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16/12

Genérico cresce, mas remédios não ampliam mercado

16/12
Para as empresas, governo tem a solução
16/12
A história de uma farsa

Genérico cresce, mas remédios não ampliam mercado
Fonte:O Estado de S. Paulo - 16/12/2001

XCapa/Geral/Saúde

Genéricos crescem, mas não ampliam mercado
Medicamento mais barato não chega à população de menor poder aquisitivo

LAURA KNAPP

A entrada dos medicamentos genéricos no Brasil é um sucesso. Há um ano e meio no mercado, a venda desses remédios cresce exponencialmente, em torno de de 15% ao mês. Respondem por cerca de 5% do mercado total, uma fatia aparentemente pequena, mas significativa quando se considera a pouca familiaridade dos brasileiros com a novidade.
Apesar do bom desempenho, os genéricos têm causado certa frustração no meio empresarial. Antes de seu lançamento, a expectativa era de que eles pudessem ampliar o mercado, aumentando as vendas de medicamentos em geral.

Esperava-se principalmente que os genéricos conseguissem atrair, com seus preços menores, consumidores que não costumavam comprar remédios. O que ocorreu até agora, no entanto, foi simplesmente uma substituição de um tipo de produto por outro. Quem já comprava o produto de marca, economiza com o genérico. Quem não comprava, continou fora do mercado.

"No começo, o genérico foi tido como salvador da pátria", afirma Omilton Visconde Júnior, presidente do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sindusfarma). "Mas ele não resolveu o problema de acesso da população mais carente". É aí que reside o grande problema. Mesmo com preços 40% ou 50% menores do que os medicamentos originais, os genéricos continuam inalcançáveis para a grande maioria da população brasileira. A renda dessa população excluída é tão reduzida que quem não tinha R$ 20 para comprar um remédio, continua sem ter os R$ 12 ou R$ 10 necessários.

Para Jairo Yamamoto, presidente do laboratório Medley, o problema do aumento de consumo esperado com os genéricos é que as pessoas costumam confundir o efeito renda com o efeito preço. "A venda de medicamentos melhora à medida que a renda melhora", diz ele. "A redução nos preços ajuda a melhorar a renda dos que já adquiriam o produto." Em outras palavras, o que ele diz é que o problema do baixo consumo de medicamentos não está no preço propriamente dito, mas sim na escassa renda dos brasileiros.

O gerente-geral da área de regulação e monitoramento de mercado da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Pedro Bernardo, discorda da avaliação feita pelos fabricantes. Na sua opinião, o movimento causado pela entrada dos genéricos, que ainda têm participação muito pequena no mercado, é insuficiente para reverter a tendência de compras. O problema, afirma, é que os fabricantes trabalham com dados da IMS, empresa de auditoria da indústria farmacêutica, que não engloba todo o mercado.

"É impossível que não tenha sido agregado nenhum consumidor novo", afirma.
Como a informação é muito importante nesse mercado, diz, quem se beneficiou antes com a entrada dos novos produtos foram as classes A e B, que têm maior acesso às notícias. "Depois os outros ficam sabendo e passam a comprar".

Prova disso são os dados de comercialização de outubro, quando foram vendidas 8,4 milhões de unidades de genéricos, revertendo uma pequena queda dos meses anteriores. Seriam reflexo da mudança das embalagens de genéricos, caracterizadas agora com uma tarja amarela e com a letra G, e de uma intensa campanha publicitária lançada pelo governo.

Preço alto - Há outro aspecto que precisa ser levado em conta. Para as indústrias, era interessante investir primeiro em genéricos que tratam de moléstias crônicas, de longa duração, como hipertenção ou colesterol alto, ou antibióticos, ambos com preços altos.

