A defesa de um médico
Fonte: Correio Braziliense - 16/08/2001
Autor de pareceres que beneficiaram laboratório em compra
de remédio mais caro pela Secretaria de Saúde alega
que escolha foi uma emergência
Samanta
Sallum
Da equipe do Correio
O médico Marcelo Almeida, coordenador da área de
Nefrologia do Hospital de Base, diz se sentir usado no processo
de compra do remédio ciclosporina pela Secretaria de Saúde.
O órgão e o médico são acusados pelo
Conselho Regional de Farmácia de terem cometido irregularidades
no processo. Almeida contou ao Correio que foi levado a redigir,
''numa situação fora do comum'', o parecer que respaldou
a compra do medicamento em julho. Seu parecer favoreceu o produto
fabricado pelo laboratório Novartis, mais caro que os concorrentes
genéricos.
''Foi a primeira vez que redigi esse tipo de parecer. A secretaria
de Saúde me pediu para escrever o parecer naquele dia,
me pegando de surpresa'', disse, sem dizer quem exatamente pediu
a ele o parecer.
O médico diz estar surpreso por ter sido envolvido na denúncia
de favorecimento ao laboratório Novartis em duas compras
de ciclosporina realizada pela Secretaria de Saúde. A denúncia
foi publicada pelo Correio domingo. Ciclosporina é usada
em pacientes renais crônicos submetidos a transplante de
rim para evitar rejeição ao novo órgão.
A justificativa da Secretaria por ter se recusado a comprar o
genérico, mais barato, em benefício da marca Novartis,
baseia-se no parecer assinado por Almeida. No documento, ele dá
preferência à marca Novartis sob a alegação
de que a troca do produto poderia prejudicar os pacientes, que
teriam de se submeter a novos testes de dosagem.
O médico alega que estava numa situação de
extrema urgência e pressão quando teve de assinar
o parecer. Justificou a urgência usando como argumento uma
falha da secretaria de Saúde. O órgão não
tinha em seus estoques os chamados kits de dosagem (material necessário
para adequar as doses do remédio no sangue dos pacientes).
''A dosagem errada do medicamento pode levar à perda do
órgão transplantado'', reforça.
O parecer do médico, no entanto, foi contestado pelo Ministério
da Saúde. ''A troca da marca não acarretaria problema
algum. O genérico tem a mesma eficácia que o fabricado
pela Novartis'', disse Vera Valente, gerente geral de medicamentos
genéricos do Ministério.
Almeida explica que a compra de ciclosporina teve de ser realizada
naquele dia (26 de julho) em caráter de emergência.
O problema é que a Novartis tinha apresentado preço
maior que o genérico fabricado pelo laboratório
Nature's. Foi quando ocorreu a irregularidade. Depois de abertas
as propostas, o Novartis foi informado por alguém da Secretaria
de Saúde que o concorrente genérico era mais barato.
Depois, o laboratório teve a chance de apresentar nova
proposta.
Princípio desrespeitado
Esse procedimento feriu o princípio da impessoalidade expresso
na lei 8.666 (de Licitações) e a lei de 9.787/99
(dos Genéricos). Esta determina que, em caso de empate
de propostas e em compra emergencial, deve ser comprado o genérico.
''Alguém da Secretaria de Saúde me disse que podia
escrever o parecer escolhendo a Novartis porque já tinham
ligado para o laboratório e conseguido reduzir o preço'',
disse Almeida, que mais uma vez não soube dizer quem ligou
para o Novartis.
''Não sou contra a ciclosporina genérica. Mas considerei
que a troca prematura de um medicamento pelo outro causaria transtornos.
Sou médico, agi, conforme minha consciência. Assumo
a responsabilidade quanto ao meu parecer técnico, pois
os pacientes estão em primeiro lugar. De minha parte, não
houve má-fé''.
Guerra entre laboratórios
O nefrologista Marcelo Almeida disse que é vítima
de uma guerra de laboratórios que fazem lobby agressivo
junto aos médicos. Ele contou que foi procurado pelo Nature's,
preterido na compra da Secretaria de Saúde. Inconformado
com a perda no processo, o laboratório foi cobrar explicações.
''Mantive meu parecer mesmo sob ameaças. Não me
curvei diante de propostas do outro laboratório'', desabafou
Almeida. O diretor do Nature's, Carlos Oliani, confirma que ocorreu
o encontro, mas nega que ouve qualquer ameaça agressiva.
''Disse apenas que ele tinha cometido um crime e que seria denunciado
por isso''. O próprio ministro da Saúde, José
Serra, acusou, no início de agosto, outro laboratório,
o Novartis, de fazer lobby antiético para aumentar seus
lucros.
Entenda o Caso
No dia 26 de julho, a Secretaria de Saúde realizou uma
tomada de preços para a compra de 39 mil cápsulas
de ciclosporina, em caráter de urgência. O laboratório
Nature's ofereceu o comprimido por R$ 1,18. O laboratório
Novartis propôs R$ 1,24.
Alguém na Secretaria de Saúde entrou em contato
com o Novartis, informou o preço do concorrente e permitiu
ao laboratório apresentar nova proposta. Ao mesmo tempo,
o médico Marcelo Almeida, coordenador de Nefrologia da
Secretaria, deu parecer favorável ao produto do Novartis.
Em outra compra, dessa vez uma licitação, o mesmo
médico deu parecer favorável aos produtos do Novartis,
apesar de dois laboratórios oferecerem o mesmo produto
por preço menor.