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25/04
Remédios e direitos fundamentais
25/04
Polêmica revela custo real dos remédios
25/04
Genéricos vencem remédios de marca
25/04
Farmácias abrem canal na web







Remédios e direitos fundamentais
DECLARAÇÃO DE QUEBEC E RESOLUÇÃO DE GENEBRA ATROPELAM O ULTRALIBERALISMO
ROLF KUNTZ
Fonte: O Estado de S.Paulo - 25/04/2001

A devastação social causada pela aids começa a abrir uma brecha nas políticas ultraliberais. Em menos de uma semana, o acesso a medicamentos foi duas vezes proclamado como um direito básico. A primeira proclamação ocorreu em Quebec, no Canadá, onde se encerrou, no domingo, a 3.ª Cúpula das Américas. Na declaração final, assinada por 34 chefes de governo, foi afirmado o direito igual de todos os homens à assistência de saúde e a medicamentos a preços acessíveis. No mesmo texto, mas num parágrafo distante, a aids foi qualificada como ameaça à segurança dos povos. Na Declaração de Quebec, assim como no Plano de Ação a ela anexado, as duas questões são tratadas separadamente. Isso confere amplitude à afirmação sobre o uso de remédios. Nesta segunda-feira, em Genebra, a Comissão de Direitos Humanos da ONU aprovou resolução, proposta pelo Brasil, pela qual o acesso a medicamentos passa a ser considerado um direito fundamental. Houve 52 votos a favor e uma abstinência, dos Estados Unidos.
Essa abstinência, em nome da maior potência econômica do mundo, realça a importância da resolução. A atitude americana confirma que está em jogo algo muito mais sério que uma exibição de bons sentimentos. Quando surge um conflito entre o direito à saúde e o direito de propriedade intelectual, isto é, de controle de patentes e processos, as simpatias têm-se voltado, cada vez mais claramente, para o lado dos enfermos.

No momento, há um conflito, na Organização Mundial do Comércio, entre Brasil e Estados Unidos, por causa da lei brasileira de patentes. Segundo os americanos, a lei brasileira não protege as patentes em grau suficiente e é incompatível com os acordos internacionais. O governo sustenta o contrário.
Afirma que, ao facilitar a liberação de patentes, em casos especiais, a legislação do Brasil se ajusta, com perfeição, aos padrões da OMC.
Há dúvidas suficientes sobre o assunto para que a decisão do caso seja técnica em sentido estrito. A resolução de Genebra pode ser um dado relevante para a avaliação das posições. Além disso, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, já se havia manifestado sobre o tema. Na reunião do Fórum Econômico Mundial do início do ano, em Davos, ele defendeu prioridade para o direito à saúde, quando as normas de patentes forem obstáculo ao tratamento dos doentes.
No Canadá, no domingo, o ultraliberal George W. Bush foi um dos chefes de governo que assinaram a Declaração de Quebec, um documento com 34 parágrafos sobre democracia, governança, direitos e comércio. É no mínimo curioso que ele tenha tomado essa atitude, em relação à política hemisférica, enquanto seus diplomatas se recusavam a apoiar a resolução de Genebra. Mas o fato é que a sua assinatura está no papel, juntamente com a do presidente Fernando Henrique Cardoso e as de 32 outros chefes de governo.

Na Declaração de Quebec, assim como na de Genebra, o direito de acesso a medicamentos não é vinculada, explicitamente, ao problema da aids.
Mas há um vínculo histórico entre as duas questões. O argumento mais poderoso a favor da liberação de patentes tem sido a destruição ocasionada pela aids. O assunto não é mais um problema de saúde pública, mas de segurança. Essa dimensão ficou nítida principalmente na África, onde populações vêm sendo arrasadas.

