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Genéricos na Imprensa
Notícias

 

26/06
Brasil vence EUA em guerra na OMC
26/06
EUA recuam na guerra das patentes
26/06
Brasil e EUA anunciam acordo sobre patentes
26/06
Fechado o acordo sobre patentes
26/06
Serra diz que a vitória é do bom senso
26/06
Inimigo comum
26/06
Genérico para glaucoma





Brasil vence EUA em guerra na OMC
Fonte: Correio Braziliense - 26/06/2001

Durante conferência mundial em Nova York, o governo americano anunciou a retirada de queixa feita na Organização Mundial do Comércio contra lei brasileira que prevê quebra de patentes de medicamentos para tratamento da Aids.

Conquista brasileira na guerra contra EUA
Governo norte-americano decide retirar queixa apresentada na Organização Mundial do Comércio contra Brasil. A decisão abre caminho para que nações em desenvolvimento produzam remédios a preços mais baixos

Vicente Nunes
Correspondente

Nova York - Quatro meses depois de entrarem com um processo contra o Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) e de sentirem o repúdio da opinião pública contra a medida, os Estados Unidos voltaram atrás. Ontem, o secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, informou oficialmente ao mundo que seu país desistiu de proibir o Brasil e outras nações em desenvolvimento de fabricarem medicamentos genéricos para o tratamento da Aids. Em caso de quebra de patente, o Brasil prometeu consultar e avisar antecipadamente os EUA sempre que for necessário um pedido de licença compulsória.
Junto com a retirada do processo contra o Brasil, o governo norte-americano anunciou a disposição de ampliar suas doações ao fundo de combate à Aids. O secretário admitiu que os US$ 200 milhões prometidos há poucos dias pelo presidente George W. Bush são insignificantes perto dos US$ 9,2 bilhões que os países pobres precisam, anualmente, para controlar a doença. ''Não queremos que a história nos culpe pelo atraso. Não podemos permitir que essa praga roube o nosso futuro. Como um soldado, eu nunca vi um inimigo mais perigoso do que a Aids'', disse.
Alívio
O anúncio de Powel, feito durante à Conferência Mundial da Aids da Organização das Nações Unidas (ONU), causou alívio. Mas não poupou o governo norte-americano de críticas contundentes por defender os interesses dos grandes laboratórios farmacêuticos. ''A Nação mais rica e poderosa da história, que se pretende proclamar campeã dos direitos humanos, não vai escapar do estigma de ter votado sozinha, meses atrás, contra a resolução da Organização Mundial da Saúde que consagra o direito de todas as pessoas de terem acesso aos medicamentos contra a Aids'', afirmou o vice-presidente de Cuba, Carlos Lage Davila.
Desde 1998, com a produção de genéricos e a renegociação de contratos, o Brasil já economizou R$ 489,1 milhões. Só com o Efavirenz, cujo preço foi reduzido pela Merk-Sharp, deixaram de ser gastos R$ 54 milhões neste ano.
Modelo
A pressão do mundo contra a postura dos Estados Unidos de tentar impedir o Brasil de tocar seu vitorioso modelo de combate à Aids ficou notória desde o início da sessão de abertura da conferência da ONU. Um dos primeiros a se pronunciar, o presidente de Portugal, Jorge Sampaio, disse que o modelo de tratamento do governo brasileiro, que produz medicamentos até 60% mais baratos que os de grandes laboratórios, é a grande esperança neste momento para evitar que vários países da África, onde estão 25 milhões dos atuais 36,1 milhões de infectados no planeta, sejam dizimados pela doença. Esse discurso foi endossado pela ministra do Desenvolvimento Internacional da Noruega, Anne Kristin Sydnes, pelo primeiro-ministro de Moçambique, Pascoal Manuel Mocumbi, e pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan.
Segundo o ministro da Saúde, José Serra, apesar da vitória do Brasil na disputa com os EUA, o país não cederá aos apelos dos países africanos de exportar medicamentos genéricos para a região. O Brasil vai, ressaltou ele, ceder tecnologia aos africanos, treinar mão-de-obra e desenvolver programas pilotos, o que já ocorre nos países de língua portuguesa. ''Não queremos ser acusados de usar nossa estrutura de produção para obter lucros. Foi exatamente isso o que condenamos nos grandes laboratórios'', frisou.
Serra adiantou que o Brasil não vai contribuir financeiramente com esse fundo, mas com apoio técnico. O país também não vai pedir emprestado nenhum dinheiro a esse fundo, que, avaliação do ministro, deve atender aos países mais pobres.
2001 - ANO POLÊMICO