Isso significa que parte dos genéricos encontradas nas farmácias também são caros. Anti-hipertensivos simples, antibióticos sistêmicos e anti-ulcerosos respondem por 46,91% das vendas de genéricos. "Não vale a pena fazer um medicamento que vai custar R$ 3,60, ao invés de R$ 4,00. É vantagem quando custa R$ 60 e não R$ 100", afirma Paulo Muradian, diretor de genéricos da multinacional Norvartis no Brasil. Com a chegada de novos produtos e de concorrentes, os preços tendem a cair.

Os genéricos também não têm chegado à população mais carente porque não chegam às farmácias da periferia, dizem os fabricantes. Para o dono da drogaria, não existe grande atrativo em vender genéricos. Afinal, tira seu lucro de uma porcentagem sobre as vendas. Se o medicamento tem preço menor, seu lucro, em conseqüência, também é menor.

A mesma teoria poderia ser aplicada às grandes redes, mas há uma diferença.

Apesar de faturarem menos com os genéricos, atraem compradores que acabam levando produtos de higiene ou beleza, com os quais recompõem suas margens de lucro. Funciona como os hipermercados, que vendem pãozinho a preço de custo, mas lucram no papel higiênico ou na salsicha. As pequenas farmácias, porém, não têm capital de giro suficiente para investir em produtos paralelos, de acordo com Muradian. "Estamos tentando encontrar formas de tornar o genérico atrativo para as pequenas farmácias", diz. "Com atratividade econômica, vamos ver se dá resultado. O que não conseguimos fazer é mudar a situação financeira das pessoas."
Do lado das redes de drogarias, não há como fugir da tendência do mercado.

"Gostemos ou não, o genérico está aí para ficar", explica Eugênio De Zagottis, diretor comercial da Droga Raia. "Agora, tratamos de ganhar mercado, conquistar novos clientes, para manter a rentabilidade." Na Droga Raia, os genéricos já respondem por 7,7% das vendas de medicamentos. Em algumas linhas de produtos, o genérico praticamente desbancou o medicamento de marca. É o caso da ranitidina, para tratar problemas gástricos. A rede vende cerca de 10 mil unidades do produto por mês, contra 1.780 do medicamento de referência, o Zantac.

De acordo com dados da Anvisa, a quantidade de genéricos vendida no Brasil saltou 249,42%, de junho de 2000 a agosto de 2001, chegando a 7,06 milhões de unidades, ou 5,07% do mercado total. Em valores, houve crescimento de 440,26%, com a venda de R$ 41,01 milhões, (3,2% do mercado). O preço médio da unidade subiu, no período, de R$ 3,76 para R$ 5,81.

Para as empresas, governo tem a solução
Fonte:O Estado de S. Paulo - 16/12/2001

Geral/Saúde

Indústrias farmacêuticas querem distribuição gratuita à população

Fabricar genéricos é só uma parte do processo. A outra é justamente conseguir vendê-los. Os primeiros produtores não tiveram muitas dificuldades. Mas à medida que novos participantes entram no mercado, a concorrência por um lugar na prateleira da farmácia se acirra. O motivo é simples: as drogarias não têm capacidade para estocar os produtos de todos os fabricantes. Assim, a venda tem que ser conquistada. "Os grandes já estão chegando, inclusive as multinacionais. Não há reserva de mercado para brasileiros", diz Omilton Visconde Junior, vice-presidente executivo da Biosintética e presidente do Sindusfarma.

Algumas indústrias farmacêuticas oferecem descontos de comercialização para as drogarias, duas vezes maiores para os medicamentos genéricos do que para os de marca, afirma Visconde. Há farmácias, como a Droga Raia, que na hora da escolha preferem adquirir genéricos de empresas que tenham a linha completa a oferecer.

A Novartis começou a vender genéricos em outubro. O diretor Paulo Muradian diz que não encontra muita dificuldade para colocar seus produtos, apesar da concorrência, por se tratar de uma empresa já conhecida no mercado de medicamentos de marca.

