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13/11
Brasil vence nos genéricos
13/11
Conversa pra boi dormir
13/11
Laboratórios dependem de importações
13/11
Brasil próximo da vitória na quebra de patentes
13/11
Acordo sobre patentes está próximo, diz Sérgio Amaral


Brasil vence nos genéricos
Fonte:Gazeta Mercantil - 13/11/2001

(Assis Moreira)

Genebra A indústria de remédios genéricos poderá ter um forte impulso a partir da declaração sobre patentes e saúde a ser anunciada hoje no encerramento da conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Doha, no Catar.

O texto negociado pelo Brasil e pelos Estados Unidos, que ministros de 142 países vão aprovar, flexibiliza a interpretação do Acordo de Trips (direitos de propriedade intelectual relacionados com o comércio), ao permitir que os governos concedam licença compulsória - ou seja, quebra do monopólio de patentes - para combater abuso de preços e dar maior acesso a medicamentos essenciais, sem se submeter à ameaça de recursos na Justiça. O principal negociador brasileiro foi o embaixador na OMC, Celso Amorim.

'Quem vai definir o que é emergência ou urgência nacional é o País', disse o ministro da Saúde, José Serra, ao final de uma dura batalha em Doha. O texto não fala mais de situações de 'crise' e sim de 'problemas' na saúde em que aos países é permitido interpretar mais elasticamente o Acordo de Trips.

'O Brasil pode quebrar patente, produzir mais barato e não poderá ser feita contestação judicial segundo a declaração da OMC', acrescentou Serra.

'O País é que decide os casos em que um medicamento feito exclusivamente por uma empresa possa ter outros produtores para combater abuso nos preços e dar acesso maior a medicamentos essenciais.' Para os países em desenvolvimento, baixar preços passa pela produção de medicamentos genéricos, que têm o mesmo princípio ativo do original mas custam bem menos para o consumidor.

O Brasil agora pode continuar sua produção de genéricos, diz um assessor de Serra, 'sem estar sujeito a imprevisibilidades'. O País tem seu mercado controlado em 75% por companhias estrangeiras e com faturamento de US$ 10 bilhões por ano. A decisão a ser anunciada em Doha terá impacto num mercado cujas cifras são gigantescas. Calcula-se que sejam vendidos mais de US$ 300 bilhões de medicamentos anualmente no mundo. Nos países em desenvolvimento, onde se concentram as mais altas populações, se fazem 20% das vendas globais.

Pela declaração, os ministros negociadores concordam que 'o acordo de Trips não impede e não deve impedir que os membros da OMC adotem medidas para proteger a saúde pública, em acordo com nossos compromissos em Trips'. O acordo pode e deve ser 'interpretado e implementado de maneira a apoiar seus membros nos seus direitos de proteger a saúde pública, em particular no caso de acesso a remédios'.

A questão de patentes e saúde era uma das mais sensíveis na reunião ministerial convocada para Doha. A patente garante ao seu detentor os meios legais para evitar que outros produzam, usem, importem ou vendam por um prazo de 20 anos.

A indústria argumenta que os remédios, sobretudo, precisam da proteção porque são submetidos à verificação de segurança e eficácia que reduz a vida efetiva de uma patente a onze ou doze anos. O cálculo de organizações não governamentais, as ONGs, porém, é que na média em três anos os laboratórios recuperam o que gastaram na pesquisa de um medicamento do qual terão monopólio, portanto não concorrência, por duas décadas.

Com a declaração política, o que os países conseguiram foi uma arma para combater abusos dos detentores. Até agora, o Brasil não quebrou patentes. Mas só o fato de poder usar esse instrumento deu ao governo força para conseguir economia de R$ 200 milhões com o abatimento de preços de remédios comprados por programas oficiais para combater a Aids. A mesma coisa foi feita recentemente pela administração de George W. Bush na compra do remédio Cipro contra antraz.