Resultados obtidos no Brasil no controle da aids e na redução da mortalidade pesaram, também, na evolução do debate. Os efeitos da política brasileira têm sido apontados, em foros internacionais, como exemplos do que se pode realizar no combate à doença. A política indiana de produção de genéricos vem sendo utilizada, igualmente, como argumento a favor de um novo tratamento da questão das patentes.
Seria ingenuidade imaginar que baste suspender as patentes, em certas circunstâncias, para resolver os grandes problemas de acesso a medicamentos.
Mesmo a hipótese de acordos entre governos e laboratórios, para cobrança de preços acessíveis à maior parte da população, tem efeitos muito limitados.
Subsidiar o consumo de remédios pode funcionar, até certo ponto. Mas isso deixa intacto o problema dos preços e apenas transfere o peso para o Tesouro, e, portanto, para os contribuintes. De algum modo, no entanto, é preciso enfrentar o problema dos enormes custos da pesquisa. Não se pode esperar que a empresa privada sustente os investimentos necessários, muito altos e arriscados, sem a expectativa de retorno quando há uma descoberta.
Soluções voluntaristas e baseadas apenas em bons sentimentos são em geral contraproducentes. É preciso buscar arranjos mais complexos, que articulem os vários interesses.
Fundamental, por enquanto, é o reconhecimento de um direito que impõe obrigações ao setor público, talvez em escala internacional, e de um problema, portanto, que não se resolve apenas pelo mercado. Isso é a negação do ultraliberalismo e, naturalmente, das bandeiras do chamado conservadorismo compassivo, agitadas por George W. Bush em sua campanha pela presidência americana.





Polêmica revela custo real dos remédios
Relatórios de farmacêuticas mostram que publicidade pesa mais que pesquisas no gasto das empresas
MELODY PETERSEN do "THE NEW YORK TIMES"
Fonte: Folha de S.Paulo - 25/04/2001

Uma dezena de pequenos laboratórios estrangeiros, trabalhando na sombra para fazer versões genéricas de remédios patenteados, está mostrando ao mundo como o custo de produção desses medicamentos é baixo.
Esses laboratórios de Índia, China e Coréia do Sul produzem tanto os ingredientes ativos para a fabricação de medicamentos contra a Aids como o produto final.
Os genéricos são vendidos por uma fração do preço dos remédios de marca a países como Brasil, Índia e Argentina, que estão ignorando as patentes das quais as grandes farmacêuticas dependem para manter o monopólio e determinar os preços no mercado internacional.
A GlaxoSmithKline, por exemplo, a maior fabricante do mundo de medicamentos contra a Aids, vende Combivir por cerca de US$ 7.000 por paciente ao ano nos EUA. Os ingredientes ativos para o remédio custam US$ 240 no mercado internacional de genéricos, e a Cipla, uma empresa da Índia, está oferecendo uma versão do Combivir por US$ 275.
Os pequenos laboratórios vêm, há vários anos, produzindo em silêncio genéricos para o tratamento de câncer, colesterol alto e outras doenças. Mas, com o acirramento da crise da Aids na África, alguns deles alardearam suas atividades ao oferecer remédios mais baratos contra a doença.
Na tentativa de defender o monopólio, as grandes farmacêuticas ofereceram descontos aos países em desenvolvimento, mas os preços continuaram altos em comparação aos genéricos.
A Bristol-Myers Squibb vende o Zerit nos EUA por US$ 3.400 por paciente ao ano. No mês passado, a empresa anunciou que venderia o remédio na África por US$ 55 por paciente ao ano, um preço, segundo ela, inferior ao custo. Mas a Cipla está oferecendo o mesmo medicamento por US$ 40.
As grandes farmacêuticas relutam em discutir seus gastos. Mas, em entrevistas, elas dizem que precisam cobrar mais por causa das pesquisas. A GlaxoSmithKline investiu US$ 4 bilhões em pesquisas no ano passado e, desde 1995, lançou cinco remédios contra a Aids.
As pesquisas representam, no entanto, apenas uma parte dos gastos das empresas. Num recente relatório para investidores, a GlaxoSmithKline disse ter gasto 37% de sua receita em marketing e administração e apenas 14% em pesquisa. O lucro foi de 29%.
A Bristol-Myers Squibb gastou no ano passado 30% de sua receita em publicidade, marketing e administração e 10% em pesquisa. O lucro foi de 26%.
As empresas acusam os pequenos laboratórios de copiarem ilegalmente remédios que consumiram vários anos e milhões de dólares para serem criados.
Segundo a Associação da Indústria Farmacêutica dos EUA, o desenvolvimento de um novo remédio custa cerca US$ 500 milhões. Mas os defensores dos pacientes contestam esse valor, dizendo que há medicamentos contra a Aids que foram desenvolvidos com ajuda do governo norte-americano.
A indústria diz, no entanto, que paga royalties a outras empresas e a várias universidades que ajudaram na pesquisa. Há, também, despesas administrativas como o salário dos executivos, custos legais e gastos com publicidade e lobby.
Analistas de Wall Street afirmam que os genéricos contra a Aids não terão impacto imediato no desemprenho das empresas, que ganham muito pouco nos países pobres, onde não há dinheiro para medicamentos. Segundo eles, mais de 90% dos US$ 3,8 bilhões obtidos com a venda de remédios contra a Aids no ano passado vieram de apenas cinco países: EUA, França, Itália, Alemanha e Reino Unido.
Além disso os remédios contra a Aids representam uma fração das vendas. Apenas 6% da receita da GlaxoSmithKline, a maior fabricante de remédios anti-HIV, vêm desses medicamentos.
A grande ameaça para a indústria é a possibilidade de os pequenos laboratório começarem a vender genéricos de outros medicamentos. Se o mercado para genéricos crescer, os laboratórios estrangeiros não hesitarão em expandir seus negócios.
"Patentes são para recompensar o inventor e não para lhe dar o monopólio", disse Luciano Calenti, da canadense ACIC Pharmaceuticals, que vende ao Brasil ingredientes ativos para a produção de remédios contra a Aids.
O Brasil deu um grande impulso à ACIC e a outros laboratórios estrangeiros quando começou a comprar ingredientes ativos, em 1998, para a produção de genéricos contra a Aids.
"As compras brasileiras têm sido tão grandes que derrubaram os preços no mercado global", disse James Love, diretor do Consumer Project on Technology, uma ONG de Washington que monitora os preços no mercado internacional.



