Genéricos na Imprensa
Notícias
Briga
de laboratórios poderá parar na Justiça
Fonte:
Correio Braziliense - 18/12/2001
Política/ GUERRA DOS REMÉDIOS
Rodrigo Caetano e Ugo Braga
Da equipe do Correio
O laboratório Novartis pretende interpelar judicialmente
o médico italiano Carlo Oliani, sócio do laboratório
nacional EMS Sigma Pharma. Em entrevista ao Correio publicada ontem,
Oliani acusou a Novartis de divulgar documentos falsificados para
impedir a concorrência no mercado da ciclosporina, droga utilizada
por pacientes transplantados, avaliado em R$ 100 milhões
por ano. A diretoria da Novartis reagiu.''Se a nossa empresa está
sendo acusada de fazer algo ilegal, a Sigma Pharma vai ter de provar.
Se não, vamos tomar as medidas legais que julgarmos necessárias.'',
afirma o diretor jurídico da Novartis, Nelson Mussolini.
O diretor jurídico diz que a Novartis desconhece a forma
com que os registros das ciclosporinas genéricas foram concedidos
no país. ''Não conheço aquele documento (um
dos testes de bioequivalência - que assegura que a droga age
exatamente igual ao medicamento de referência - apresentados
pela EMS Sigma Pharma). Não temos acesso aos ofícios
de outros laboratórios apresentados para registro''.
Mussolini sai em defesa dos critérios de análise
adotados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) na concessão da licença de medicamento genérico.''Embora
a ciclosporina seja um medicamento importante, não é
mais o carro-chefe da Novartis'', alega o diretor do laboratório
suíço. Para ele, toda a confusão é fruto
da concorrência acirrada entre as empresas.
A disputa pelo mercado da ciclosporina se acirrou em 1997, quando
a Novartis - que reinava absoluta entre os renais crônicos
com o medicamento Sandimmun Neoral - perdeu o monopólio.
O então similar Sigmasporim, fabricado pela EMS Sigma Pharma,
entrou no páreo. Por lei, o medicamento similar não
precisa ter testes que comprovem a mesma ação do remédio
referência. A EMS Sigma Pharma assegurava que o medicamento
deles tinha o mesmo efeito do referência da Novartis. Nessa
busca pelo registro como genérico, a empresa apresentou seus
testes à Anvisa.
Nessa época, chegaram à Anvisa denúncias de
adulteração dos documentos originais da EMS Sigma
Pharma para obtenção de registro como genérico.
Oliani garante que a denúncia é mentirosa, que versão
apresentada à Anvisa pela empresa de um dos testes de bioequivalência,
publicado na edição de janeiro/fevereiro de 1999 da
revista European Review for Medical and Pharmacological Sciences,
é a verdadeira.
O documento arquivado na Anvisa difere do que foi publicado em
vários detalhes. O mais grave deles é a troca do termo
''Discussion'' (discussão) para ''Conclusions'' (Conclusões)
como título da última parte do estudo. Essa troca
leva a se interpretar que uma premissa científica que ainda
estava sendo colocada para discussão era, na verdade, conclusiva.
O Correio verificou junto à Anvisa que é a versão
adulterada a que foi apresentada no processo.
Entrevista / Carlos Sanchez
Não houve adulteração, insiste Sigma
''Se o estudo fosse falso, tinham mandado me prender''
O presidente da EMS Sigma Pharma, Carlos Sanchez, concedeu entrevista
ao Correio. Negou ter falsificado documentos para acelerar o registro
de genérico do Sigmasporin, usado para diminuir o risco de
rejeição a transplantes renais. Disse que o episódio
foi criado por sua concorrente, a suíça Novartis.
CORREIO BRAZILIENSE - A EMS Sigma Pharma adulterou algum documento
para fazer o registro de genérico do Sigmasporin?
CARLOS SANCHEZ - Não, não adulterou nenhum documento.
CORREIO - Por que o estudo entregue à Agência Nacional
de Vigilância Sanitária é diferente do original?
SANCHEZ - A revista é uma parte do estudo que foi entregue
à Vigilância Sanitária. Quando você entrega
os documentos na Vigilância Sanitária, entrega o dossiê
completo. Qualquer estudo de bioequivalência pode ser publicado
numa revista, foi isso que foi feito. E assinado por todos os autores.
CORREIO - Por que um dos autores some na cópia entregue
à Vigilância?
SANCHEZ - Quem some?
CORREIO - Diego Foschi.
SANCHEZ - (Pausa) Preciso ver o documento. Não sumiu nada,
não.
CORREIO - Sumiu. Está no documento que foi publicado no
Correio de domingo...
SANCHEZ - Você não tem como conversar esse assunto
técnico com o Carlo (Oliani, co-autor do estudo, do Departamento
Médico da Sigma Pharma), não?
CORREIO - É que a matéria foi sobre isso, entendeu?
SANCHEZ - Deixa eu concluir minha linha de raciocínio. O
que aconteceu foi: a gente fez o pedido de registro como genérico,
apareceu uma carta da Novartis (laboratório suíço
que disputa o mercado nacional de ciclosporina com a EMS Sigma Pharma)
dizendo que o estudo era falso, a Vigilância Sanitária
esclareceu com o embaixador brasileiro na Romênia. Apesar
de ter esclarecido, solicitou outro estudo de bioequivalência
no Brasil. O estudo foi feito, aprovado, só depois foi dado
o registro de bioequivalência.
CORREIO - A dúvida é: se o estudo é tão
conclusivo quanto o senhor diz, por que a Vigilância pediu
novo teste?
SANCHEZ - Porque existia uma briga da EMS contra a Novartis, está
certo? E ela (a Novartis) estava circulando um documento na classe
médica, segundo o qual o pedido de registro do Sigmasporin
continha um estudo falsificado. Acredito que o Vecina quis se resguardar.
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