A história de uma farsa
Fonte:Correio Braziliense - 16/12/2001

Capa/Política

Laboratório que fabrica genéricos fraudou documentos no Ministério da Saúde

Rodrigo Caetano e Ugo Braga
Da equipe do Correio

O laboratório brasileiro EMS Sigma Pharma é o que mais registra remédios genéricos no país. Possui 93 desses medicamentos em seu portfólio. A despeito do sucesso na política de barateamento do Ministério da Saúde, entre 1999 e 2000, a empresa se valeu de documentos falsos para tentar registrar o remédio Sigmasporin, a sua ciclosporina (D). A droga é usada para diminuir a rejeição a rins transplantados e disputa mercado com o medicamento Sandimmun (E). O expediente não abalou o prestígio da companhia. De lá para cá, ela continuou catalogando genéricos sem restrições.

Fraude por R$ 100 milhões

Na guerra pelo lucrativo mercado dos doentes renais transplantados, laboratório tentou aprovar registro de remédio que combate a rejeição com documentos falsos. O Ministério da Saúde descobriu a falsificação mas, nem por isso, procurou punir a empresa

Rodrigo Caetano e Ugo Braga
Da equipe do Correio

São 40 mil vidas humanas em uma arriscada guerra diária com a morte. De um lado, a certeza da falência iminente de um órgão vital. De outro, o grande risco de que a substituição por outro órgão saudável acabe também em morte. A arma que diminui esse perigo chama-se ciclosporina, uma droga que evita a rejeição de órgãos transplantados, principalmente nos rins. Essas 40 mil vidas humanas representam também cerca de R$ 100 milhões por ano. Esse é o volume total de recursos gastos pelo Ministério da Saúde com os pacientes renais crônicos. Como em qualquer outra guerra, os fabricantes das armas estão muito mais preocupados com o dinheiro que podem ganhar do que com as vidas que salvam ou eliminam. A história que será contada a seguir revela que, em nome dos R$ 100 milhões que representam, os 40 mil doentes renais estiveram bem próximos de aumentar ainda mais os riscos da guerra diária que enfrentam.

A lama que salpica dessa guerra atinge também o Ministério da Saúde. Por conta da disputa, emergiu no episódio em que um deles - EMS Sigma Pharma - usou documentos falsos para arrancar da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) o registro de remédio genérico para sua ciclosporina.

O caso é relevante especialmente porque o laboratório nacional EMS Sigma Pharma é o que mais registra genéricos desde a aprovação da lei, em 1999. Em seu portfólio, constam 93 desses remédios. O segundo colocado do ranking, conforme informações da Anvisa, é o Eurofarma, com 35 registros.

O episódio deixa claro que, em pelo menos um caso, o mais atuante representante da indústria farmacêutica brasileira na política de barateamento dos remédios - uma das mais vistosas bandeiras do ministro José Serra - comprovadamente valeu-se de métodos pouco ortodoxos para tirar seus planos do papel. E não há notícia de que o governo lhe tenha aplicado qualquer sanção.

Em 1997, os doentes renais crônicos transplantados só contavam com o Sandimmum Neural, remédio fabricado pelo laboratório suíço Novartis. A droga não é encontrada nas farmácias. Comprada pelo Sistema Único de Saúde, é distribuída gratuitamente nos hospitais.
Ocorre que o remédio da monopolista Novartis era muito caro. Custava aproximadamente R$ 600 a caixa com 100 comprimidos. Isso acabou criando espaço para outras empresas se aventurarem a produzir o medicamento mais barato. A EMS Sigma Pharma inaugurou a concorrência, introduzindo no mercado o Sigmasporin, similar do Sandimmun Neoral.
Em 1999, o laboratório resolveu fazer seu Sigmasporin subir na escala dos medicamentos. Queria promovê-lo de similar a genérico. Pediu a autorização da Anvisa e, durante o processo, acabou protagonizando o episódio da falsificação. A EMS Sigma Pharma tinha informações de que outros laboratórios também tentavam o mesmo. A pressa em obter o registro é que colocou em risco a vida dos doentes.