1º de fevereiro
Estados Unidos entram com queixa na Organização Mundial do Comércio contra lei brasileira, que prevê quebra de patentes de medicamentos em casos de emergência nacional e preços abusivos

29 de março
O laboratório norte-americano Merck Sharp & Dhome fecha acordo com o Brasil e reduz em 60% o preço de dois remédios anti-HIV. Rendeu ao país uma economia de R$ 83 milhões por ano

23 de abril
Comissão de Direitos Humanos da ONU aprova resolução brasileira que define acesso aos medicamentos como questão de direitos humanos. Foram 52 votos a favor e uma abstenção, dos EUA

3 de junho
ONU oficializa criação de Fundo Global de Combate à Aids, Malária e Tuberculose. Os países ricos passarão a financiar compra de remédios para países pobres

17 de junho
Brasil investe R$ 383 mil para publicar anúncios de meia página nos quatro principais jornais dos EUA para convencer opinião pública de que o programa brasileiro é sério

20 de junho
Brasil recebe apoio de 139 países para tornar menos rigorosas as regras de restrição à fabricação de remédios patenteados

25 de junho
Brasil vence. Estados Unidos retiram queixa contra o Brasil
Economia
Recuo estratégico
Os Estados Unidos optaram pelo recuo na briga que vinha travando com o Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) porque sabiam que sairiam perdedores. Segundo um influente diplomata brasileiro, técnicos da OMC já tinham deixado chegar à Casa Branca, em Washington, que o tribunal mundial para assuntos comerciais não ratificaria um pedido que não tem aval da opinião pública, da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Organização das Nações Unidas (ONU). ''O programa brasileiro foi a única esperança que surgiu no mundo nos últimos dois anos para o combate à Aids'', afirmou o diretor do Departamento de Aids do Ministério da Saúde, Paulo Teixeira.
Uma possível derrota na OMC, na questão dos medicamentos genéricos, significaria para os Estados Unidos a abertura de um flanco totalmente desfavorável, pois a sentença do tribunal poderia ratificar outras de suas futuras decisões. O Brasil, por exemplo, briga com os EUA por causa do excesso de subsídios que esse país dá aos produtores agrícolas - US$ 32 bilhões só no ano passado - e de barreiras impostas ao aço, ao frango, ao açúcar e ao suco de laranja brasileiros. ''Isso, sem falar em disputas comerciais que os Estados Unidos têm com outros países'', disse o diplomata. Se perdesse na questão dos medicamentos, poderia ficar sem força em todas as outras batalhas comerciais. (VC)

Entrevista / José Serra
Briga por preço baixo não acabou

O ministro da Saúde, José Serra, fez questão ontem de comemorar a decisão dos Estados Unidos. Mas a briga não acabou. A empresa Roche, da Suíça, ainda se mantém intransigente na redução dos preços do remédio nelfinavir, que consomem US$ 150 milhões por ano dos cofres públicos.
CORREIO BRAZILIENSE - O que simboliza a decisão dos Estados Unidos de retirar o processo contra o Brasil da OMC?
JOSÉ SERRA - Foi a vitória do bom-senso. Se essa briga continuasse, afetaria os dois países. O Brasil, porque teria prejudicada sua política de combate à Aids. Os EUA, por causa da imagem negativa junto à opinião pública.
CORREIO - O Brasil ainda vai continuar com sua proposta de questionar a lei de patentes dos Estados Unidos na OMC?
SERRA - Não. Por enquanto, não há mais motivos para isso.
CORREIO - Qual foi o principal argumento que o Brasil usou na OMC para defender a produção de genéricos para o combate à Aids?
SERRA - Os lucros de até mil por cento da indústria farmacêutica.
CORREIO - Ainda que os Estados Unidos tenham desistido do processo contra o Brasil, a briga com o Laboratório Roche, da Suíça, continua em torno do Nelfinavir. Qual vai ser a postura do Brasil com a empresa?
SERRA - Demos um prazo até meados do ano. Se a Roche se mantiver intransigente no nosso pedido de redução de preços, vamos quebrar a patente no nelfinavir. O mesmo será feito com medicamentos para o tratamento de leucemia fabricados pela Novartis.



