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Polêmica sobre remédio
assusta pacientes
Fonte: Folha
de S. Paulo - 13/10/2001
Secretaria troca de fornecedor de medicamento usado para impedir
rejeição de órgãos transplantados; entidades
vêem riscos
AURELIANO BIANCARELLI
DA REPORTAGEM LOCAL
Desencontro de informações e de interesses em torno
do medicamento ciclosporina está levando medo e insegurança
aos cerca de 8.000 transplantados que tomam essa droga no país.
Ações na Justiça estão agravando ainda
mais o quadro de incertezas.
A ciclosporina é um imunosupressor utilizado para impedir
a rejeição do órgão transplantado. Alterações
na formulação do remédio sem um acompanhamento
médico podem levar à perda do transplante e à
morte. Autoridades de saúde, de São Paulo e Brasília,
distribuíram notas garantindo aos pacientes que eles não
correm risco e pedindo que não interrompam a medicação.
A polêmica começou em maio passado, quando a concorrência
aberta pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo
foi vencida pelo laboratório Abbott, que produz a ciclosporina
Gengraf e um genérico da ciclosporina. Até então,
o medicamento comprado pelo Estado era o Sandimmun Neoral, da Novartis
Biociências, droga de referência. O laboratório
nacional Sigmafarma, que produz outro genérico da ciclosporina,
também participou da concorrência, mas perdeu.
Desde que houve a troca do medicamento, a Associação
Paulista de Renais Crônicos (Aprec) passou a alertar os transplantados
sobre possíveis riscos. De posse de pareceres médicos,
a Aprec enviou cartas às autoridades de saúde e aos
transplantados afirmando que a formulação da ciclosporina
da Abbott não era exatamente igual à da Novartis,
o que resultaria em variações na absorção
da droga pelo organismo.
"As duas drogas não são intercambiáveis,
e a troca de uma pela outra pode trazer problema de rejeição
para uma parte dos pacientes", diz Antonio Carlos Zanini, especialista
em medicamentos do Hospital das Clínicas de São Paulo
e que assina um dos pareceres.
A Secretaria de Estado da Saúde, por sua vez, divulgou nota
no último dia 28 informando que "os pacientes transplantados
não correm nenhum risco em função da troca
da ciclosporina". A nota ainda diz que "os medicamentos
registrados pela Anvisa obedecem a critérios técnicos
rigorosos e portanto merecem confiança quanto à sua
eficácia".
A Anvisa, por sua vez, voltou a garantir que o processo de aprovação
dos medicamentos segue legislação rigorosa, idêntica
à da FDA, órgão norte-americano que controla
remédios e alimentos.
"O medicamento da Abbott é absolutamente seguro e bioequivalente
ao de referência (da Novartis), não trazendo nenhum
risco aos pacientes", diz Vera Valente, gerente-geral de medicamentos
genéricos da Anvisa.
Tanto a Secretaria da Saúde quanto a Anvisa citam pareceres
da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos
e de instituições como o Hospital do Rim, de São
Paulo, e o Hospital de Clínicas de Curitiba -entre outras-
atestando que o uso da nova ciclosporina não trouxe nenhum
problema aos pacientes.
A nota da Secretaria da Saúde observa que a troca da ciclosporina
requer um "monitoramento dos níveis plasmáticos"
do paciente, teste que permite acompanhar os níveis de absorção
de organismo pelo organismo.
Os dirigentes da Aprec afirmam que isso não vem acontecendo.
"Os pacientes estão recebendo a nova ciclosporina sem
nenhuma informação", afirma Fábio Nolasco
das Neves, 31, vice-presidente da Abrec e transplantado renal pela
segunda vez.
Em outra frente, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região
manteve liminar que cassa o registro da ciclosporina da Abbott.
A Anvisa informou que vai recorrer.
Na quarta-feira, a Abrec entrou com mandado de segurança
no Ministério Público Federal pedindo que a liminar
do TRF seja cumprida, o que obrigaria o Estado de São Paulo
a substituir a ciclosporina da Abbott por outra.
Em todo o país, os gastos com ciclosporina no ano passado
atingiram R$ 61,5 milhões. Não oficialmente, tanto
a Secretaria da Saúde quanto a Anvisa dizem que por trás
dessa polêmica há um jogo de interesses de laboratórios.
Como autoridades na área da saúde pública,
caberia a essas instituições citar e responsabilizar
os laboratórios que estão provocando pânico
entre os pacientes.
Transplantados têm medo e dúvidas
DA REPORTAGEM LOCAL
Neide Barriquelli, 57, secretária da Federação
das Associações de Renais e Transplantados do Brasil,
alerta para a situação de "pânico"
na qual os pacientes estão sendo colocados. "É
criminoso dizer que o transplantado pode morrer se tomar a ciclosporina
que o Estado está oferecendo", afirmou. "Há
risco na utilização de qualquer ciclosporina."
Neide, que dirigiu a Associação Paulista de Renais
Crônicos (Aprec) durante quase uma década, afirmou
que a inclusão de novas ciclosporinas no mercado -e a consequente
disputa dos laboratórios farmacêuticos- dividiu o movimento
dos transplantados em todo o país. A situação,
hoje, é de medo e incertezas.
O confeiteiro aposentado Pedro Rauman, 62, afirma que passou a tomar
a ciclosporina produzida pelo laboratório Abbott há
cerca de dois meses. "Durante dez anos, me senti bem com o
outro remédio. Com o novo, parece que o corpo está
inchando", disse.
Rauman, que mora em Jundiaí (60 km de São Paulo),
passou por uma série de testes no hospital da Unicamp (Universidade
Estadual de Campinas), onde vem recebendo acompanhamento.
O aposentado fez hemodiálise durante dez anos depois de ter
perdido o rim por causa da hipertensão. "É muito
triste pensar na possibilidade de voltar para aquelas máquinas.
Meu medo é que eu perca o rim e que tenha que começar
tudo de novo", afirmou.
Adriana Batista Pereira, 29, que fez um transplante em 1998, disse
que passou a sentir dores no corpo, nas pernas e na cabeça
quando começou a tomar a nova ciclosporina. "Não
recebi nenhuma orientação quando fui buscar os remédios.
Minha consulta no médico está marcada para o dia 19.
Até lá, posso perder meu rim."
Adriana diz que levanta às 5h para pegar o medicamento uma
vez por mês. "Fico cinco horas da fila. Uma pessoa transplantada
não poderia ficar assim."
A microempresária Silvana Tereza Pongeli Grosso, 45, que
sofreu um transplante há dois anos, já passou por
uma rejeição e teme um novo episódio. "Ainda
não comecei a tomar a nova ciclosporina, mas meu marido,
que foi buscar o remédio, não foi informado de nada",
afirmou.
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