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Genéricos na Imprensa
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12/08
Concorrência fraudada
12/08
Pé no freio




Concorrência fraudada
Fonte: Correio Braziliense -12/08/2001


Laboratório reduz preço cobrado por remédio após ser informado, pela Secretaria de Saúde do DF, sobre valor da proposta enviada pelo concorrente. É a segunda vez, este ano, que empresa leva vantagem

Samanta Sallum
Da equipe do Correio

A Secretaria de Saúde do Distrito Federal favoreceu o laboratório Novartis em dois processos de compra de remédios para tratamento de pacientes renais crônicos. A denúncia envolve fraude no resultado da tomada de preços realizada pela secretaria, para beneficiar o medicamento de marca em detrimento do genérico, que faz o mesmo efeito e apresentou proposta mais barata.
A Unidade de Transplantes da Secretaria de Saúde recusou, em julho, a compra do genérico Ciclosporina - medicamento para evitar rejeição a órgãos transplantados - e optou pelo remédio do Novartis. Na primeira tomada de preços, a compra de 39 mil cápsulas do genérico fabricado pelo laboratório Nature's custaria R$ 117.560,00. A proposta do Novartis era de R$ 123.040,00 e mesmo assim foi escolhida.
O resultado da tomada de preços foi alterado para beneficiar o Novartis. O processo aconteceu de forma irregular, como provam documentos aos quais o Correio teve acesso, encaminhados pelo laboratório à Secretaria de Saúde. Às 16h36, do dia 26 de julho, o Novartis, por fax, informou que cobrava R$ 1,24 por cápsula. O laboratório Nature's ofereceu o genérico por R$ 1,18.
Mas, às 18h39 do mesmo dia, o laboratório Novartis enviou outro fax baixando seu preço para R$ 1,16 e acabou fechando negócio com a Secretaria de Saúde. Isso graças à interferência direta do médico da Unidade de Transplantes, Marcelo Almeida, responsável pelo pedido do medicamento.
Após conhecer o resultado das propostas colhidas pela Diretoria de Material da Secretaria de Saúde, em que o genérico aparece como o mais barato, Almeida telefonou para o Novartis e informou que o concorrente genérico tinha apresentado preço mais baixo. O laboratório teve, assim, a chance de apresentar nova proposta. O novo preço foi acrescentado no mapa do comparativo de preços, documento oficial da Comissão Permanente de Licitação.
''Isso depois de ser avisado do resultado da proposta do concorrente'', destacou o presidente do Conselho Regional de Farmácias (CRF), Antônio Barbosa. A denúncia de que a Secretaria de Saúde direcionou a compra do remédio para o Novartis é do CRF e do Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos (Idun).
MESMA CHANCE
A reconsulta fere a igualdade de oportunidade entre candidatos e é proibida pela lei 8.666/1993, que institui normas para as licitações da administração pública. ''Se tivéssemos a mesma chance de reconsulta, também teríamos reduzido o preço. Nosso remédio já é utilizado em oito mil pacientes sem problema algum'', sustenta Carlo Oliani, diretor científico da Nature's.
Em parecer técnico à Comissão de Licitação, Almeida alega que a marca Novartis é a tradicionalmente usada pelos transplantados. E que a troca causaria transtornos, porque seria necessário readaptar as doses. ''O parecer técnico da coordenação de nefrologia é pela Ciclosporina Novartis - firma 2'', destaca o documento assinado por Almeida, que é coordenador de Nefrologia da Secretaria de Saúde. No parecer, Almeida explicita que o laboratório apresentou menor preço após ''reconsulta''.
A Novartis já tinha sido beneficiada, também em julho, na tomada de preços para a compra de 160 mil cápsulas do Ciclosporina. Foram consultadas seis empresas. Os laboratórios Abbot e Nature's apresentaram preços menores do que os do Novartis, que mesmo assim foi escolhido para fornecer o produto. Cobrou por cápsula R$ 1,20, enquanto os outros dois ofereceram R$ 1,10 e R$ 1,17.
Mais uma vez, o médico Marcelo Almeida, o mesmo que interferiu na outra compra em favor da marca Novartis, defende em parecer que a Secretaria de Saúde escolha o mesmo laboratório. Alega que deve-se manter ''a qualidade e a segurança do tratamento aos transplantados, que somam cerca de 350 pacientes''.
O médico ainda aponta que a diferença de preços apresentados entre os concorrentes - R$ 0,20 por cápsula -, não justifica o gasto necessário no procedimento de troca do remédio para os testes de redosagem nos pacientes. O parecer foi acatado e a secretaria fechou a compra com o laboratório Novartis, por R$ 456 mil. Se tivesse optado pela proposta mais barata, a compra total do remédio sairia por R$ 418 mil.
O laboratório Nature's rebate a alegação do médico. ''Nós oferecemos de graça o material necessário para fazer os testes de redosagem. A secretaria não teria custo com isso. Além do mais, a redosagem é um procedimento de rotina'', diz Carlo Oliani.