EUA recuam na guerra das patentes
Fonte:
Jornal do Brasil - 26/06/2001


Governo americano retira queixa na OMC. Brasil aceita negociar com laboratórios produção de drogas contra a Aids

O Brasil obteve ontem uma vitória na disputa com laboratórios americanos para produção no país, a preços mais baratos, de medicamentos que entram na composição do coquetel de combate à Aids. O governo dos Estados Unidos retirou o painel (queixa) apresentado na Organização Mundial de Comércio (OMC) contra a lei brasileira de patentes (Lei de Propriedade Industrial, de 1996), que no artigo 68 prevê a quebra de patente - produção do medicamento sem pagamento de direitos - de medicamentos de laboratórios estrangeiros que não sejam produzido no país por mais de três anos.
Segundo o comunicado divulgado em Washington e Brasília, o governo brasileiro assumiu o compromisso de negociar previamente, no âmbito do Mecanismo Consultivo Brasil-Estados Unidos, qualquer decisão envolvendo quebra de patentes. O Ministério das Relações Exteriores afirmou em nota que ''o Brasil mantém sua convicção de que o artigo 68 (da lei de patentes) é plenamente consistente com o acordo de Trips (Acordo sobre os Aspectos Comerciais da Propriedade Intelectual) e importante instrumento de que dispõe o governo, particularmente nos esforços de ampliar o acesso da população a medicamentos e de combater doenças como a Aids''.
Soluções - O representante do Departamento de Comércio americano, Robert Zoellick, disse em Washington que foi acertado um ''mecanismo consultivo bilateral'' para determinar quais as drogas anti-Aids que serão produzidas no Brasil e nos Estados Unidos. ''O governo Bush quer resolver disputas comerciais procurando soluções construtivas para problemas que surgem'', disse Zoellick. ''Com esse passo importante, seremos capazes de aproveitar nossas energias sobre nosso objetivo comum de combater a propagação do vírus.''
O texto do acordo informa que o governo americano retirará a queixa contra o Brasil na OMC e ''governo brasileiro concordará, caso julgue necessário aplicar o artigo 68 para conceder licença compulsória de patentes cujos detentores sejam empresas norte-americanas, em notificar antecipadamente o governo do Estados Unidos e dar-lhe oportunidade adequada para conversações prévias sobre o tema''.
Acusação - Na sexta-feira passada, representantes de 141 países, reunidos na sede da OMC, em Genebra, Suíça, decidiram que as normas da entidade não podem ser invocadas para impedir o acesso de populações pobres a drogas eficazes contra a Aids e outras epidemias. Os países pobres acusaram as grandes potências de tentar impedir a fabricação local de medicamentos mais baratos. A delegação americana contestou a acusação, afirmando que seu governo está comprometido com a luta mundial contra a Aids, que devasta as populações da África subsaariana e partes da Ásia.
Na reunião da OMC, a delegação do Brasil defendeu a tese de que o direito de propriedade não é um valor absoluto, mas social. De acordo com a posição brasileira, as patentes sobre medicamentos devem ser quebradas quando houver grande benefício social ou estado de emergência. Quinze países, incluindo a União Européia, apoiaram a posição brasileira.

Indústria foi consultada antes

O acordo entre os governos brasileiro e norte-americano para a retiradas das alegações na Organização Mundial do Comércio (OMC) foi acertado há 20 dias. Mas os negociadores do governo George Bush pediram prazo para que consultassem a indústria farmacêutica norte-americana antes do anúncio oficial do acordo. Dois pontos foram importantes no passo atrás do governo dos EUA. Primeiro, o Brasil preparava uma ação na OMC mostrando que a lei americana de patentes contém dispositivos similares à brasileira. Segundo, a opinião pública internacional era majoritariamente contrária à posição dos Estados Unidos. Por exemplo, o jornal ''The New York Times'' de anteontem publicou editorial apoiando a posição brasileira. ''É uma vitória do bom senso. Creio que o prosseguimento da reclamação traria prejuízo para os dois países. Ao Brasil, porque ameaçaria a política de produção de medicamento genéricos de Aids e outros produtos. E aos EUA, porque a opinião pública mundial está do nosso lado. O painel na OMC foi pedido no último dia da administração Clinton, em 19 de janeiro deste ano. Creio que o governo Bush fez uma revisão que será muito positiva para suas relações com o Brasil'', declarou o ministro José Serra, em Nova York, onde participa das discussões sobre Aids da ONU.
Serra afirma que não deve haver reação da indústria farmacêutica. ''Imagino que o setor não deve ter amado, mas é inegável que a indústria farmacêutica internacional, que tem produzido bons avanços na área de novos medicamentos, tem cometido abusos de preços, como ficou evidente no caso da Aids, onde houve uma margem de lucro de até 1.000%.''
Em comunicado à imprensa, o Itamaraty diz que ''o governo brasileiro acolhe com satisfação a decisão dos Estados Unidos de encerrar a acusação na OMC a respeito da lei de patentes''.
A nota diz, ainda, que o governo brasileiro se compromete a manter conversações prévias com o governo americano na eventualidade de julgar necessário conceder licença compulsória de patente de empresa dos EUA. Tais conversações, diz o Itamaraty, seriam mantidas no âmbito do Mecanismo Consultivo Brasil-Estados Unidos, em sessão especial para discutir o assunto.
''O Brasil mantém a sua convicção de que o artigo 68 é plenamente consistente e importante instrumento de que dispõe, particularmente nos esforços de ampliar o acesso da população a medicamentos e de combater doenças como a Aids''.

