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15/08
Medicamentos baratos levam americanos ao México




Medicamentos baratos levam americanos ao México
Fonte: Valor Econômico - 15/08/2001

The New York Times, de Tijuana

Se alguma vez já existiu um mercado livre, ele está aqui, na avenida da Revolução. A poucos passos da fronteira americana, cercadas por faixas espalhafatosas e quinquilharias, centenas de farmácias vendem milhões de dólares em remédios .
Eles são como uma dádiva para os americanos mais velhos, que buscam remédios receitados que não podem comprar nos EUA, o único grande país desenvolvido que não tem controles de preço ou de lucro sobre remédios.
Eles vêem de todas as partes, às vezes em excursões de ônibus anunciando "passeios até os remédios mexicanos", freqüentemente portando listas de compra para amigos e para a família. Encontram excelentes pechinchas - alguns medicamentos chegam a custar 80% mais nos EUA - e uma seleção impressionante. Os genéricos não encontrados nos EUA estão disponíveis aqui, onde as proteções de patentes expiram mais rapidamente. Receitas para quase qualquer coisa podem ser obtidas por um preço módico.
Os negócios nas farmácias fronteiriças estão se expandindo desde meados dos anos 90 - desde a época em que o plano de assistência médica de Clinton desmoronou, organizações de assistência gerenciada e de auxílio-saúde ocuparam a medicina americana e os custos dos remédios receitados começaram a subir 10% a 15% anualmente. Apesar de as vendas terem desacelerado esse ano, em breve elas poderão crescer novamente.
No mês passado a Câmara dos Representantes aprovou uma lei que permite que americanos comprem das farmácias mexicanas por correio ou pela internet.
"Grande idéia", exultou Dolores Huff,de Maurepas, Louisiana, cujo marido, Warren, estava comprando Vioxx, um antiinflamatório, economizando US$ 50 no suprimento mensal.
Talvez seja assim. Mas há problemas nesse paraíso farmacêutico. A expansão nas farmácias de fronteira, estimulada pelos dólares americanos, começou a gerar um mercado de medicamentos falsificados, adulterados e roubados que imitam os mecanismos do comércio internacional de narcóticos.
"Empresas na Índia e na China estão fortemente envolvidas na fabricação de remédios falsificados que acabam chegando à fronteira mexicana e às mãos dos consumidores dos EUA", disse John D. Glover, ex-agente do FBI que é diretor de segurança empresarial na Bristol-Myers Squibb. "Membros do crime organizado mexicano estão envolvidos na distribuição e venda de remédios falsificados."
As prateleiras também contêm remédios roubados por funcionários corruptos, segundo estudos mencionados em depoimentos perante o Congresso dos EUA, que haviam sido doados ou vendidos a preço de custo a países pobres e depois desviados para o México.
"O comércio de interceptação parece ser apoiado em parte por americanos frustrados que buscam medicamentos mais baratos", incluindo "pessoas da terceira idade que têm orçamentos reduzidos, sem condição de pagar os medicamentos que necessitam", afirmou Donald deKieffer, advogado de Washington que investigou o desvio e a falsificação de remédios, contratado pelas companhias farmacêuticas. Ele e Glover recentemente depuseram no Congresso dos EUA contra a venda de remédios por correio e internet.
As empresas farmacêuticas são contrárias à medida por várias razões, entre as quais a ameaça que isso representa a seus lucros. Contudo, elas assinalam que as práticas criminosas que envolvem remédios falsificados e roubados levantam a questão de que algumas farmácias de fronteira, deliberadamente ou não, estão vendendo algo inútil ou perigoso. O cliente não tem condição de saber imediatamente. O homem de avental branco atrás do balcão pode ser um farmacêutico. E pode não ser.
"Estamos preocupados com a qualidade dos medicamentos", disse Richard F. Gonzáles, cônsul americano em Tijuana. "Entendemos que seria um bom negócio se as pessoas pudessem comprar seus remédios a US$ 0,40 por comprimido, em vez de pagarem um dólar. Mas nossa questão é: qual é a qualidade desse produto?"
Americanos em Tijuana acreditam que o que estão comprando é o mesmo remédio que encontrariam em casa, se pudessem pagar. Na maioria das vezes, isso é verdade. Não há nenhuma prova concreta de que boa parte dos remédios vendidos na fronteira sejam falsos ou adulterados. "Oitenta por cento de minha clientela é composta de americanos idosos sem seguro médico, e o que compram é fabricado por subsidiárias mexicanas das empresas farmacêuticas internacionais", informa Jacobo Veinberg, gerente da Medicine Store na avenida da Revolução.
A médica americana Elaine Kennedy, visitando Tijuana em uma viagem de um dia depois de uma convenção médica em San Diego, disse que mencionou "a questão do controle de qualidade" aos seus pacientes e acredita que eles entendem que estão assumindo um risco. "Posso imaginar que estariam bastante inclinados a economizar para poderem comprar esses medicamentos aqui."

 
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