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20/06
Alta do dólar faz cinco laboratórios pedirem reajustes entre 7% e 12%
20/06
Sob pressão, OMC discute quebra de patente





Alta do dólar faz cinco laboratórios pedirem reajustes entre 7% e 12%
Fonte: O Globo - 20/06/2001

Martha Beck

BRASÍLIA. A alta constante nas cotações do dólar fez com que cinco laboratórios entrassem com pedidos de reajuste extraordinário para 2001 na Câmara de Medicamentos do governo. Apesar de os preços de remédios estarem congelados no país até o fim do ano, as empresas Novartis, Eli Lilly, Roche, Aventis e Biosintética querem fazer aumentos que variam de 7% a 12% em grande parte de seus produtos. O motivo seria a valorização de 27,18% do dólar acumulada desde o começo do ano, o que tem reflexo no custo das matérias-primas importadas. A câmara já está analisando os pedidos de reajuste, caso a caso.
O presidente da Biosintética, Omilton Visconde, explicou ontem que 90% das matérias-primas utilizadas nos medicamentos fabricados no Brasil são importadas, sendo que o câmbio é responsável por cerca de 40% dos custos dos remédios. A Biosintética, que também importa medicamentos genéricos, quer reajustar em 7% os preços de mais de 50 produtos.
Visconde explicou que a indústria farmacêutica fez suas contas de reajuste para 2001 considerando que a taxa de câmbio chegaria em dezembro a R$ 2,10. No entanto, em março, o dólar já chegava a R$ 2,20.
- Temos que rever todos os nossos cálculos para 2001. Não se trata de repor perdas na margem de lucro, mas de equilibrar os preços com a variação do câmbio e manter a fabricação dos produtos. Além disso, nos casos em que temos que importar, a situação poderá ficará inviável - disse Visconde.
Segundo um dos representantes da Câmara de Medicamentos, no entanto, os laboratórios têm uma margem de lucro que pode ser bastante reduzida. Ele também destacou que o câmbio não é fator determinante em todos os casos.
- Existem casos em que o efeito do câmbio é marginal. Mas sabemos que empresas estão perdendo porque o mercado está em crise e por isso vamos analisar a situação dos preços de cada medicamento - afirmou.
O laboratório Eli Lilly não quis se pronunciar sobre o pedido de reajuste. O Aventis admitiu que solicitou o aumento à Câmara de Medicamentos, mas não informou para quantos produtos. Representantes dos laboratórios Novartis e Roche não foram encontrados para comentar os pedidos.
O reajuste médio autorizado pelo governo para medicamentos para este ano foi de 4,4%, podendo chegar a, no máximo, 5,94% e já foi repassado aos preços dos produtos na virada de janeiro para fevereiro. No entanto, os laboratórios estão autorizados a pedir aumentos extraordinários caso os preços fiquem defasados demais.



