Medicamento aprovado
fora dos padrões
Fonte: Correio Braziliense - 13/06/2001
Farmacêutico denuncia problemas na concessão do
registro de genérico da ciclosporina, vital para transplantados.
Embora não tenha sua eficácia questionada, a droga
não segue o que determina a lei
Maria
Vitória
Da equipe do Correio
O medicamento genérico é uma cópia fiel do
medicamento de marca e deve ter a mesma forma, fórmula,
modo de usar e provocar a mesma reação no organismo
de quem o toma. É o que prevê a lei 9.787 de 1999,
que instituiu a política de genéricos no país.
Porém, já há no mercado medicamentos que
não são totalmente idênticos aos de referência.
O coordenador do Instituto Brasileiro de Defesa do Usuário
de Medicamentos (Idum), Antônio Barbosa, também presidente
do Conselho Regional de Farmácia do Distrito Federal, denuncia
que a ciclosporina do laboratório Abbott foi registrada
como genérico sem obedecer à lei. O medicamento,
que em maio obteve o registro junto à Agência Nacional
de Vigilância Sanitária (Anvisa), não tem
a mesma apresentação e forma farmacêutica
do medicamento de referência, o Sandimunn, fabricado pelo
laboratório Novartis. Esse último tem sua apresentação
em cápsula mole, enquanto o do Abbott é em cápsulas
duras. A diferença é que, na cápsula mole,
a absorção da droga é mais rápida.
A ciclosporina é usada para evitar a rejeição
de órgãos transplantados, principalmente rins. ''Medidas
como essas adotadas pela Anvisa podem colocar em risco toda a
política de genéricos, pois abrem possibilidades
de questionamento a sua garantia de qualidade'', teme Barbosa.
Segundo ele, já existe nas farmácias um genérico
da ciclosporina, da SigmaFarma, que segue os mesmos padrões
do medicamento de marca.
O instituto encaminhou no dia 25 de maio um documento ao ministro
da Saúde, José Serra, com pareceres de especialistas
- um assinado pelo professor Umesh Bamakar, da Pharma Assist International,
dos Estados Unidos, e outro pelo farmacologista brasileiro José
Aparício Brites Funk, coordenador do Curso de Ciências
Farmacêuticas do Centro Universitário Franciscano,
no Rio Grande do Sul. Os dois laudos técnicos explicam
que, enquanto o Sandimunn permite rápida e segura absorção,
a droga da Abbott apresenta taxas de absorção mais
lentas do que o medicamento de referência. Mas nenhum dos
estudos critica a validade clínica da ciclosporina da Abbott.
A gerente-geral de Medicamentos Genéricos da Anvisa, Vera
Valente, contesta tais acusações, afirmando que
''no fundo há uma guerra comercial''. Segundo ela, a agência
aprovou o registro da ciclosporina da Abbott como genérico
com base na legislação brasileira, que exige testes
de bioequivalência (para mostrar se as duas droga possuem
a mesma composição, a mesma dosagem) e o de biodisponibilidade
(que avalia se o genérico surte o mesmo efeito no organismo
que o de referência). Tais exames foram feitos no exterior
e apresentados pelo laboratório à Anvisa.
Vera ainda afirma que um laudo do FDA, o poderoso órgão
norte-americano de fiscalização de medicamentos,
garante que a diferença na forma e na apresentação
não configura mudança na fórmula farmacêutica.
''A ciclosporina da Abbott tem o registro de genérico nos
Estados Unidos e não há nenhum estudo científico
contestando a sua qualidade'', diz a gerente da agência.
A diretoria do laboratório Abbott, procurada pelo Correio,
não quis comentar o assunto. Informa, pela sua Assessoria
de Imprensa, que o seu produto genérico está de
acordo com a legislação brasileira.
Mas Antônio Barbosa denuncia ainda que, com base no registro
de genérico, a Abbott já venceu a licitação
para a venda da sua ciclosporina à Secretaria de Saúde
de São Paulo, avaliada em R$ 20 milhões. A Secretaria
Estadual de Saúde confirmou que o Abbott venceu a licitação
para o fornecimento da Ciclosporina 100mg, homologada em 30 de
maio. Agora terá início o processo de compra pelos
hospitais públicos e regionais de saúde paulistas.