Genéricos vencem remédios de marca
AIDS Pequenos fabricantes do Brasil e Índia conseguem fabricar a custo inferior ao das gigantes farmacêuticas
Melody Petersen, The New York Times
Fonte: Valor Econômico - 25/04/2001


Uma dúzia de fabricantes estrangeiros de fármacos, talvez, trabalhando em surdina para fazer versões copiadas de remédios patenteados contra aids, estão lançando uma nova luz sobre o quanto é barata a sua fabricação.
Esses fabricantes vendem seus produtos a países como Brasil, Índia e Argentina, que têm ignorado as patentes de que as maiores fabricantes mundiais dependem para um monopólio e para sua enorme liberdade na fixação de preços. As pequenas empresas devem elevar ainda mais as suas vendas em países em desenvolvimento de todo o mundo depois que 39 grandes fabricantes de drogas se curvaram às pressões públicas, na semana passada, e desistiram da iniciativa legal para impedir a África do Sul de importar remédios mais baratos.
No mercado negro de remédios para aids, pequenas fábricas da Índia, Coréia do Sul e China usam a internet, aparelhos de fax e telefones para encontrar clientes. Eles ou produzem os ingredientes ativos de drogas para aids, ou embalam os ingredientes nos próprios medicamentos completos e vendem remédios salvadores, como Combivir e Zerit, por uma fração do preço do remédio de marca.
Enquanto a GlaxoSmithKline, maior fabricante mundial de drogas contra aids, vende Combivir por cerca de US$ 7.000 por pessoa/ano nos EUA, os ingredientes ativos da droga podem ser adquiridos por cerca de US$ 240 no mercado internacional de genéricos. A Cipla, uma fabricante de Bombaim, Índia, diz que está oferecendo uma versão genérica completa de Combivir por apenas US$ 275.
Os pequenos fabricantes estrangeiros vinham produzindo há anos, discretamente, imitações de remédios para o tratamento de câncer, colesterol alto e outras doenças, mas quando a crise da aids se intensificou na África, alguns alardearam sua presença anunciando ao mundo seus preços arrasadores para remédios contra aids. A Cipla se comprometeu publicamente a vender um coquetel de três drogas para organizações de assistência à saúde que atuam na África por apenas US$ 350 por pessoa/ano.
As companhias de remédios de marca reagiram cortando preços na África e noutros países pobres, mas muitos desses preços com descontos ainda são maiores do que o preço vigente no mercado negro de genéricos.
A Bristol-Myers Squibb, outra grande fabricante de remédios de marca para aids, produz a droga stavudine contra a doença, que vende sob a marca Zerit, nos EUA, por cerca de US$ 3.400 a dose/ano.
Em março, a Bristol-Myers anunciou que pretendia reduzir o preço de Zerit na África para US$ 55, abaixo do preço de custo, segundo ela. Mas qualquer um pode comprar os ingredientes ativos para esses compridos num mercado negro por cerca de US$ 23. E a Cipla está oferecendo um suprimento anual do stavudine genérico completo para organizações sanitárias por US$ 40/ano.
A GlaxoSmithKline se dispôs a cortar o preço de Combivir na África para US$ 730 por pessoa/ano - cerca de um décimo de seu preço nos EUA e o preço que, segundo diz, é igual ao preço de fabricação. Mas US$ 730 é quase três vezes a oferta da Cipla.
As grandes companhias farmacêuticas relutam em discutir seus preços ou os custos de seus medicamentos. Em entrevistas, porém, elas dizem que precisam cobrar mais que as fabricantes estrangeiras de genéricos porque têm muitos custos que as fabricantes de similares não têm, inclusive o de descobrir e desenvolver novos remédios.
A GlaxoSmithKline, por exemplo, gastou US$ 4 bilhões em pesquisas no ano passado, e de 1995 para cá introduziu cinco remédios para pessoas portadoras do HIV. " Não podemos acompanhar uma empresa de genéricos no preço, " disse Gunther Faber, diretor de operações da empresa na África.
Apesar de todas companhias de remédios de marca gastarem pesadamente em pesquisa, seus relatórios financeiros mostram que muitas gastam muito mais para vender e anunciar seus produtos e mesmo assim ainda lhes sobram lucros suficientes para constituírem um dos setores mais lucrativos nos EUA. A GlaxoSmithKline informou em relatório recente a investidores que gastou 37,2% da receita em marketing e custos administrativos, em 2000, enquanto gastou pouco mais de um terço disso (13,9%) em pesquisa. Depois de custos com fabricação, matérias-primas e outros, a companhia ainda registrou um retorno de 27,8% sobre o faturamento.
A Bristol-Myers Squibb, segundo dados da própria companhia, gastou 30,4% de sua receita no ano passado em publicidade, marketing e administração, e apenas 10,6% em pesquisa. Depois de outros custos, teve um lucro líquido de 25,9 sobre o faturamento. " O preço que as companhias de marca cobram não tem nada a ver com o custo de fabricação do produto, " diz Luciano Calenti, diretor executivo da ACIC Pharmaceuticals, uma das fabricantes estrangeiras de remédios genéricos para aids.
A ACIC, sediada em Brantford, Ontário, é típica das companhias que se dizem capazes de produzir remédios para aids e vendê-los por muito menos que as de marca. Vem fabricando o AZT e três outros medicamentos há mais de uma década, produzindo-os em grandes lotes e vendendo para o Brasil, Argentina, Peru e México. A ACIC vende os produtos a granel e não fabrica os comprimidos prontos.



