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Genéricos na Imprensa Notícias
De
galináceos, propaganda e saúde ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE
Artigo A história não registrou quem havia dado o nome do
grande satirista romano Juvenal ao empertigado e multicolorido galo
garnisé, que atuava em pequena área ao sul do terreiro.
A parte mais nobre do galinheiro, situada ao norte, era "moradia"
do grande galo carijó de crista estrelada. Este dignitário,
talvez com o intuito de confirmar sua dominância territorial,
percorria suas extensas terras periodicamente. Nessas horas, sua
postura era notável: asas em arco, ligeiramente abertas,
peito distendido, cabeça erguida, desenvoltura no andar,
fisionomia severa, leve sorriso e nenhum sinal de preocupação.
Uma linguagem corporal estudada para exprimir, sem sutileza, seu
status. Especialistas em comportamento animal ainda não decidiram
se foi o galo carijó que serviu de paradigma para o presidente
Bush ou vice-versa. Quando o galo carijó passava pelos lados
onde o vice-galo Juvenal costumava perambular, este último
encolhia o peito, baixava a crista e se embuçava entre galinhas
e frangos. Mas quando o galo carijó, já de costas,
alcançava uma distância segura, Juvenal se empertigava
todo e chegava mesmo a dar uma discreta e curta corrida em direção
ao galo dominante. Pela propaganda, a tragédia de um Cazuza vale a de 1 milhão
de crianças com malária ou esquistossomose Recentemente, na última reunião da OMC, o Brasil
conseguiu recuperar um direito elementar que é tradicional
nas legislações patentárias em todo o mundo:
o de intervir, liberando uma patente julgada perniciosa para o país.
Recuperou, mas não usou. Preferiu negociar com as empresas
detentoras de patentes uma redução de preços
de remédios usados para amenizar os efeitos da Aids. Nos
EUA, há uma série de exemplos em que, para impedir
a formação de monopólios, patentes são
suspensas. O argumento de que a legislação patentária
americana não contém essa salvaguarda é falacioso,
pois legislações como leis antitruste são suficientes. Mas eis que, agora, essa pequena e contingenciada prerrogativa
é restabelecida. E nossos garnisés saem por aí
cacarejando vitória, arrotando soberania, embora sem ter
tido a coragem de usar as prerrogativas recém-adquiridas.
Nenhuma patente foi quebrada. O surpreendente é que foi esse mesmo nosso garnisé-mor
quem pressionou o Congresso para aprovar a ignóbil legislação
patentária brasileira. O garnisé aspirante, já
ministro, não ciscou uma única palha contra a aprovação
da dita legislação, não fez um gesto sequer
de repúdio a qualquer das infames concessões contidas
nesse "estatuto do entreguismo". Em linguagem de "galistas",
esse comportamento é descrito pela expressão "cantar
galinha". Outro projeto galináceo foi a implantação
de grande sucesso de público e de crítica do "remédio
genérico", por este autor e esta Folha proposto há
cerca de dez anos. Seriam 550 genéricos, ou seja, 550 formulações,
dizem. Mentirinha. São 550 dosagens. Um remédio com
10 ml de tal fármaco não é uma formulação
diferente nem um genérico diferente de outro com 5 ml. Se
você parte ao meio uma pílula, não estará
criando dois genéricos distintos. Há, sim, cerca de
cem genéricos, com 550 dosagens, pouco mais do que 2% das
vendas de medicamentos no Brasil. Análise do professor Ricardo Isidoro da Silva mostra que
uma redução de tarifa de, digamos, 10% corresponde
a uma variação de preços do medicamento que
varia de 0,08% a 0,96%. Além do mais, essa análise
também confirma o que o senso comum prevê: a súbita
eliminação de tarifas leva as poucas indústrias
nacionais do setor de química fina à falência
ou à supressão da produção de fármacos.
