Vera Valente considerou que a diferença não era suficiente para impedir o registro. Procurada pela Folha por sete vezes nas últimas semanas, ela alegou "problemas de agenda" e não deu entrevista.
Pinho diz que não quer falar mais a respeito. Informa que recebeu várias pressões e que tudo o que tinha a dizer está escrito no parecer enviado à Anvisa.
Vecina afirma que a diferença apontada por Pinho não é relevante. Cita outro parecer em que o mesmo especialista diz que, "incontestavelmente, trata-se da mesma forma farmacêutica".
O que importa é que são cápsulas, diz Vecina, e não se o conteúdo é apresentado sob a forma de microemulsão ou dispersão.
Licitação
Segundo Barbosa, a decisão da Anvisa favoreceu o Abbott numa licitação feita pela Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo.
Uma semana após a concessão do registro ao Gengraf como genérico, no dia 15 de maio o produto similar do laboratório foi anunciado como vencedor da licitação. A decisão da secretaria foi influenciada pelo registro, segundo admitiu a coordenadoria geral de administração do órgão paulista.
No dia 31 de maio, o "Diário Oficial" do Estado de São Paulo publicou esclarecimento da coordenadoria sobre o caso.
"Durante o processo licitatório foi concedido o registro como genérico [ao Gengraf". Não podendo a empresa [Abbott" alterar sua proposta, será entregue o medicamento ciclosporina marca Gengraf, registrado como similar que é o mesmo medicamento registrado como genérico, sem marca e com outro número de registro mas, frise-se, é o mesmo medicamento bioequivalente e intercambiável com o referência, Sandimmun Neoral", afirmava o texto.


Mercado de genéricos desperta estrangeiros
Fonte: Globo - 10/12/2001

Martha Beck

BRASÍLIA. Laboratórios canadenses, indianos e alemães estão se preparando para entrar no mercado brasileiro de genéricos, que nos últimos 12 meses movimentou US$ 110,5 milhões. Segundo a gerente-geral de genéricos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Vera Valente, os maiores atrativos do mercado nacional são um crescimento mensal de 15% e o fato de a lei de patentes brasileira ter apenas cerca de cinco anos.
Em unidades, as vendas nos últimos 12 meses foram de 32,6 milhões, ou cerca de 26% do mercado farmacêutico nacional. Nesse período, o crescimento do mercado de genéricos foi de 304% em unidades e 78% em faturamento.
- Como a legislação brasileira é recente, 86% do mercado não são protegidos por patentes. Por isso, é mais fácil fabricar os genéricos, que são cópias de produtos de marca - diz Vera, que foi convidada pelo governo canadense para falar, no Canadá, sobre a política brasileira de genéricos.
Somente no período de setembro a outubro, o crescimento do mercado de genéricos no país foi de 30%. De olho nesse potencial, o maior fabricante de genéricos do Canadá, o laboratório Apotex, já iniciou um investimento de US$ 3 milhões na construção de sua fábrica em São Paulo e deve começar a produzir genéricos no Brasil em 2004.
Mercado cresce em ritmo mais rápido que o previsto
Vera Valente afirma que o mercado de genéricos vem crescendo em um ritmo muito mais rápido que o previsto pelo governo. A meta da Anvisa era ter 300 genéricos registrados até o fim deste ano, mas, até outubro, 426 genéricos já estavam autorizados pela agência. Do total de autorizações, 339 são de venda em farmácia e 87, de uso hospitalar. Atualmente 29 laboratórios dividem o mercado brasileiro, fabricando genéricos em 1.362 apresentações.
O laboratório indiano Ranbaxy também quer começar a produzir genéricos no Brasil em 2003. A empresa ainda analisa se vai construir sua fábrica em Goiás ou no Espírito Santo e deve investir no projeto US$ 20 milhões. Já o laboratório alemão, Hexal, vai construir uma fábrica no Paraná e deve começar a produzir os medicamentos em junho de 2003.
Vera disse que estas empresas poderão fabricar genéricos ainda inéditos no Brasil, como hormônios sintéticos para o tratamento da osteoporose e de problemas da tireóide, além de remédios contra câncer e diabetes.
O genérico mais vendido no Brasil, o anti-hipertensivo Captopril, já conseguiu superar as vendas de seu produto de referência, Capoten, do laboratório Bristol. É também o caso do produto para o tratamento da úlcera, Cloridrato de Ranitidina, no quarto lugar entre os genéricos mais vendidos. O produto já vende mais que seu produto de marca, Antak, do laboratório Glaxo Wellcome.
Vera afirmou também que os quatro maiores fabricantes de genéricos ainda são indústrias nacionais: Medley, EMS, Biosintética e Eurofarma. Segundo ela, estas empresas conseguiram subir no ranking nacional e aumentar sua participação no mercado. O Medley passou do 30 para 14 lugar entre os maiores laboratórios do país desde que começou a fabricar genéricos. Estes produtos representam hoje 40% do faturamento do laboratório, ou seja, US$ 40 milhões. Em unidades, os genéricos representam 75% das vendas da empresa.
Genéricos representam 25% do faturamento do EMS
No caso do laboratório EMS, os genéricos representam 25% do faturamento, ou US$ 35 milhões. A empresa passou do 24 lugar no ranking nacional para o 12 lugar. Já a Biosintética passou do 22 para o 18 lugar no ranking. Neste caso, os genéricos representam 30% do faturamento da empresa: US$ 20 milhões.


Desabafo
Fonte: Correio Brasiliense - 10/12/2001

Pode até não mudar a situação, mas altera sua disposição.

Serra, o candidato genérico de FHC.
Murilo Coura Brito - Asa Norte


 
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