Em Doha, o Brasil liderou o bloco em desenvolvimento. José Serra é o único ministro da Saúde na conferência, o que já deu o tom da importância que o Brasil atribuiu ao tema, alavancando a posição do País no processo negociador enorme. Para tentar um consenso, o ministro da Indústria e Comércio do México, Luis Ernesto Derbez, convocou 30 países para discutir. Depois de algumas horas, convocou um grupo de nove para ajudá-lo, incluindo Brasil, Estados Unidos e União Européia.

Ontem, nos momentos finais, Derbez deixou na sala os outros e chamou o embaixador brasileiro Celso Amorim e um alto funcionário do Departamento de Comércio dos EUA. Amorim aproveitou e chamou o embaixador da Nigéria para a África estar também representada. O diplomata nigeriano retrucou: 'Não precisa, estaremos muito bem representados com o senhor'.
Amorim saiu para negociar em nome do Brasil, da América Latina, da África, da Índia. Consultava por telefone José Serra, que só entraria na sala se o negociador-chefe americano, Robert Zoellick, também viesse. Uma hora depois, os três voltaram à sala e ficou claro que o compromisso estava fechado.

Mais tarde, no auditório da conferência, os americanos eram aplaudidos pelo acordo - algo inédito nos últimos tempos numa conferência internacional. O anúncio oficial foi cancelado ontem à noite porque a OMC quer fazer tudo junto, hoje à noite. 'Nada está fechado enquanto tudo não estiver fechado', é a regra na OMC.

Um representante da União Européia comemorou o acordo dizendo que ele 'reflete o que queríamos há muito tempo'. Mas também lamentou que a questão de preços diferenciados tenha ficado fora da declaração. Na realidade, os europeus querem exportar medicamentos e gostariam que muitos países, principalmente a Índia, baixassem as tarifas de importação.

 

Conversa pra boi dormir
Fonte:Correio Braziliense - 13/11/2001

Dad Squarisi

''Há algo de podre no reino dos genéricos.'' A conclusão foi do Conselho Regional de Farmácia do Distrito Federal (CRF DF). A suspeita procede. Os remédios sem grife deveriam custar menos. Razões não faltam. Eles deitam e rolam nos incentivos do governo. Recebem financiamento do BNDES. Não pagam imposto de importação de matéria-prima. E não desembolsam um tostãozinho pela propaganda na mídia.

Eis o paradoxo. Apesar do tratamento privilegiado, os genéricos chegam a ser 80% em média mais caros que os similares. Pelo menos 39 estão nessas condições. Por quê? É malandragem. Para entendê-la, vale uma lembrancinha. No mercado, há três tipos de medicamentos.

Um: os de referência. Em geral, estão na praça há muito tempo. Graças à publicidade, têm marca comercial pra lá de conhecida. É o caso da Novalgina. O comprimidinho nada mais é que o vira-lata dipirona.

Dois: os similares. São irmãozinhos dos de referência. Mas, sem se submeter aos testes de bioequivalência, não têm a certidão que lhes prova a paternidade. Três: os genéricos. Irmãozinhos dos dois anteriores, o teste de bioequivalência lhes garante a origem.

Aí reside o xis da questão. Segundo o CRF, para fixar os preços, os fabricantes de genéricos utilizam como base os mais altos valores cobrados. Adotam como referência os preços dos remédios de grife. Esquecem-se dos similares. A explicação: o genérico existe para competir com os medicamentos de marca. Não com os similares. Além disso, os laboratórios gastam boa grana no teste de equivalência.

Ora, os genéricos vieram para beneficiar o consumidor. Graças aos incentivos, chegariam às farmácias mais baratos. Nada mais oportuno. No Brasil, 50% da população abandonam o tratamento médico por falta de dinheiro. Milhares de crônicos afetam o orçamento familiar com a compra de remédios. Mais dramático: quem mais precisa de medicação são os aposentados, cuja renda é pra lá de baixa. Mas a ética capitalista é perversa. Tem a propensão a maximizar lucros em detrimento de interesses da sociedade.

