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25/09
Laboratórios do exterior associam-se a brasileiros





Laboratórios do exterior associam-se a brasileiros
Fonte:
Gazeta Mercantil - 10/09/2001


(Christiane Bueno Malta)

São Paulo No dia 12 de novembro, o Laboratório Federal de Pernambuco (Lafepe) vai inaugurar uma ala em sua unidade fabril destinada à produção de remédios líquidos orais, principalmente antibióticos e anti-hipertensivos. O Lafepe atende hoje a 400 municípios de 18 estados brasileiros, aos quais fornece 190 milhões de unidades anuais de sua linha de produtos de farmácia básica (antitérmicos, analgésicos, antibióticos, anti-hipertensivos, entre outros).

Também produz seis anti-retrovirais, dos quais cinco compõem o coquetel anti-Aids distribuído gratuitamente pelo Ministério da Saúde. Até aprontar a ala para a inauguração, o Lafepe resolverá alguns gargalos de produção, aproveitando a parceria firmada com o laboratório indiano Torrent, que lhe fornecerá medicamentos semi-acabados. Para isso, no mês passado, os dois laboratórios assinaram um contrato no valor de US$ 506 mil, acertando a compra, pelo laboratório pernambucano, dos medicamentos indianos.

O presidente do Lafepe, Tito Lívio de Barros e Souza, informa que em uma segunda fase dessa parceria o Torrent, provavelmente já com um representante no Brasil, fornecerá também os produtos essenciais, listados pelas secretarias estaduais de Saúde, hoje clientes do Lafepe.
'A maior parte dos produtos essenciais é cara porque importada. A representação do Torrent no País poderá baratear os medicamentos', diz Souza. E, na terceira etapa, se dará a esperada transferência de tecnologia do Torrent para o Lafepe.

'O laboratório indiano tem uma unidade altamente moderna, desde a matéria-prima até o produto acabado. Quanto à capacidade científica, emprega mais de cem PhDs', adianta Souza.
Parcerias entre laboratórios farmacêuticos têm sido estimuladas pelo Ministério da Saúde dentro de um planejamento para baratear o custo dos remédios, principalmente os de produção em massa.
'
Eu mesmo sugeri aos governos que saíssem à cata de gente que tenha boa tecnologia, seja para produção mais sofisticada, seja para produção em massa, que, para nós, interessa', disse o ministro José Serra, da Saúde, na semana passada, em visita a São Paulo. As conversações com o Lafepe e o Torrent começaram justamente em uma viagem do ministro à Índia, quando levou um diretor técnico do Lafepe para visitar várias indústrias do setor.

'As perspectivas de crescimento para o Lafepe são promissoras', diz Souza. Depois da nova ala de líquidos orais, começa-se a tratar da aquisição de equipamentos, por licitação pública, para a produção de medicamentos sólidos. Na seqüência, continua o presidente do laboratório, espera-se a liberação de R$ 8 milhões do governo para financiar investimentos de uma nova fábrica de sólidos, com setor exclusivo para anti-retrovirais. E, com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES), o laboratório pretende modernizar a seção de líquidos injetáveis e semi-sólidos, cujas negociações ainda estão em curso, acrescenta Souza.
Também no Sul do País esses entendimentos ocorrem.

O governo de Santa Catarina mantém conversações com o indiano na mesma linha do Laboratório Federal de Pernambuco. Quer importar medicamentos mais baratos, avançar na possibilidade de parceria para produção com insumos importados e produção local desses mesmos insumos, numa programação escalonada e nessa ordem, informa o coordenador de saúde pública da Secretaria de Saúde de Santa Catarina, Guilherme Farias Cunha.

O Banco de Desenvolvimento de Santa Catarina (Badesc) faz estudos para avaliar o custo da parceria. O governo catarinense, adianta Cunha, ainda não se definiu sobre a associação, mas prefere que seja entre um laboratório indiano e um brasileiro da iniciativa privada.

'A Associação dos Laboratórios Farmacêuticos de Santa Catarina, que representa 30 indústrias do setor, e o Laboratório Catarinense participam das discussões', diz Cunha.
O processo não se limita à Índia. O laboratório inglês GlaxoSmithKline, fusão do Glaxo Wellcome com a Smith Kline Beechm, já apresentou, em meados de agosto, proposta de parceria com o laboratório estatal Far-Manguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz, ao governo brasileiro.

'O GlaxoSmithKline teve apenas dois encontros com o governo e detalhes ainda não foram discutidos. Mas a parceria nos parece natural, uma vez que o governo tem um programa de combate à Aids e nós temos pesquisa e medicamentos na área', informa a assessoria do laboratório. O GlaxoSmithKline tem dois anti-retrovirais que poderiam ser incluídos no coquetel anti-Aids do governo. São o Amprenavir e o Abacavir, os princípios ativos das marcas Agenerase e Ziagenavir.

Serra disse que esse esforço para as parcerias não seria necessário se os laboratórios nacionais fossem mais arrojados. Segundo o ministro, 'há aqui capacidade científica e instalada para inundar o Brasil de mais produtos genéricos. Mas o fato é que o pessoal não pesquisa'. O setor privado reagiu. 'O ministro está sendo, no mínimo, injusto', disse o presidente da Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (Alanac), José Fernando Lena Magalhães. Comenta que, para pesquisar e desenvolver, é necessário haver disponibilidade de recursos. As linhas de financiamento existentes são poucas e pagas à base de Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) mais taxa de 6% ao ano, diz, 'um juro extorsivo'.

Mesmo com essas condições, continua, 'foi a indústria nacional que primeiro abraçou a idéia do governo para a produção de genéricos', lembra, acrescentando que 'a indústria nacional tem apenas as vendas de sua produção para se capitalizar e investir em pesquisa'. As vendas têm apresentado queda e os preços dos remédios estão congelados. A demanda global por medicamentos no Brasil diminuiu 4,7% em unidades no primeiro semestre, segundo dados da Alanac.

Até os anos 80 eram sete as indústrias nacionais que produziam antibióticos. Hoje, existe apenas uma, a Cibran, no Rio. Nos últimos cinco anos, as 40 maiores nacionais foram vendidas a multinacionais do setor.

'Interessa ao governo brasileiro manter ou não a indústria nacional?', pergunta Magalhães. 'A meu ver, a indústria nacional teria de ser considerada como ponto estratégico de um governo', conclui.

 
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