Para Vera, o fato da Abbott vencer a licitação na
secretaria paulista abriu espaço para a guerra comercial.
''A Novartis dominava o mercado sozinha e agora precisa dividir
essa fatia'', diz. ''O genérico da ciclosporina tem qualidade.
Adotamos todos os cuidados para autorizar o seu registro'', garante.
Quênia aprova
importação de genéricos anti-Aids
Fonte: Jornal do Brasil - 13/06/2001
Brasil doa 1.260 frascos de AZT, uma sobra de produção,
a orfanato de Nairóbi
O Parlamento do Quênia aprovou ontem lei que permite a importação
e fabricação de medicamentos genéricos contra
a Aids. A decisão coincidiu com a chegada de uma leva de
anti-retrovirais produzidos no Brasil e doados a um orfanato sediado
na capital, Nairóbi. Dezesseis crianças soropositivas
já começaram a receber os remédios. Mais
nove meninos e meninas de um total de 76 órfãos
que moram na instituição serão beneficiados
pela doação.
A nova lei segue os moldes da legislação sul-africana,
aprovada em 1997 e que levou 39 laboratórios a processar
o governo da África do Sul. A briga judicial acabou em
abril quando, pressionada pela opinião pública mundial,
a indústria farmacêutica desistiu do processo. O
texto aprovado pelos deputados quenianos diz que, em casos de
emergência, como a epidemia de Aids, a patente que protege
os medicamentos anti-HIV poderá ser quebrada.
Padre - Confiante na aprovação da lei, o diretor
do orfanato Nyumbani, padre Angelo DAgostino, deu início
às negociações para a doação
dos remédios quatro meses antes. DAgostino veio ao Brasil
no início do ano para conhecer o programa brasileiro de
atendimento ao portador de Aids. Aqui soube que um dos seis laboratórios
estatais que fabricam medicamentos anti-HIV, o Laboratório
Farmacêutico do Estado de Pernambuco (Lafepe), teria uma
sobra de produção e começou a pleitear a
doação.
Os argumentos de DAgostino foram convincentes. Dos 28 milhões
de habitantes do Quênia, 10% estão infectados com
o HIV. Destes, 730 mil são crianças que perderam
pai e mãe devido à Aids. ''Sempre que pudermos ajudar
um país em situação grave, como o Quênia,
o faremos'', disse Paulo Meireles, assessor da área de
cooperação externa do Ministério da Saúde
e que intermediou a transação, com apoio da organização
Médicos Sem Fronteiras.
O excedente de produção corresponde a 2.160 frascos
de zidovudina, o AZT, um dos cinco medicamentos produzidos pelo
Lafepe. O diretor técnico e industrial do laboratório,
Pedro Rolim Neto, disse que a sobra deveu-se ao adiantamento da
produção frente aos contratos firmados com o Ministério
da Saúde.
Cronograma - ''Os contratos com o ministério são
assinados entre março e junho. Se deixarmos para começar
a produção depois da assinatura, corremos o risco
de não atender a demanda. Por isso, estabelecemos um cronograma
de produção, baseado na demanda do ano anterior.
Às vezes, o fornecimento ao governo fica abaixo do estimado
e temos um excedente'', explicou Pedro Neto, por telefone, de
Recife.
O diretor técnico contou que os frascos doados ao orfanato
queniano não poderiam ser estocados e usados em coquetéis
anti-Aids em 2002 porque o prazo de validade expirava em setembro.
''Por isso, optamos por doá-los'', afirmou Pedro Neto.
Os frascos foram levados para o Quênia pela South African
Airlines, que nada cobrou pelo transporte. Primeiro, foram enviadas
amostras do medicamento para que AZT fosse analisado em laboratórios
locais (uma exigência do governo queniano) e pudesse ser
registrado no país. O carregamento com os 1.260 frascos,
com quase 500kg, só foi transportado após aprovação
das autoridades sanitárias do país africano.