Em países mais desenvolvidos, a cidadania é respeitada. Lá, as autoridades usam o rigor da lei para coibir comportamento abusivo. Recorrem a multas exemplares e até a prisão. Por que não seguir o exemplo? A receita: fiscalizar e punir. O argumento de que a competição é com os remédios de grife e não com os similares é conversa pra boi dormir. Se o similar (que está no mercado com o aval da Vigilância Sanitária) sem os incentivos pode ser mais barato, há laboratórios de genéricos lucrando com a desgraça alheia. E com apoio do governo. Está cheirando mal.

 

Laboratórios dependem de importações
Fonte:Gazeta Mercantil - 13/11/2001

(Vicente Vilardaga)

São Paulo O mercado brasileiro de medicamentos genéricos vai florescer. Mas as chances do País se converter em um produtor de matérias-primas e exportador de remédios são quase nulas. A flexibilização das regras de patente por razões de saúde pública não muda esse fato.

Os efeitos comerciais dessa medida para os laboratórios instalados no Brasil são pequenos. Os maiores benefícios vão para o orçamento do governo e para os pacientes.
A flexibilização das regras de patente é uma questão social e não uma medida de estímulo aos negócios. A recente experiência brasileira com o coquetel anti-Aids mostra que os laboratórios que detêm as patentes preferem reduzir os preços de seus remédios a perder um contrato para concorrentes fabricantes de genéricos. Foi a trilha seguida pela norte-americana Merck Sharp & Dohme e pela suíça Roche.

Em alguns casos, a auto-suficiência interna na produção de uma ou outra droga inovadora poderá ser alcançada, por motivos estratégicos. Se for necessário, o governo tem condições de acionar a própria rede de laboratórios estatais para reproduzir moléculas químicas. Mas seria uma iniciativa de alcance reduzido. A indústria local tem uma história de total dependência de matérias-primas importadas. Os fabricantes não têm conhecimento, capital e escala para atender a demanda interna de farmoquímicos. E falta competitividade para exportar.

'O setor farmacêutico brasileiro tem um perfil importador', afirma Omilton Visconde Júnior, presidente do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos do Estado de São Paulo (Sindusfarma). 'O parque produtivo de farmoquímicos é pequeno e nunca foi alvo de políticas industriais consistentes'.

Ao contrário do que aconteceu na Índia, o Brasil não desenvolveu uma base industrial de matérias-primas farmacêuticas. Os laboratórios produzem os comprimidos, mas não a maior parte de seus princípios ativos, que vêm da Europa, dos Estados Unidos ou da Ásia. O que se pode fazer, depois de uma quebra de patentes em situações de emergência, é comprar o farmoquímico de fabricantes de genéricos; da indústria indiana, por exemplo, ou chinesa. O preço é mais baixo do que o cobrado pelo laboratório de pesquisa, dono do produto de referência.

As regras de patente não são unificadas mundialmente. Produtos ainda protegidos nos Estados Unidos são vendidos como genéricos no Brasil. A lei brasileira só considera as patentes desde 1997. Em vários mercados da Ásia, os direitos de propriedade intelectual estabelecidos no Ocidente são tratados com ressalvas. Há uma grande e ativa indústria de matérias-primas que produz as commodities farmacêuticas em grande escala e também é rápida na cópia e fabricação de drogas inovadoras. É uma indústria que atende o Brasil, mas está instalada bem longe da América Latina.

No ano passado, a indústria brasileira consumiu US$ 1,27 bilhão em farmoquímicos, segundo a associação que reúne os fabricantes de matérias-primas para medicamentos, a Abiquif. Desse total, US$ 911 milhões ou 71,7% foram produtos importados. Fabricantes de medicamentos genéricos raramente têm oportunidade de substituir importações. A Biosintética, de Visconde Júnior, compra no exterior 80% das matérias-primas que utiliza.