Sob pressão, OMC discute quebra de patente
Fonte: Gazeta Mercantil - 20/06/2001

Assis Moreira de Genebra

Sob a pressão de boa parte da opinião pública internacional, a Organização Mundial de Comércio (OMC) realiza hoje uma sessão extraordinária sobre patentes e saúde pública, num acontecimento sem precedentes desde sua criação em 1995. Visto como um modelo entre as nações em desenvolvimento pela produção de genéricos para combater a Aids, o Brasil coordena um grupo de 52 países que defenderá a flexibilidade para quebrar patentes e produzir localmente para garantir acesso a remédios mais baratos.
Cerca de 120 organizações não-governamentais (Ongs) apoiaram ontem esta posição, em comunicado lançado em Genebra. 'A OMC deve agir agora', conclamam as entidades, lembrando que 11 milhões de pessoas morrem cada ano por causa de doenças infecciosas que poderiam ser evitadas. Só a epidemia de Aids ataca milhões de vidas e em alguns países afetou um quarto da população.
Pedem para os países membros da OMC adotarem uma interpretação 'pró-saúde pública' do Acordo de Propriedade Intelectual relacionada ao Comércio (conhecido pela sigla inglesa Trips), para os governos poderem usar plenamente as salvaguardas e exceções existentes, como o direito de quebrar patente (dar licença compulsória) para produção local, importação e exportação, e fazer importação paralela para baixar os preços.
A Federação Internacional da Indústria de Medicamentos (FIIM), por sua vez, advertiu contra qualquer tentativa de enfraquecer as regras do Trips, alegando que isto afetaria seriamente a pesquisa e desenvolvimento. Insistiu que o problema para o acesso a remédios não é a existência de patentes e sim a falta de recursos na maior parte dos países.
A disputa entre o Brasil e o EUA entra como exemplo no debate. Para Harvey Bale, diretor da FIIM, porém, a estratégia do Brasil é cara e subsidia a indústria de genéricos com dinheiro que poderia ser usado para comprar antiretrovirais mais baratos de multinacionais. O que o Brasil faz não tem nada a ver com acesso a remédio 'e sim com protecionismo industrial', diz ele. Assim, o Brasil não podia alegar a necessidade de quebrar patente como parte da política de saúde pública porque na verdade o que estaria fazendo é política industrial.
Oxfam contesta e diz que o sucesso do programa brasileiro contra Aids se baseia na capacidade de produzir genéricos localmente. 'Políticas como a do Brasil ou preços para antiretrovirais oferecidos por laboratórios indianos não serão mais possíveis porque os novos remédios vão ser protegidos por exigências mais estritas de Trips', diz Medicos Sem Fronteiras (MSF).
Antes do acordo de Trips em 1994, os países tinham opção de excluir patentes para alguns setores em suas leis nacionais. Segundo Oxfam, até hoje 50 nações (até Portugal e Espanha recentemente) não dão patentes para remédios. Com a implementação de Trips, a situação mudou. O acordo dá instrumentos para os países conterem o monopólio dos detentores de patentes. Os dois principais são a licença compulsória e importação paralela. Ocorre que a linguagem do Trips, para ser aprovado na Rodada Uruguai, é tão alambicada que cada lado tem sua própria interpretação de onde vai a fronteira permitida.
Além disso, segundo as ONGs, as pressões são enormes quando países em desenvolvimento tentam fazer uso das salvaguardas de Trips. Reclamam que, no geral, Trips exacerbou conflitos entre interesses privados e saúde pública.
Por isso, pedem para os membros da OMC 'reforçarem as salvaguardas e adotarem intepretação pro-saúde pública', 'removam condições restritivas de licença compulsória' e coloque em vigor imediatamente 'moratória para evitar ações na OMC contra países em desenvolvimento que afetem sua capacidade de promover acesso a remédios e proteger a saúde pública'.
'A preocupação pública está aumentando com a introdução de um sistema estrito de patentes nos países em desenvolvimento, exigido por Trips, que causa a elevação do preço dos remédios, freqüentemente a níveis exorbitantes', dizem Ongs como Oxfam, MSF e Third World Network.
A FIIM retruca que o acordo ajuda inclusive a garantir melhor qualidade e dá como exemplo o Brasil: uma pesquisa de 1987 em duas cidades do País teria mostrado que 75% de remédios tomados estavam na lista das Nações Unidas de produtos banidos ou retirados. Para a FIIM, a indústria farmacêutica é a que mais necessita de proteção de propriedade intelectual para justificar US$ 50 bilhões por ano em pesquisa e desenvolvimento, tanto mais que por causa dos riscos freqüentemente não teria sequer acesso a financiamentos. 'É graças à proteção de patentes que mais de 100 novos remédios e vacinas contra Aids e mais de 130 para outras doenças infecciosas estão sendo pesquisados', disse.
Segundo Ellen t'Hoen, de Médicos Sem Fronteiras, de 1933 novos produtos descobertos entre 1975, quando as normas de patentes se tornaram comuns no mundo industrializado, e 1999, apenas 13 foram para combater doenças tropicais. Cerca de 80% do mercado de medicamentos fica no Norte rico. 'Os remédios estão no Norte e as necessidades no Sul', diz.
Bale admite a situação, mas diz que isto não se resolve com o enfraquecimento das regras de Trips. 'Seria ruim inclusive para países em desenvolvimento que começam a ter inovação no setor, como Brasil, Argentina, India, China e Egito'. Este grupo responde por 65% da produção de remédios nos países em desenvolvimento. O Sul, com 75% da população mundial, produz menos de 10% dos remédios globais e pesa menos de um quarto dos gastos.
O representante dos laboratórios lembra que os preços de muitos remédios já caíram para países mais pobres e um fundo global de saúde de quase US$ 10 bilhões será criado em breve. Falta o compromisso dos governos de 'respeitar patente'. Para Cecilia Roh, de Third World Network, 'o grande temor dos laboratórios são as questões que os consumidores na Europa e nos EUA começam a fazer sobre os preços altos'.
As Ongs deixaram claro que a sessão especial de hoje na OMC é apenas o começo de uma longa luta. Vão fazer um movimento global em setembro, na próxima reunião do Conselho de Trips. Reconhecem que os grandes laboratórios começam a buscar o diálogo e estão mais preocupadas com o estrago de suas reputações na percepção pública. Segundo representantes da Oxfam, alguns bancos de investimentos refletem a nova sensibilidade, e querem agora saber dos executivos das grandes indústrias farmacêuticas sobre seus planos para responder à questões de saúde pública.
Existe um sentimento de que a indústria farmacêutica global, que fatura mais de US$ 350 bilhões por ano, nunca mais será a mesma. Ongs e laboratórios esperam, ou temem, que a reunião na OMC poderá ter sérias implicações 'de uma maneira ou de outra', como destacavam negociadores.

 
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