Bolívia - Esta foi a segunda vez que o Brasil doou medicamentos
anti-Aids este ano. Em fevereiro, acordo entre os governos brasileiro
e boliviano resultou no envio de 3 mil frascos de zalcitabina.
Neste caso, no entanto, a doação não deveu-se
a uma sobra de produção. A zalcitabina deixou de
integrar a lista dos 12 remédios usados no Brasil para
elaboração do coquetel anti-Aids. Apesar de eficiente,
foi substituído por anti-retrovirais mais modernos.
HIV
inativa genes de célula
WASHINGTON - A enorme capacidade de infecção do
vírus da Aids não é sua única arma
para destruir o sistema imunológico. Ao entrar nas células
de defesa do corpo humano - as CD4 - o vírus inativa alguns
dos genes da célula, comprometendo seu desempenho. É
o que mostra estudo da University of California, em San Diego,
no qual foram analisados simultaneamente 6.800 genes da CD4.
Os cientistas infectaram as células e observaram a atuação
do vírus por 72 horas. Trinta minutos após a infecção,
500 genes já haviam sido desligados. Três dias depois,
a metade do genoma da célula se encontrava desativada.
A escolha do HIV é criteriosa. Os genes selecionados são
fundamentais para a sobrevivência da célula, como
os genes responsáveis pela produção das enzimas
envolvidas no funcionamento da mitocôndria (estrutura que
fornece energia para a célula). Outros genes que ficam
no alvo do vírus são aqueles que reparam o DNA quando
este sofre alterações. Com isso, o HIV se vê
livre para reproduzir-se no organismo, pois se aproveita do DNA
celular sem que os guardiões do material genético
possam impedi-lo.
Ao mesmo tempo em que desativa genes importantes, o HIV ativa
genes antes adormecidos. Alguns deles são os chamados genes
suicidas, que levam as células a antecipar o processo de
morte celular. ''O vírus é extremamente inteligente'',
disse um dos autores do estudo, Daniel Masys, da Escola de Medicina
da universidade.
Para o pesquisador, a melhor compreensão do mecanismo de
infecção do vírus poderá facilitar
o desenvolvimento de drogas mais eficientes que combatam a doença.
O estudo está publicado na revista Genoma Research.
Ela tem aids. Mas
o remédio é proibido
Fonte: O Estado de S.Paulo - 13/06/2001
Presidente sul-africano faz visita ao Reino Unido onde será
sabatinado sobre a epidemia
CHRIS
MCGREAL
The Guardian
CIDADE DO CABO - Sibongile Manana, secretária da Saúde
da província sul-africana de Mpumalanga, sabia exatamente
o que o presidente Thabo Mbeki diria sobre as pílulas dadas
às vítimas de estupro na tentativa de evitar que
fossem infectadas pelo HIV. Mais realista do que o rei, Sibongile
antecipou-se e afastou todos os voluntários que trabalhavam
com vítimas de estupro em hospitais públicos, afirmando
que "estavam envenenando os negros e tentando derrubar o
governo".
Seu "crime", segundo ela, era administrar anti-retrovirais
para as meninas estupradas na província, um número
imenso, especialmente entre as menores de 15 anos, por causa da
crença de que sexo com uma virgem cura a aids.
Sibongile ouviu a advertência do presidente de que os anti-retrovirais
eram um veneno, que o HIV não tem nada a ver com a aids
e não há quem a convença do contrário.
Mbeki iniciou ontem uma visita oficial à Grã-Bretanha,
onde vai ser alvo de uma enxurrada de críticas por causa
da epidemia de aids, que hoje atinge 4,7 milhões de sul-africanos.
Depois de afirmar que o HIV não causa a aids, que a doença
é uma invenção do Ocidente para vender remédios,
são tóxicos e matam mais depressa que a doença,
Mbeki admite ter feito "confusão".
Críticos, como Malegapuru Makgoba, chefe do Conselho Médico
de Pesquisa da África do Sul, diz que "agimos de uma
forma que pode ser interpretada como genocídio". Segundo
ele, as idéias de Mbeki contaminaram desde os jovens, que
deveriam estar aprendendo como evitar a doença, até
as políticas de combate à aids. Durante o apartheid,
a aids era vista como problema de "negros e homossexuais".