Ao longo de 2001, a indústria de medicamentos e de defensivos agrícolas foi responsável por um volume de importações superior a US$ 3,5 bilhões. As importações de produtos farmacêuticos acabados, incluídas no bolo, somaram cerca de US$ 1,1 bilhão. Os laboratórios importam por exemplo, grandes quantidades de vitamina C e de dipirona, o mais popular dos analgésicos consumidos no País.

A produção local de matérias-primas é modesta diante do tamanho do mercado. Algumas multinacionais, como a Novartis, só produzem farmoquímicos para seu próprio uso. Outros fabricantes, como a Nortec, tem uma oferta diversificada e atendem o mercado interno, mas nem sempre conseguem competir com fornecedores estrangeiros.

As mudanças na política de medicamentos praticadas pelo governo tem como meta principal ampliar o acesso da população aos remédios. Alguns laboratórios nacionais poderão ganhar participação de mercado nos próximos anos vendendo grandes volumes de medicamentos sem marca. Mas dificilmente conseguirão se livrar da dependência estrangeira. Sua prosperidade vai estar associada a parcerias com fabricantes mundiais de genéricos.

 

Brasil próximo da vitória na quebra de patentes
Fonte:Jornal do Commercio (RJ) - 13/11/2001

99% de chance de aprovar a Declaração em plenário

O ministro da Saúde, Jose Serra, disse que o ''facilitador'' Luiz Ernesto Bautista, secretário de Economia do México, do grupo de consulta sobre a Declaração sobre Propriedade Intelectual e Saúde Pública (TRIPS) lhe comunicou que ''há 99% de chance'' de que a versão do documento defendida pelo Brasil seja aprovada.

Aquele que era considerado o tema de mais difícil entendimento foi o primeiro a ser resolvido. O rascunho da declaração em separado sobre patentes e saúde já está pronto e deverá mesmo ser aprovado hoje cedo no plenário. O resultado é uma vitória para o Brasil e outros 50 países em desenvolvimento envolvidos na mesma questão. Depois de dois dias de negociações, chegou-se a um consenso.

Houve alterações no texto, é verdade. ''Mas estamos vendo o resultado como muito positivo. E o texto ficou muito parecido com a versão anterior defendida por nós'', ressaltou o ministro da Saúde, José Serra, que está em Doha para acompanhar a elaboração e a assinatura da declaração sobre patentes e saúde. ''Com essa declaração, a OMC se afastou do risco de ser um FMI do comércio'', brincou.
Interpretação

A declaração não altera o Trips (Direitos de Propriedade Intelectual relacionados ao Comércio, tratado que inclui patentes farmacêuticas), mas há uma indicação sobre como o acordo pode ser interpretado em favor da saúde pública nos casos de eventuais quebras de patentes farmacêuticas.

Ainda há colchetes no rascunho do texto final, identificando que não se chegou a consenso se o modo do verbo seria ''shall'' (deve, com sentido mandatório) ou ''should'' (deveria). A delegação brasileira tem 99% de certeza de que a declaração sairá e que o termo ''deveria'' prevalecerá. O Brasil preferiria o uso do termo shall, mas ainda assim está considerando o documento como bastante positivo. ''Mas, como sinal político, a nova versão tem o mesmo valor (da proposta anterior defendida pelo Brasil)'', disse o embaixador do Brasil na OMC, Celso Amorim.

O Brasil, de um lado, e os Estados Unidos, de outro, através do negociador Robert Zoelick, representante de Comércio Exterior americano, lideraram duas correntes opostas sobre a declaração. O Brasil, com outros 50 países, defendia que nada poderia impedir os países de adotar medidas para proteger a saúde pública. Os Estados Unidos, acompanhados por Suíça, Japão e Austrália, eram contrários ao teor da proposta brasileira, alegando que poderia haver abusos de quebra de patentes, o que poderia afetar os investimentos das indústrias na busca por novas drogas.

