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11/11
ONGs apóiam Brasil na briga das patentes
11/11
Brasil/ Crise no Ninho


ONGs apóiam Brasil na briga das patentes
Fonte:O Estado de S.Paulo - 11/11/2001


A inglesa Oxfam e a francesa Médicos sem Fronteira estão entre as mais combativas

FERNANDO DANTAS

DOHA - O Brasil, a Índia e os 50 países que vêm lutando para garantir a igualdade do direito à saúde pública sobre o direito à propriedade intelectual têm como aliados algumas das ONGs mais poderosas e sérias do mundo, como a francesa Médico sem Fronteiras e a Oxfam International, que surgiu na Inglaterra.

Estas e outras ONGs vêm tentando mobilizar a opinião pública no mundo desenvolvido a favor dos países que quebram ou tentam quebrar patentes.
Agora, elas apóiam a posição brasileira na 4.ª Reunião Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) em relação à Declaração sobre Propriedade Intelectual e Saúde Pública.

A Oxfam International é uma das mais envolvidas na questão do Trips (o acordo da OMC sobre propriedade intelectual) e a sua relação com a saúde pública. Em um estudo divulgado recentemente, a Oxfam coloca o problema em uma perspectiva muito mais ampla do que a habitual. Para Michael Bailey, autor do trabalho e maior especialista da Oxfam nesta questão, a briga pela redação do quarto parágrafo da declaração é apenas mais um capítulo da estratégia global dos Estados Unidos de esticar os ganhos econômicos associados ao direito das patentes.

O outro lado desta estratégia, segundo a Oxfam, é exemplificado pelo caso da pneumonia infantil, que mata dois milhões de crianças por ano. No Quênia, informa o estudo, o antibiótico Azithromycim, da multinacional farmacêutica americana Pfizer, está patenteado, e custa cinco vezes mais do que o genérico equivalente feito na Índia. O Quênia, porém, não pode importar o produto indiano. O documento observa que o preço daquele antibiótico no Quênia é semelhante ao da Dinamarca, apesar de o primeiro país gastar US$ 17 per capita por ano com saúde, e o segundo aplicar US$ 2,3 mil.

A economia americana, segundo o estudo, recebe mais da metade dos royalties e das receitas pagas pelo uso de produtos licenciados em todo o mundo. Em 2000, os Estados Unidos faturaram US$ 36,5 bilhões com a exportação de produtos patenteados, e pagaram US$ 13,3 bilhões para outros países, tendo um ganho líquido de US$ 23 bilhões. Nenhum outro país tem um saldo líquido de mais de US$ 1 bilhão nesta conta.

A estratégia americana de maximizar o ganho das patentes tem três pilares, segundo a Oxfam. O primeiro são as investigações e sanções americanas, sob a égide da Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos. Segundo o estudo, "no final dos anos 80, no caso brasileiro, as sanções comerciais americanas foram bem-sucedidas em pressionar o País a introduzir patentes farmacêuticas, e quebraram a resistência à inclusão do Trips no pacote da rodada Uruguai". A lei de patentes brasileira foi passada em 1996, e começou a vigorar em 1997. A Oxfam considera que o Brasil adotou a lei de patentes nove anos antes do prazo limite do Trips (2006) em parte por pressões americanas.

O segundo pilar da estratégia americana são os acordos bilaterais de propriedade intelectual, e os acordos bilaterais e regionais de comércio com determinações sobre propriedade intelectual que especificam em detalhe como as leis nacionais devem ser. O estudo cita o caso do acordo de livre-comércio entre os Estados Unidos e Jordânia, que impede este país de comprar no exterior produtos patenteados mais baratos, restringe a definição de emergência nacional e toma outras medidas que fortalecem o direito de propriedade intelectual de remédios.

O acordo Trips, quando implementado, obriga os países a garantir direitos de patentes de 20 anos em todas as áreas tecnológicas, inclusive remédios.
Segundo a Oxfam, os Estados Unidos também vêm pressionando os países a aderirem ao que ao "Trips plus (mais)". O Trips plus elimina algumas das salvaguardas à prevalência do direito de propriedade intelectual que estão no próprio Trips, e contém outros reforços ao direito das patentes.

O terceiro pilar da estratégia americana é o próprio acordo Trips, e o terreno que ele dá para a contestação de políticas nacionais de medicamentos. A Oxfam reconhece que os Estados Unidos já cederam e recuaram em importantes aspectos desta estratégia.
Na terça-feira, o representante comercial americano, Robert Zoellick, anunciou duas concessões unilaterais aos países mais pobres que não têm como arcar com os custos dos medicamentos para a aids. O primeiro foi a extensão de 2006 para 2016 do limite para que introduzam leis de patentes compatíveis com o Trips. Zoellick também propôs uma moratória de cinco anos nos questionamentos na OMC de iniciativas de países africanos para combater a aids e outras doenças mortais.