O lobby dos laboratórios americanos

A produção por laboratório brasileiros dos oito remédios que compõem o coquetel de combate da Aids nos laboratórios brasileiros desagradou os bilionários laboratórios americanos, que detém a patente dos medicamentos. Com base na lei de propriedade industrial, o governo americano questionou, em fevereiro, a Lei de Patentes brasileira na Organização Mundial de Comércio (OMC), argumentando que o artigo 68 da lei brasileira viola os direitos de propriedade intelectual prevista na OMC.
O artigo 68 permite o licenciamento compulsório de um registro para a produção local de remédios, após três anos da data da concessão da patente caso o produto não esteja sendo fabricado no Brasil.
Na semana passada, o Ministério da Saúde iniciou uma campanha publicitária nos cinco principais americanos denunciando a posição americana. ''Aids is not a business'' (Aids não é negócio, em inglês), dizia a campanha, mostrando a posição mercenária da indústria americana ao querer impor ao Brasil a compra dos medicamentos dos EUA.
O Ministério da Saúde, com o programa de distribuição gratuita, atende mais de cem mil pacientes por ano: 44% d os remédios vêm de laboratórios nacionais e 56% são importados. O Ministério justifica que se não houvesse a compra dos medicamentos nos laboratórios brasileiros, não seria possível atender gratuitamente os portadores do vírus no país.

 



Brasil e EUA anunciam acordo sobre patentes
Fonte: O Estado de S.Paulo - 26/06/2001

Notícia foi dada em Genebra. EUA sofreram pressão internacional

Serra vai brigar com laboratório suíço
Ministro diz que Brasil poderá usar licenciamento compulsório contra preço abusivo

TONICA CHAGAS
Especial para o Estado

NOVA YORK - Vencida a disputa com os Estados Unidos em relação ao artigo 68 da sua lei de patentes, o Brasil agora poderá aplicar licenciamento compulsório para a produção de remédios, pondo em prática o artigo 71 da mesma lei, que trata do abuso de preços de medicamentos. A informação foi dada ontem pelo ministro da Saúde, José Serra, que está em Nova York participando da sessão extraordinária da ONU sobre aids. Com base nesse artigo, segundo o ministro, o País poderá fazer, por exemplo, licenciamento compulsório do remédio Neufinavir, feito pela Roche.
"O Brasil gasta por ano R$ 150 milhões e o laboratório está tendo uma posição muito intransigente na questão do preço", disse Serra. Caso o laboratório ofereça um preço considerado razoável pelo Brasil, a quebra do licenciamento da Roche poderá ser evitada. "Isso já ocorreu com o laboratório Mercke, que abaixou o preço e o Brasil desistiu do licenciamento compulsório", afirmou Serra.
Serra considerou uma vitória do bom senso o fim da disputa entre o Brasil e os EUA. Pelo acordo, os EUA retiraram a "representação" contra o Brasil apresentado na OMC e o Brasil também suspendeu o próprio pedido de panel que faria à OMC em relação à lei de patentes norte-americana, que teria dispositivos semelhantes a alguns da lei brasileira.
"O prosseguimento do panel traria prejuízo aos dois países: ao Brasil porque ameaçaria nossa política de produção de medicamentos genéricos para aids e outras doenças, e aos Estados Unidos porque, evidentemente, a opinião pública mundial estava do nosso lado", disse o ministro.
Serra reafirmou que a intenção do Brasil não é a de produzir remédios para aids para exportação, conforme alegavam laboratórios estrangeiros. "Nossa organização está voltada para o abastecimento interno e não vamos nos envolver num processo de venda mundial."