E, sem a competição nacional, o cartel aumenta seus
preços. Mas temos de reconhecer que o fuzuê, ou melhor, a ameaça
de liberação de patentes e supressão de tarifas
de importação, serviu para reduzir os preços
de alguns componentes do coquetel contra a Aids. E, de fato, o programa
brasileiro contra essa trágica doença foi elogiado
em instâncias elevadas do mundo desenvolvido. "É
um programa de Primeiro Mundo", reverberou o refrão
autodepreciativo. Mas o Brasil é um país de Terceiro
Mundo, onde crianças morrem de subnutrição,
endemias e falta de saneamento básico e atendimento médico.
Quanto custa a melhoria da qualidade de vida de um aidético?
Quantas vidas de crianças carentes? Cem? Mil? Parece que nos acostumamos ao quadro macabro de morte infantil,
banalizado pela assiduidade corruptora, enquanto reagimos emocionalmente
à tragédia da aparição abrupta da epidemia
de Aids. Mas um organismo do Estado tem o dever de ser racional
em suas decisões. Só há uma possível
interpretação para o zelo com que está sendo
levado o dispendioso programa de apoio ao aidético, em contraste
com o descaso com que vêm sendo tratados os problemas da desnutrição
infantil e do saneamento básico: o Ibope. Rogério Cezar de Cerqueira Leite, 70, físico, é
professor emérito da Unicamp e membro do Conselho Editorial
da Folha.
Fórum
de Debates Cartas
Até
março OTAVIO FRIAS FILHO O jogo da sucessão presidencial deve estar armado até
março. Pelo lado da esquerda, a situação está
definida. Especula-se a possibilidade de o senador Suplicy abrir
mão de disputar com Lula, obtendo em troca a legenda do PT
para concorrer ao governo paulista. Talvez nem isso lhe dêem. A irrupção meteórica da postulante Roseana
Sarney, hoje em segundo lugar nas pesquisas, parece ter reduzido
ainda mais as chances de candidaturas alternativas, como a de Ciro
Gomes ou Itamar Franco, este último vítima da federação
de oportunismos que é o seu partido, o PMDB. Para quem gosta de quiromancia sucessória, as questões
do momento passaram a ser duas. A primeira é saber em que
medida a candidatura Serra vai converter energia política,
para falar em termos de leis da física, em energia eleitoral.
A segunda é saber se Roseana resistirá no atual patamar
de intenções de voto. Serra é tido como o mais produtivo ministro do atual governo.
Disporá de amplos recursos, políticos e financeiros,
para montar a mais profissional campanha já vista desde Fernando
Collor. Tem créditos, com a população, por
iniciativas como a dos medicamentos genéricos, programa contra
a Aids, antitabagismo. Não existe muita dúvida de que tenderá a subir
nas pesquisas tão logo seu nome seja ungido pelo tucanato
e ele se coloque em campanha. Por afinidade e atração
gravitacional, terá o apoio da máquina do governo,
do empresariado paulista, do PMDB e de seu próprio partido,
exceto de uma provável fração dissidente. Se Serra subir alguns pontos e Roseana cair outros, a tendência
será o PFL desistir da aventura e apoiar o candidato do PSDB,
mantendo-se na atual posição de sócio secundário
do bloco. O preço da rebeldia será o de ficar em posição
possivelmente subalterna em relação ao outro sócio,
o PMDB serrista. Costuma-se dizer que o PT é o único partido de verdade
na política brasileira, mas talvez quem faça jus ao
título seja mesmo o PFL. Tem um programa claro, liberal-econômico,
e ganhou ainda mais coesão, disciplina e visão estratégica
depois que se livrou do caciquismo de Antonio Carlos Magalhães,
hoje ilhado na Bahia. Se Roseana resistir, o bloco fernandista deverá disputar
o primeiro turno com dois candidatos. Além de trabalhar o
sentimento das pessoas "comuns", a governadora deverá
explorar a reação antipaulista que Serra desperta.
O plano era que Luís Eduardo fosse o candidato em 2002; o
PFL achou uma bela opção. Otavio Frias Filho escreve às quintas-feiras nesta coluna. |
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