O trâmite legal do Ministério da Saúde para registrar o medicamento exige a existência de um estudo de bioequivalência (para entender o que é bioequivalência, leia o quadro Para Saber Mais). Para cumprir essa exigência, o EMS Sigma Pharma apresentou à Anvisa, no dia 5 de outubro daquele ano, o artigo New cyclosporine microemulsion randomized, cross-over bioequivalence steady-state study in renal transplanted patiens (tradução: Estudo de Bioequivalência, aleatório e cruzado, no estado de equilíbrio, de uma nova ciclosporina, em microemulsão em pacientes renais transplantados).

Trata-se de um artigo científico, publicado originalmente na edição de janeiro de 1999 da European Review for Medical and Pharmacological Sciences (Revista Européia de Medicina e Ciências Farmacológicas). No ensaio, cinco especialistas testam se o remédio da Sigma Pharma contém os mesmos princípio ativo e propriedades do medicamento de referência, da Novartis.

Em oito páginas, eles argumentam, fazem cálculos e colhem estatísticas, comparam um e outro. No fim, sob a epígrafe de ''discussão'', os cientistas admitem a bioequivalência entre Sandimmun Neural e Sigmasporin. Mas fica claro, pelo uso do termo ''discussão'', que aquela não era uma análise conclusiva. Isso no documento original.

Tópicos adulterados

Já na cópia entregue à Anvisa para registro de genérico, tópicos fundamentais aparecem adulterados (leia fac símile). A farsa começa pela numeração das páginas (11 a 18 no original, 1 a 8 na falsa cópia). Um dos autores, o italiano Diego Foschi, simplesmente some do rol de autores do artigo. E faz-se uma mudança fundamental para a compreensão dos cientisas: onde se lia ''discussão'' aparece ''conclusão''. Para reforçar ainda mais, o texto ganha as palavras ''In conclusion'' (Em conclusão) antes do último parágrafo, garantindo ares definitivos ao estudo. Para um leigo pode não parecer muita coisa, mas para os cientistas perpetrou-se, ali, um verdadeiro sacrilégio.

Se havia alguma dúvida de que a modificação não era uma mera filigrana, ela foi tirada em uma carta do romeno Ioanel Sinescu, urologista do Fundeni Hospital, de Bucareste. Tido como o principal pesquisador do assunto, ele chegou a assinar uma declaração registrada em cartório mostrando-se estupefato com a violação do texto científico. ''Expresso minha perplexidade sobre a forma como foi dado valor científico falso a dados primários clínicos-histológicos e à forma como alguém pôde utilizar o meu nome sem meu prévio conhecimento".
A fraude chegou a ser denunciada à Anvisa, na época. O presidente da agência, Gonçalo Vecina, pediu à Embaixada brasileira na Romênia para checar a participação de Sinescu no estudo. Segundo Vecina, aos diplomatas o romeno admitiu ter feito o trabalho. Mas insistiu que não se tratava de um atestado de bioequivalência.

Usando o poder de reguladora do mercado, a Anvisa sugeriu ao EMS Sigma Pharma que fizesse um outro estudo comparativo entre os dois medicamentos. Desta vez num laboratório brasileiro, credenciado pelo Ministério da Saúde. O trabalho coube ao farmacêutico Gilberto de Nucci, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP).
Favorável à droga da EMS Sigma Pharma, a resposta definitiva saiu no dia 31 de julho de 2000. O registro como genérico do medicamento da laboratório nacional foi oficialmente concedido à empresa no dia 23 de agosto de 2000, mais de um ano e várias outras pesquisas depois. O laboratório nada sofreu pela mentira inicial.

Para saber mais
Ciclosporina

É um medicamento vital para quem se submete a um transplante. Ele tem a função de evitar que o órgão seja rejeitado pelo corpo. É considerada uma droga crítica, que precisa, entre outras características, ter dosagem adequada e ser regulada rigorosamente na corrente sanguínea. Caso não se faça esse controle, o paciente pode sofrer uma intoxicação renal e até mesmo perder o órgão.