Isto, se concretizado, dá à África do Sul a liberdade de interpretar como quiser as flexibilidades do Trips. Em teoria, portanto, a iniciativa americana poderia enfraquecer o apoio que este país vem dando ao esforço do Brasil e da Índia para garantir a sua versão da declaração. O ministro da Saúde, José Serra, que está lutando ativamente pela versão brasileira e indiana da declaração acha que as concessões americanas "são irrelevantes".

Na sua visão, os países africanos não têm como produzir os genéricos, pois carecem de uma infra-estrutura industrial. Se outros países em desenvolvimento continuarem sendo questionados na OMC por produzir e exportar genéricos de drogas patenteadas, para países com emergências de saúde, as nações africanas continuariam tendo dificuldade para obter as drogas.

Brasil/ Crise no Ninho
Fonte:Folha de S.Paulo - 11/11/2001

Para marqueteiro de FHC, 2002 leva PSDB à autofagia
Partido se mobiliza para evitar racha com disputa Serra-Tasso

SANDRA BRASIL
DA REPORTAGEM LOCAL

A "ausência de critério explícito" para a escolha do candidato do PSDB à sucessão do presidente Fernando Henrique Cardoso "está conduzindo o partido à autofagia [ato de autodevorar-se"".
Essa é a avaliação do sociólogo Antônio Lavareda, que trabalhou nas campanhas de 1994 e de 1998 de FHC e que faz pesquisas de opinião pública para o governo. Para Lavareda, o acirramento da disputa entre os principais presidenciáveis do PSDB, o ministro José Serra (Saúde) e o governador Tasso Jereissati (CE), "enfraquece a imagem do partido e deixa os militantes tucanos perplexos".

Após uma semana de turbulências entre Tasso e Serra por causa da participação dos pré-candidatos do PSDB no horário eleitoral do partido, o alerta para uma possível "autofagia" soou no ninho tucano na sexta-feira passada.
Líderes do PSDB passaram a defender a fixação de critérios para a definição do candidato do partido. O próprio Tasso saiu em defesa dessa tese e denunciou a existência de um "jogo de intrigas".

O líder do PSDB na Câmara, Jutahy Júnior (BA), da ala de Serra, juntou-se ao coro. "Passamos por uma turbulência baseada em intrigas. Defendo que se defina um critério claro para a escolha do candidato. É a única forma de acatamento um recíproco do resultado", disse. "Do jeito que está, é desgastante para o partido."

O presidente do PSDB, José Aníbal (SP), ainda diz acreditar que o partido vá chegar a um nome de consenso. "É hora de conversarmos. Se definirmos o candidato sem prévias, vai ser melhor. A convergência é muito melhor." E Aníbal, acusado de ser partidário de Tasso, ainda terá de gastar muita saliva. "Pelo jeito, está difícil [de sair um candidato de consenso"", disse Tasso.
Inconformado com o aquecimento da controvérsia, o senador Teotônio Vilela Filho (PSDB-AL) disse que vai sugerir a FHC que converse com Serra e com Tasso para acalmá-los. "Considero extremamente positivo que o partido tenha vários candidatos, mas preocupa o acirramento pessoal. Isso deve ser interrompido. Estão valorizando muito a futrica", afirmou. Disse que tanto

Serra como Tasso estão "preparados" para ser presidente da República. "Houve mais fumaça do que fogo. É hora de acabar como o fumaceiro."
Marqueteiros

A temperatura entre os tucanos começou a subir na semana retrasada, quando Tasso passou a defender a aparição dos presidenciáveis nos programas do partido. Serra era contrário. Para o ministro, o horário eleitoral deveria ser utilizado apenas para divulgar as ações do governo, entre as quais as realizações de seu ministério.

O publicitário Nelson Biondi foi um dos principais conselheiros de Serra no episódio. Segundo a Folha apurou, Biondi, que está cotado para ser o marqueteiro-chefe de uma eventual campanha presidencial do ministro, crê que o uso do horário gratuito para expor os seus presidenciáveis fará o PSDB perder o seu principal argumento contra o crescimento da governadora Roseana Sarney (PFL-MA) nas pesquisas para presidente.

