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Genéricos na Imprensa
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Laboratórios do
exterior associam-se a brasileiros
Fonte: Gazeta
Mercantil - 10/09/2001
(Christiane Bueno Malta)
São Paulo No dia 12 de novembro, o Laboratório Federal
de Pernambuco (Lafepe) vai inaugurar uma ala em sua unidade fabril
destinada à produção de remédios líquidos
orais, principalmente antibióticos e anti-hipertensivos.
O Lafepe atende hoje a 400 municípios de 18 estados brasileiros,
aos quais fornece 190 milhões de unidades anuais de sua linha
de produtos de farmácia básica (antitérmicos,
analgésicos, antibióticos, anti-hipertensivos, entre
outros).
Também produz seis anti-retrovirais, dos quais cinco compõem
o coquetel anti-Aids distribuído gratuitamente pelo Ministério
da Saúde. Até aprontar a ala para a inauguração,
o Lafepe resolverá alguns gargalos de produção,
aproveitando a parceria firmada com o laboratório indiano
Torrent, que lhe fornecerá medicamentos semi-acabados. Para
isso, no mês passado, os dois laboratórios assinaram
um contrato no valor de US$ 506 mil, acertando a compra, pelo laboratório
pernambucano, dos medicamentos indianos.
O presidente do Lafepe, Tito Lívio de Barros e Souza, informa
que em uma segunda fase dessa parceria o Torrent, provavelmente
já com um representante no Brasil, fornecerá também
os produtos essenciais, listados pelas secretarias estaduais de
Saúde, hoje clientes do Lafepe.
'A maior parte dos produtos essenciais é cara porque importada.
A representação do Torrent no País poderá
baratear os medicamentos', diz Souza. E, na terceira etapa, se dará
a esperada transferência de tecnologia do Torrent para o Lafepe.
'O laboratório indiano tem uma unidade altamente moderna,
desde a matéria-prima até o produto acabado. Quanto
à capacidade científica, emprega mais de cem PhDs',
adianta Souza.
Parcerias entre laboratórios farmacêuticos têm
sido estimuladas pelo Ministério da Saúde dentro de
um planejamento para baratear o custo dos remédios, principalmente
os de produção em massa.
'
Eu mesmo sugeri aos governos que saíssem à cata de
gente que tenha boa tecnologia, seja para produção
mais sofisticada, seja para produção em massa, que,
para nós, interessa', disse o ministro José Serra,
da Saúde, na semana passada, em visita a São Paulo.
As conversações com o Lafepe e o Torrent começaram
justamente em uma viagem do ministro à Índia, quando
levou um diretor técnico do Lafepe para visitar várias
indústrias do setor.
'As perspectivas de crescimento para o Lafepe são promissoras',
diz Souza. Depois da nova ala de líquidos orais, começa-se
a tratar da aquisição de equipamentos, por licitação
pública, para a produção de medicamentos sólidos.
Na seqüência, continua o presidente do laboratório,
espera-se a liberação de R$ 8 milhões do governo
para financiar investimentos de uma nova fábrica de sólidos,
com setor exclusivo para anti-retrovirais. E, com recursos do Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES), o laboratório
pretende modernizar a seção de líquidos injetáveis
e semi-sólidos, cujas negociações ainda estão
em curso, acrescenta Souza.
Também no Sul do País esses entendimentos ocorrem.
O governo de Santa Catarina mantém conversações
com o indiano na mesma linha do Laboratório Federal de Pernambuco.
Quer importar medicamentos mais baratos, avançar na possibilidade
de parceria para produção com insumos importados e
produção local desses mesmos insumos, numa programação
escalonada e nessa ordem, informa o coordenador de saúde
pública da Secretaria de Saúde de Santa Catarina,
Guilherme Farias Cunha.
O Banco de Desenvolvimento de Santa Catarina (Badesc) faz estudos
para avaliar o custo da parceria. O governo catarinense, adianta
Cunha, ainda não se definiu sobre a associação,
mas prefere que seja entre um laboratório indiano e um brasileiro
da iniciativa privada.
'A Associação dos Laboratórios Farmacêuticos
de Santa Catarina, que representa 30 indústrias do setor,
e o Laboratório Catarinense participam das discussões',
diz Cunha.
O processo não se limita à Índia. O laboratório
inglês GlaxoSmithKline, fusão do Glaxo Wellcome com
a Smith Kline Beechm, já apresentou, em meados de agosto,
proposta de parceria com o laboratório estatal Far-Manguinhos,
da Fundação Oswaldo Cruz, ao governo brasileiro.
'O GlaxoSmithKline teve apenas dois encontros com o governo e detalhes
ainda não foram discutidos. Mas a parceria nos parece natural,
uma vez que o governo tem um programa de combate à Aids e
nós temos pesquisa e medicamentos na área', informa
a assessoria do laboratório. O GlaxoSmithKline tem dois anti-retrovirais
que poderiam ser incluídos no coquetel anti-Aids do governo.
São o Amprenavir e o Abacavir, os princípios ativos
das marcas Agenerase e Ziagenavir.
Serra disse que esse esforço para as parcerias não
seria necessário se os laboratórios nacionais fossem
mais arrojados. Segundo o ministro, 'há aqui capacidade científica
e instalada para inundar o Brasil de mais produtos genéricos.
Mas o fato é que o pessoal não pesquisa'. O setor
privado reagiu. 'O ministro está sendo, no mínimo,
injusto', disse o presidente da Associação dos Laboratórios
Farmacêuticos Nacionais (Alanac), José Fernando Lena
Magalhães. Comenta que, para pesquisar e desenvolver, é
necessário haver disponibilidade de recursos. As linhas de
financiamento existentes são poucas e pagas à base
de Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) mais taxa de 6% ao ano, diz,
'um juro extorsivo'.
Mesmo com essas condições, continua, 'foi a indústria
nacional que primeiro abraçou a idéia do governo para
a produção de genéricos', lembra, acrescentando
que 'a indústria nacional tem apenas as vendas de sua produção
para se capitalizar e investir em pesquisa'. As vendas têm
apresentado queda e os preços dos remédios estão
congelados. A demanda global por medicamentos no Brasil diminuiu
4,7% em unidades no primeiro semestre, segundo dados da Alanac.
Até os anos 80 eram sete as indústrias nacionais que
produziam antibióticos. Hoje, existe apenas uma, a Cibran,
no Rio. Nos últimos cinco anos, as 40 maiores nacionais foram
vendidas a multinacionais do setor.
'Interessa ao governo brasileiro manter ou não a indústria
nacional?', pergunta Magalhães. 'A meu ver, a indústria
nacional teria de ser considerada como ponto estratégico
de um governo', conclui.
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