Medicamento similar

É aquele que contém o mesmo princípio ativo, a mesma concentração, forma farmacêutica, via de administração e indicação terapêutica do medicamento de referência.
Medicamento genérico

É uma cópia idêntica do remédio original. Além de ter o mesmo princípio ativo, ele deve agir no organismo exatamente da mesma forma que o remédio original. Para ser registrado, o genérico precisa do teste de bioequivalência.

Bioequivalência

É a forma que o medicamento age no organismo. Ao ser administrado, o remédio candidato a genérico não pode apresentar diferenças estatísticas significativas em relação ao de marca. São feitas análises para atestar se os efeitos no paciente são mesmo idênticos.

Memória
O vale-tudo dos laboratórios

A briga entre os laboratórios suíço Novartis e brasileiro EMS Sigma Pharma pelo mercado da ciclosporina se arrastou por, pelo menos, três anos. O medicamento da Novartis reinava absoluto. Monopolizou o mercado por mais de 15 anos.

Quando a Anvisa concedeu registro à ciclosporina da EMS Sigma Pharma, a guerra entre os laboratórios se acirrou. Vendido pela metade do preço do remédio da Novartis, a nova droga começou a ganhar licitações no país. Com isso, levantaram-se suspeitas sobre a qualidade do produto.

No meio da guerra comercial, as associações de renais crônicos foram vítimas de pesadas pressões das duas empresas para que se posicionassem a favor da ciclosporina de cada um. Em dezembro de 1999, por exemplo, a professora titular de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), Terezinha Pinto, afirmou que ambas as drogas tinham equivalência farmacêutica, já que ambas eram feitas à base de ciclosporina. Meses depois, a EMS Sigma Pharma usou este argumento para dizer que a USP havia dado o testes de bioequivalência. Terezinha irritada disse: ''Mentira. Não fiz nenhum testes nesse sentido''. (RC e UB)

Entrevista / Gonzalo Vecina

Anvisa acha que tomou os cuidados necessários. Laboratório garante qualidade do medicamento

Para Vecina, os estudos sobre o medicamento foram corretos

''Houve pressão. Só concedemos quando tínhamos certeza''

O presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Gonzalo Vecina, concedeu duas entrevistas ao Correio, na manhã e noite da última sexta-feira. Disse que, diante das denúncias quanto à falsificação de documentos, na época, a Anvisa investigou a autenticidade do estudo. E a comprovou. Mesmo assim, exigiu da EMS Sigma Pharma um novo exame, feito no Brasil. Por isso, diz que a ciclosproina das duas empresas são bioequivalentes e que a população não precisa se preocupar quanto ao uso do remédio.

CORREIO BRAZILIENSE - A Vigilância Sanitária não tomou nenhuma providência depois de detectadas as irregularidades no trâmite do Sigmasporin?

GONZALO VECINA - Esse processo sofreu muitas idas e vindas, por causa das denúncias. Eu participei dos passos mais importantes do registro desse remédio. Um monte de coisa que aconteceu foi me deixando tranqüilo. O Ioanel Sinescu (urologista romeno, principal autor do estudo original sobre a bioequivalência do Sigmasporin) fez uma carta atestando a veracidade do estudo dele, a matéria-prima importada da Itália é registrada na FDA (Food and Drug Administracion, a Vigilância Sanitária dos Estados Unidos), o remédio passou num segundo teste de bioequivalência, feito no Brasil.

CORREIO - E a falsificação do estudo entregue à Vigilância?

VECINA - O estudo foi bem conduzido, tecnicamente correto. Entrei em contato com a embaixada brasileira na Romênia e pedi para eles falarem com o Sinescu. Ele disse que fez o estudo, mas que não tinha autorizado a publicação. A universidade italiana (Universidade de Milão, onde parte dos testes do remédio foi feita) esclareceu o assunto. Disse que ele não tinha que autorizar nada, porque o estudo fora encomendado.