Aids: ONU condena política de segregação
O secretário-geral Kofi Annan abriu a conferência falando do 'mundo cruel' da doença

NOVA YORK - "No mundo cruel da aids não existem 'nós e eles'", afirmou o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, na abertura da sessão especial da Assembléia Geral que discute a pandemia, que atinge 36 milhões de pessoas e já matou outras 22 milhões em todo o mundo. "Não podemos enfrentar a aids fazendo julgamentos morais, nos recusando a encarar fatos desagradáveis ou estigmatizando os doentes", afirmou.
A sessão, a primeira dedicada exclusivamente a uma doença, atraiu cerca de 3 mil interessados, dezenas de chefes de Estado, ministros e diplomatas.
O secretário de Estado americano, Colin Powell, lembrou que a administração George W. Bush já destinou US$ 200 milhões para o fundo internacional de combate à doença - no que foi duramente criticado por ativistas antiaids, que consideraram a quantia muito pequena. Bill Gates, dono da Microsoft, fez uma doação de US$ 100 milhões.
Powell, porém, insinuou que o governo americano poderá fazer novas contribuições. "Esperamos que essa quantia estimule doadores de todo o mundo e tenhamos bilhões de dólares", afirmou Powell. "Meu país é e continuará a ser o maior doador de recursos para a luta contra a aids, com 50% de todo o financiamento internacional."
O presidente da Nigéria, Olusegun Obasanjo, que organizou a primeira conferência africana para debater a aids, pintou um quadro ainda mais dramático da epidemia. Vivem na África 70% dos adultos e 80% das crianças infectadas pelo HIV.
O ministro da Saúde, José Serra, participou de uma mesa redonda sobre prevenção e tratamento de aids. Serra destacou os fatores fundamentais para que a política do governo brasileiro tenha produzido resultados tão notáveis. Citou a combinação de prevenção e tratamento e a cooperação entre governo e as 60 organizações não-governamentais que trabalham em parceria com o Ministério da Saúde. (The New York Times)

Pressão muda tática de norte-americanos
Batalha passa da OMC para comissão bilateral sobre comércio e investimentos

PAULO SOTERO
Correspondente

WASHINGTON - A decisão do governo dos Estados Unidos de suspender o processo que a administração Clinton iniciou em seu último dia, em janeiro passado, na Organização Mundial de Comércio (OMC), contra uma das duas cláusulas da lei brasileira de patentes que regem o licenciamento compulsório para fabricação de produtos patenteados, no caso, remédios, representa um raríssimo recuo por parte de Washington numa disputa comercial. Mas a administração Bush não cedeu no mérito da questão e continua achando que o artigo 68 da lei brasileira é incompatível com as regras da OMC.
Apenas aceitou transferir a disputa para o âmbito mais amistoso de uma comissão bilateral de consultas sobre comércio e investimentos, criada em março, depois de constatar que, politicamente, sairia perdendo mesmo que a OMC decidisse o caso a seu favor. Denunciada por influentes organizações não-governamentais e por congressistas americanos como uma ameaça ao bem-sucedido programa brasileiro de combate à aids e, potencialmente, à saúde pública em várias latitudes, a ação de Washington tornara-se um pesadelo de relações públicas para a Casa Branca e uma dor-de-cabeça para a OMC, que até agora não conseguira constituir o painel de três especialistas para examinar a queixa americana.
O embaixador do Brasil em Washington, Rubens Barbosa, que negociou o entendimento, disse que o gesto americano "mostra que há um clima de mais confiança" entre os dois governos. Mas Barbosa ressalvou que não tem ilusões sobre as chances de novos avanços na briga entre Brasil e EUA.
Há pelo menos uma forte razão para justificar o ceticismo do embaixador. Ontem, depois de declarar a satisfação do governo brasileiro com a decisão, Barbosa passou a examinar as implicações do processo que a Casa Branca desencadeou na noite de sexta-feira, ao abrigo da seção 201 da Lei de Comécio dos EUA, para proteger a ineficiente indústria siderúrgica americana da competição internacional.
Siderurgia - Se a Comissão de Comércio Internacional (ITC) norte-americana, que examinará a ação, concordar com o executivo e decidir que a indústria local foi prejudicada por um surto de importações (embora estas venham caindo), as exportações brasileiras de aço para os EUA sofrerão um golpe brutal.
"O pedido foi estruturado para pôr o máximo de pressão sobre a ITC para atender o que a indústria busca", disse William Barringer, advogado da firma Willkie Farr & Gallagher, que já representou o Instituto Brasileiro de Siderurgia em ações protecionistas nos EUA. Com a boa notícia na área das patentes neutralizada pelas conseqüências da ação dos EUA para proteger a siderurgia americana, o contencioso bilateral ficou mais ou menos do mesmo tamanho.