O rascunho


Depois de negociações intensas, a redação do quarto parágrafo à qual Serra se refere é a seguinte: ''Nós concordamos que o acordo TRIPS não impede e não deveria impedir os membros de tomar medidas para proteger a saúde pública. Em decorrência, ao mesmo tempo em que reiteramos nosso compromisso com o acordo TRIPS, nós afirmamos que o Acordo pode e deveria (ou deve) ser interpretado e implementado de uma forma que dê suporte para o direito dos membros da OMC de proteger a saúde pública e, em particular, de garantir o acesso a medicamentos para todos. Neste sentido, nós reafirmamos o direito dos membros da OMC de usar, por inteiro, as provisões do acordo TRIPS, as quais oferecem flexibilidade para este propósito''.

Em seguida, o documento tem uma nova frase, que não estava incluída na versão provisória com a qual foram iniciados os trabalhos da OMC: ''Em decorrência e à luz do mencionado acima, ao mesmo tempo em que mantemos nosso comprometimento com o acordo Trips, nós reconhecemos que aquelas flexibilidades incluem:'' O propósito desta frase é fazer a emenda entre o parágrafo defendido pelo grupo do Brasil, Índia e mais cerca de cinquenta países, e o resto do documento, que, entre outras determinações, esclarece que cada membro da OMC tem o direito de dar licenças compulsórias (quebrar patentes) e a liberdade de determinar os termos pelos quais as licenças são concedidas; e de determinar o que constitui uma emergência nacional ou outras circunstâncias de extrema urgência (uma das situações em que normalmente se utiliza o expediente das licenças compulsórias).

Inicialmente, havia duas redações do quarto parágrafo em disputa: a do grupo brasileiro (opção 1) e a do liderado pelos Estados Unidos (opção 2). A justificativa para a inclusão da frase adicional é a de que a nova versão não fazia a ''ligação'' entre o quarto parágrafo e o resto do texto.

Desfecho


Confiante de que esta versão prevalecerá - talvez com mudanças em detalhes que, para ele, não têm relevância - Serra disse que considera o desfecho da disputa ''altamente positivo''. ''É uma conquista de todos os que buscam o acesso da população, onde quer que seja, a medicamentos de alta e média complexidade; nao se deve rejeitar patentes, mas a proteção à saúde pública deve prevalecer a todo momento'', disse o ministro. Serra elogiou ''o trabalho diplomático de altíssimo nivel na OMC'' dos negociadores brasileiros.

As organizações não-governamentais que acompanham a reunião de Doha, no entanto, consideram-na essencial. Segundo Michael Bailey, da Oxfam, ''com o 'should ' a declaração se torna irrelevante do ponto-de-vista de dar apoio aos paises em disputas na OMC''. Esta posição, que não admite recuos em relação ao uso do 'shall' també é compartilhada pela Medicina sem Fronteiras, outra importante ONG.

Entre os países, a Índia é o mais empenhado na manutenção do ''shall''. Para o embaixador Luiz Felpe Seixas Correa, secretario-geral do Itamaraty, a declaração é um documento politico.
EUA ainda podem modificar posição

Os Estados Unidos recuaram no acordo de princípio, informou fonte diplomática. Os negociadores americanos ''receberam telefonemas de Washington'' indicando que o compromisso alcançado durante a noite de domingo não é satisfatório, disse a mesma fonte.

Outra fonte diplomática ligada à negociação havia entregado pouco antes cópia de um texto de compromisso, que atendia em boa parte as aspirações dos países em desenvolvimento de produzir ou comprar medicamentos genéricos para fazer frente a emergências de saúde, como no caso da Aids. Mas uma negociadora americana advertiuque o acordo ainda não era definitivo.
ONGs insatisfeitas. Sob críticas de organizações não-governamentais, ficou pronto o rascunho da polêmica Declaração sobre Trips. A manutenção das expressões revela que ou a decisão será tomada pelo facilitador de entendimento do grupo, o mexicano Luis Ernesto Bautista, ou pelo proprio plenário da Ministerial, em votação hoje cedo, último dia do encontro, pelos 142 países membros.