Logo, não valia a pena importunar a minoria branca com
discussões sobre sexo. Mandela tinha outras prioridades
e quando Mbeki chegou ao poder, em 1999, a epidemia já
estava fora de controle.
"Tudo que fiz foi fazer algumas perguntas", alegou Mbeki
em entrevista ao Guardian. "Se soubesse as respostas de antemão,
teria agido de outra forma."
Os ativistas da aids, porém, dizem que Mbeki defendeu teorias
há muito descartadas, afirmando que a pobreza causava aids,
com ou sem HIV, e assim acabou minando as campanhas pelo uso de
preservativos.
"Foi um golpe mortal para nossos esforços", afirma
Salim Karim, especialista em aids de renome internacional, acusado
de "deslealdade" pelas autoridades do país. Primeiro,
o governo prometeu montar infra-estrutura para distribuição
de AZT para grávidas. Depois, recuou, alegando que era
preciso estudar a toxicidade do medicamento - algo que deve demorar
mais alguns anos, embora em Uganda existam pesquisas disponíveis.
"As pessoas sentem-se abandonadas, chegam ao hospital pensando
que receberão ajuda e remédios, mas tudo que podemos
fazer é aconselhá-los a se alimentarem direito e
estarem atentos ao aparecimento desta ou daquela doença",
afirma Ernest Ncube, voluntário do Helen Joseph Hospital
e portador do vírus.
Mbeki se defende, dizendo que tudo que queria era ter antes todas
as evidências em mãos. "Um vírus não
pode causar uma síndrome, pode apenas causar uma doença",
declarou ao Parlamento. Magkoba acusa o presidente de fazer um
jogo de palavras e pergunta o que teria acontecido se os EUA e
Uganda tivessem esperado até saber tudo sobre a aids antes
de começar a combatê-la.
Quênia
aprova licenciamento de remédios
NAIROBI - O Parlamento do Quênia aprovou ontem uma nova
legislação, que permite usar o licenciamento compulsório
para aquisição e produção de genéricos
contra a aids, em mais um duro golpe para as indústrias
farmacêuticas.
De acordo com ativistas da aids, a lei vai permitir que os 2,2
milhões de quenianos infectados pelo HIV tenham acesso
a remédios mais baratos, seja importanto genéricos
da Índia ou por meio de acordos para sua produção.
Ontem, representantes do governo brasileiro fizeram uma doação
de genéricos para crianças soropositivas de um orfanato
de Nairóbi.
De acordo com o ministro da Saúde Pública, Sam Ongeri,
as empresas farmacêuticas lutaram até o último
minuto para convencer o governo a firmar acordos que impedissem
a entrada de genéricos no país. A nova lei, vai
permitir que país licencie empresas no Brasil e Índia,
por exemplo, para produzir esses genéricos. "Este
é um grande dia", comemorou Van Gisbergen, advogado
do grupo Medecins sans Frontieres. "A lei foi aprovada e
hoje também chegaram os medicamentos do Brasil."
A indústria teme que a lei influencie os demais países
africanos, onde há 25,3 milhões de pessoas infectadas
e sem acesso a remédios. As empresas farmacêuticas,
que obtêm 70% de seu lucro nos EUA e Europa, alegam que
sem a receita do Terceiro Mundo não terá meios de
financiar as pesquisas para desenvolvimento de novas drogas. (Reuters)
R$ 18,8 milhões
para genéricos
Fonte:
Correio Braziliense - 13/06/2001
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)
liberou ontem o primeiro financiamento para o programa de Apoio
à Produção e Registro de Medicamentos Genéricos.
Ao todo, R$ 18,8 milhões serão repassados à
Medley Indústria Farmacêutica. Os recursos servirão
para sextuplicar a produção da empresa nos próximos
seis anos. A Medley produz hoje nove genéricos. A previsão
é lançar 90 até 2003. (Agência Folha)