Farmácias abrem canal na web
Fábio Lucas de Recife
Fonte: Gazeta Mercantil - 25/04/2001


A Clickfarma, rede pernambucana de farmácia, lançou, em outubro, o site de comércio eletrônico que, segundo o diretor da empresa, Amadeu Alfaia, já tem 550 clientes fixos. A clientela faz uso dos serviços de 21 lojas, que fazem entregas em Recife e Paulista.
Nove delas ainda estão na fase de ajustes - processo que leva de 30 a 50 dias. Como cada loja tem seu sistema de automação próprio, é necessário adequá-lo.
Segundo Alfaia, a construção do site custou R$ 260 mil. Ele diz que o investimento foi alto devido à complexidade do sistema, que reúne os bancos de dados de todas as farmácias e permite rápido acesso às informações.
O site informa o preço do item requisitado, assim como do genérico, se houver. A venda é feita por áreas, para evitar a concorrência entre os associados.
Pagamento - Cada farmácia escolhe prazos e taxas de entrega e as formas de pagamento. Pode ser com cartão de crédito, mas por meio de máquina manual levada pelo entregador, para que os usuários que ainda não têm experiência com internet não deixem de fazer a compra com receio de enviar seus dados. O cliente programa dia e hora para recebimento de mercadorias.
No cadastro do cliente constam apenas nome, e-mail, endereço e telefone. 'A transação não é complexa. Além de a resposta para o consumidor ser mais rápida, isso permite o crescimento do negócio em qualquer escala', diz o empresário.
Para atrair mais lojistas ao site, a estratégia é fazer contratos provisórios, de um a dois anos, e cobrar do associado apenas uma taxa de manutenção. 'A vantagem para uma farmácia da rede é a ampliação do canal de venda e o ingresso na internet sem site próprio', afirma Alfaia.
A franqueada Vilma Viana diz que recebe, em média, seis pedidos por dia pela internet. 'Quem compra uma vez, volta', diz.

 
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