CORREIO - O problema é que o estudo não era conclusivo. Sinescu disse que os dados eram preliminares...

VECINA - Eu não tenho tantos detalhes. Mas posso dizer que o estudo feito na Romênia era correto. Não tem malandragem. Olha, nesse caso houve muita pressão para o registro. Mas só concedemos quando tínhamos certeza do que havia lá dentro.

CORREIO - Então o governo sofreu muita pressão?

VECINA - Muita, muita. É um mercado potencial de milhões de reais. Eu acho que a pressão dos laboratórios é legítima. O que não é correto é a não resistência à pressão por parte do poder público. Mas isso não existe.

CORREIO - Quem pressionou?

VECINA - As associações de doentes renais crônicos, num determinado momento. Carlos Oliani, um sócio italiano da EMS, deu muito trabalho. Dia sim, dia não, ele estava na agência, perguntando porque o registro (do Sigmasporin) não saía. Nos acusava de proteger uma multinacional (a Novartis, produtora do Sandimmun Neoral, então monopolista do mercado).

Sigma garante que teste não é falso

O médico italiano Carlos Oliani, do departamento Médico Científico do laboratório nacional EMS Sigma Pharma, com sede em Hortolândia (SP), garante que os testes de bioequivalência apresentados pela empresa em 1999 para registro da ciclosporina como genérico são legítimos. Para o médico, não há importância nas diferenças entre o documento original, publicado na revista científica European Review Medical and Pharmacological Sciences, e a cópia enviada para a Anvisa. O médico, porém, não dá explicações sobre os motivos das alterações. Para ele, interessa apenas a certeza de que o Sigmasporin é uma ciclosporina.
Segundo Oliani, os testes de bioequivalência foram feitos dois anos antes da data do pedido. Parte na Itália e outra, na Romênia. O estudo só foi publicado na revista européia na edição de janeiro e fevereiro de 1999.

Os testes, afirma Oliani, comprovam que o Sigmasporim - ciclosporina da EMS Sigma Pharma - é bioequivalente ao remédio de referência da Novartis. O estudo foi realizado com 18 pacientes e seguiu as normas internacionais. O médico - que é um dos autores do estudo de bioequivalência -, no entanto, dá pouca importância aos cuidados do Ministério da Saúde para conceder o registro de medicamento genérico. ''Similar e genérico é tudo a mesma coisa, o que muda é só a embalagem'', diz ele. ''Brasileiro tem uma mentalidade muito autodestrutiva. Empurram qualquer porcaria e vocês aceitam, só porque vem de fora'', completa.

O que se disse

''Ainda tenho minhas dúvidas sobre a qualidade da ciclosporina da Sigma Pharma. No meu estado, a rede estadual está usando. Estou tendo de receitar de olhos fechados''
Luciane Deboni
Nefrologista do Hospital Regional Hans Dieter Scmidt, em Santa Catarina, um dos primeiros a utilizar a ciclosporina da EMS Sigma Pharma

''Isso é caso de polícia. Por que a Anvisa não denunciou o laboratório que tentou falsificar documento? A Polícia Federal precisa ser acionada para investigar esses casos na Anvisa. Isso coloca em jogo a política de medicamentos genéricos''
Antônio Barbosa
Presidente do Conselho Regional de Farmácia do Distrito Federal

''Se a qualidade do produto da Sigma não compromete, a idoneidade pode ser colocada em questão. É uma guerra desleal, principalmente, para o paciente - o mais interessado na questão''
Marcelo Almeida
chefe da Nefrologia do Hospital de Base do Distrito Federal

''A Novartis já emitiu um comunicado oficial sobre o assunto. Depois que saiu o registro como genérico da ciclosporina da EMS Sigma Pharma, essa questão foi resolvida. Nós confiamos no processo de registro da Anvisa''
Branderley Cláudio
Diretor de Relações Externas e Comunicação do laboratório suíço Novartis

 
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