Parecer contraria Ministério

Adauto Cruz

''Não houve má-fé nesse negócio. Como responsável pelos pacientes, me senti inseguro em relação à aplicação da outra marca, porque há dez anos usamos Novartis. Pedi para baixarem os preços para podermos continuar usando a marca pelo menos por enquanto. Os genéricos são bem-vindos, só precisamos de um tempo para adaptação. Minha proposta era introduzir o uso do genérico num pequeno grupo de pacientes para fazer as dosagens corretas'', explicou o médico Marcelo Almeida.
O secretário-adjunto de Sáude, Paulo Kalume, nega que a secretaria tenha intenção de beneficiar a Novartis. ''A preferência não significa que esse laboratório vai ganhar as próximas licitações. Vamos optar pelo menor preço.'' Ele também informou que a assessoria jurídica do órgão vai analisar o caso.
Kalume reforçou o parecer de Almeida para explicar a escolha da marca Novartis. ''Era um caso emergencial, em que não podíamos colocar em risco os pacientes. O médico deu parecer para a compra de determinada marca, e como ele é o especialista na área, acatamos. Ele assinou documento assumindo a responsabilidade'', explicou Kalume. ''Respeitamos o parecer técnico.''
''Esse parecer é ilegal. O procedimento da Secretaria de Saúde e de alguns médicos vai contra a política de incentivo aos genéricos que o Ministério da Saúde defende'', afirma Antônio Barbosa, que também é coordenador do Instituto Nacional de Defesa dos Usuários de Medicamentos (Idun).
QUESTÃO INTERNA
Procurado pelo Correio, o laboratório Novartis alega que o parecer do médico deve ser respeitado nessas situações, para proteção da saúde dos pacientes. Garantiu também que não faz política junto aos médicos para desfavorecer os concorrentes com o objetivo de ganhar licitações.
''Aceitamos todos os genéricos que são registrados pelo Ministério da Saúde e não denegrimos a imagem deles. Respeitamos a presença dos concorrentes no mercado'', sustentou Branderley Claudio, diretor médico de relações externas do laboratório Novartis.''Por outro lado, apoiamos a conduta dos médicos que se recusam a trocar a marca já utilizada por preocupação com a saúde do paciente'', completou.
Em relação à denúncia de que foi beneficiado de forma irregular pela Secretaria de Saúde, Claudio disse que essa é ''uma questão interna do órgão''. ''Nossa política é baixar os preços para poder concorrer. Sempre que for possível, vamos fazer isso'', reforçou. (SS)

O fim de um reinado

Rodrigo Caetano
Da equipe do Correio

Não há dúvidas sobre a eficácia do similar (produto com o mesmo princípio ativo) Clicosporina, garante parecer do professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), Gilberto De Nucci, de julho de 2000. A pedido do Ministério da Saúde, ele realizou testes de biodisponibilidade e bioequivalência (que avaliam composição, dosagem e efeito no corpo).
O parecer de um cientista renomado como De Nucci pôs ponto final numa polêmica que começou em 1997, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão do Ministério da Saúde responsável pelo registro de medicamentos no país, concedeu à Nature's autorização para colocar o similar no mercado. Até então, alguns médicos suspeitavam da equivalência e a droga da Novartis reinava absoluta.
A guerra partiu para a disputa de preços. O mercado envolve em torno de R$ 100 milhões por ano. A Ciclosporina é usada para evitar a rejeição de órgãos transplantados, principalmente os rins. Hoje, no Brasil, há 40 mil doentes renais crônicos, que dependem do remédio para sobreviver.

 

Pé no freio
Fonte: O Globo - 12/08/2001

Nem todo laboratório que está com um registro de genérico no Ministério da Saúde vai lançar um produto no mercado.
Várias indústrias estão revendo sua estratégia comercial diante de custos que decolaram com a crise cambial.


 
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