As organizações não-governamentais, que apoiaram a posição enfática do Brasil na luta pela Declaração, não estão satisfeitas com o texto negociado principalmente entre Brasil e Estados Unidos.
''Estamos acompanhando com preocupação o desempenho da delegação brasileira durante as negociações em curso'', disse Adriano Campolina, da Actionaid Brasil.

As ONGs acham que qualquer versão do documento diferente da que foi apresentada pelo Brasil no texto anterior é um retrocesso inaceitável, pois a proposta brasileira já era o mínimo aceitável para assegurar o direto da população à saúde.

Laboratórios criticam texto

O desfecho não agradou o lobby farmacêutico. Harvey Bale, diretor da Federação Internacional das Associações de Fabricantes de Produtos Farmacêuticos não gostou do texto alcançado.
Bale disse que a sua oposição não é tanto ao conteúdo: ''O problema é que o texto é muito confuso; os negociadores pensam que são espertos, brincando com as palavras, mas na verdade eles são bobos.''

Na sua opinião, o texto pode desencorajar a pesquisa científica em remédios. O executivo considera isso alarmante tendo em vista a crescente resistência de novas famílias do HIV aos remédios existentes.

 

Acordo sobre patentes está próximo, diz Sérgio Amaral
Fonte:Diário de Cuiabá (MT) - 13/11/2001

Agência Folha - São Paulo

O acordo sobre patentes de medicamentos voltou ontem a ser negociado em Doha, capital do Qatar, para um ajuste final. Embora esse assunto seja um dos mais polêmicos da 4ª Conferência Ministerial da OMC (Organização Mundial de Comércio), é o que parece estar mais próximo ao fim.

O ministro da Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Sergio Amaral, aposta em uma "luz ao final do túnel". Na reunião de anteontem, 30 dos 43 países que falaram sobre o assunto apoiaram a decisão do Brasil e Índia.

Esses países, junto com outros em desenvolvimento, defendem que o acordo de Trips (Direitos de Propriedade Intelectual relacionados ao Comércio, na sigla em inglês) não pode ficar acima das medidas que protejam a saúde pública - caso da quebra de patentes para produção, a menor custo, dos medicamentos para tratamento da Aids.

Já a outra posição, defendida pelos EUA e pela Suíça, o acordo de Trips já tem flexibilidade suficiente. Eles também defendem que a medida pode causar mais mortes, já que haverá menos recursos para pesquisas.

Anteontem ficou decidido que o acordo de Trips não poderia impedir que membros da OMC tomassem medidas para proteger a saúde pública -assegurando a acesso de medicamentos a todos. Um dos entraves para o texto final foi colocado pela União Européia. Esta manhã, a UE adicionou um adendo, o que retardou a redação do texto final, segundo o vice-chanceler brasileiro, Luís Felipe Seixas Correa.

O ministro José Serra (Saúde) disse estar "99%" satisfeito com o princípio do acordo sobre patentes.Serra negou que o interesse do Brasil no assunto seja comercial, e sim de direitos humanos.

Mas não criticou a decisão da Índia de exportar genéricos caso deseje. O Brasil, junto com a Índia, é um dos grandes produtores de medicamentos genéricos, que custam menos do que os patenteados das grandes indústrias.

Serra negou que irá reduzir a pressão em outros assuntos que o Brasil tenha interesse agora que o acordo sobre patentes está praticamente fechado. Embora o acordo que está para ser fechado tenha recebido elogios, a bilionária indústria de remédios já demonstrou temor sobre o que pode acontecer.

O diretor da Federação Internacional de Indústria Farmacêutica, Harvey Bale, classificou o texto de "ambíguo" e teme que a medida faça a pirataria de remédios aumentar, o que prejudicará a pesquisa para novos produtos.


 
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