Os tucanos têm dito que Roseana só cresceu porque foi ostensivamente exposta pelo seu partido. A diferença é que o PFL dedicou somente à governadora maranhense quase todo o tempo do horário eleitoral gratuito. Só que, no PSDB, há quatro pré-candidatos (Serra, Tasso, o ministro Paulo Renato Souza, da Educação, e o governador Dante de Oliveira, do Mato Grosso).

Outro detalhe na avaliação de Biondi: além de ter muito tempo de TV, a governadora é mulher, é novidade e aparece muito bem no vídeo. Com uma exposição menor do que a de Roseana, Serra e Paulo Renato, conhecidos por sua atuação em seus ministérios, teriam pouco espaço para crescer.

O marqueteiro oficial do PSDB, Paulo de Tarso Santos, também defendia que os programas do partido deveriam divulgar apenas as realizações do governo.
Diante de avaliações como essas, Serra viajou para o Qatar, no Oriente Médio, sem deixar gravada sua participação no programa.

Na noite de terça, na queda-de-braço, Tasso levou a melhor. A Executiva do PSDB decidiu incluir os presidenciáveis nas inserções do partido. Mas Serra não saiu de mãos abanando: conseguiu a garantia do PSDB de que ninguém será apresentado como pré-candidato. O PSDB está usando imagens de Serra gravadas para o programa do partido que foi ao ar em abril. Tasso gravou especialmente para o horário gratuito.

Enquanto Serra tem Biondi como conselheiro, Tasso segue à risca a cartilha do publicitário Nizan Guanaes -responsável também pelos programas de Roseana. Nizan, assim como Antônio Lavareda (que também trabalha para Tasso e Roseana), defende a exposição dos pré-candidatos tucanos.

Nizan, que trabalhou nas campanhas de FHC em 1994 e em 1998, tem atuado como conselheiro da comunicação do Planalto desde o anúncio da saída do ministro Andrea Matarazzo da Secretaria de Comunicação. A influência de Nizan na comunicação do governo contribuiu para que o publicitário Luiz Macedo desistisse de suceder Matarazzo.

Serra é quem mais usa rede nacional

ELVIRA LOBATO
CHICO SANTOS
DA SUCURSAL DO RIO

O ministro da Saúde, José Serra, que abriu uma crise no PSDB ao recusar-se a participar do próximo programa televisivo do partido como pré-candidato à Presidência, é o membro do governo FHC que mais aparece em rede nacional obrigatória.

Segundo levantamento das entidades de radiodifusão, José Serra apareceu 12 vezes em transmissão obrigatória na televisão, oito das quais em rede nacional. As aparições lhe garantiram 32 minutos de exposição no rádio e na TV -22 minutos em rede nacional e 10 minutos em rede regional.

O tempo em rede nacional é o dobro do usado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, que apareceu por 11 minutos ao longo do ano: duas vezes em setembro (dias 2 e 21) e em 8 de outubro.

As aparições de Serra se tornaram mais frequentes a partir da segunda quinzena de agosto. De lá para cá foram cinco pronunciamentos em rede nacional e quatro em redes regionais, no total de 23min30s. Só em outubro foram cinco entradas, em um espaço de 13 dias, para divulgar assuntos do seu ministério que têm impacto popular, como remédios genéricos e campanhas de vacinação.

Sua última aparição, de 2min, aconteceu no domingo passado, para convocar a população de mais de 40 anos a participar da campanha de prevenção à hipertensão arterial. Serra tinha marcado um novo pronunciamento para ontem, de 1min20s de duração, com transmissão para 13 Estados, para conclamar as mulheres a se vacinarem contra a rubéola, mas cancelou o pedido, na véspera, em razão da viagem para o Qatar.

O ministro da Educação, Paulo Renato, outro pré-candidato do PSDB à Presidência, também tem tido seu quinhão, mas em escala bem menor. Ele aparece em segundo lugar entre os membros do governo que mais fizeram pronunciamentos no rádio e na TV.

O tempo de exposição de Paulo Renato, segundo o levantamento das entidades de radiodifusão, foi de 15min, distribuídos em cinco aparições, três com cobertura nacional e duas de âmbito regional, de 3min cada uma. Quadro delas foram no segundo semestre.
O terceiro pré-candidato tucano, o governador do Ceará, Tasso Jereissati, não tem a mesma prerrogativa, por não possuir cargo público federal. Ele, no entanto, a exemplo de políticos como o senador José Sarney (PMDB-AP) e o governador de Sergipe Albano Franco (PSDB), tem um pé na radiodifusão: é acionista da TV Jangadeiro, que retransmite a programação do SBT no Ceará.

Os empresários de radiodifusão avaliam que a frequente exposição de Serra pode beneficiá-lo politicamente na corrida eleitoral.

 

 
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