Fechado o acordo sobre patentes
Fonte:
Valor Econômico - 26/06/2001

Rodrigo Bittar, Daniel Rittner e Rodrigo Carro, De Brasília e do Rio

Os EUA desistiram do pedido de investigação contra o artigo 68 da Lei de Propriedade Industrial brasileira na Organização Mundial do Comércio (OMC). O acordo, anunciado ontem nos dois países foi comemorado pelas autoridades em saúde do Brasil como um dos melhores acontecimentos para a política nacional de combate à Aids. O artigo 68 permite ao Brasil emitir licença compulsória em caso de abuso de poder econômico e estava sendo usado pelo Ministério da Saúde nas negociações com os laboratórios internacionais que produzem medicamentos utilizados no tratamento da Aids.
O Brasil passará a anunciar com antecedência qualquer intenção de quebra de patente aos EUA e os americanos se comprometeram a retirar o painel.
O chanceler brasileiro Celso Lafer considerou o acordo "extremamente positivo". "Essa conversa prévia não significa nenhuma limitação, que não seja a do diálogo, à nossa futura e eventual orientação", disse Lafer. Se o Brasil precisar quebrar patentes vai fazê-lo.
Segundo o coordenador-adjunto do Programa Nacional de Aids Alexandre Grangeiro, o acordo fechado será fundamental para a política de distribuição gratuita de medicamentos contra Aids mantida pelo governo, mas não garante a manutenção de patentes nesse setor. "Se as negociações com os laboratórios internacionais não evoluírem, vamos emitir licenças compulsórias para que os fabricantes brasileiros produzam genéricos contra a Aids", anunciou. O Ministério da Saúde tenta reduzir o preço do Nelfinavir, produzido pelo laboratório suíço Roche.
O embaixador brasileiro nos EUA, Rubens Barbosa, vê os resultados das negociações como uma prova de "flexibilização" dos governos. "Não houve ganhadores ou perdedores, mas um consenso da importância de se unir esforços no combate à Aids", disse. Segundo ele, a pressão da opinião pública norte-americana "aumentou muito" nos últimos meses a favor do Brasil. "Eles associam essa discussão à vida e não à economia."
Na semana passada, o Ministério da Saúde brasileiro veiculou anúncios em quatro grandes jornais dos EUA, divulgando sua visão sobre propriedade intelectual em assuntos relacionados ao combate à Aids. "Recebemos um apoio grande e espontâneo de várias organizações não-governamentais", afirmou Barbosa.
O primeiro gesto de que os EUA dariam um tratamento mais flexível ao artigo 68 foi dado no dia 18 de maio, quando Lafer encontrou-se em Genebra com o principal negociador americano, Robert Zoellick. Os dois falaram sobre o pedido de painel e Zoellick sondou o colega, sem propostas concretas, sobre a possibilidade de resolver o assunto fora da OMC.
Na primeira semana de junho, o diplomata americano Peter Algeir, braço direito de Zoellick na USTR, procurou o subsecretário-geral para assuntos econômicos do Itamaraty, José Alfredo Graça Lima. Algeir tentou convencer a chancelaria brasileira a assumir um compromisso formal de não aplicar, sob nenhuma hipótese, o artigo 68 da Lei de Propriedade Industrial.
O Itamaraty rejeitou essa possibilidade e fez uma contraproposta próxima ao acordo final entre os dois países. A diplomacia brasileira enumera alguns fatos que, considera, pesaram na decisão de retirar o pedido de painel: a pressão política das ONGs, a aprovação de uma resolução no conselho de direitos humanos da ONU que garante acesso universal aos medicamentos e a derrota dos Estados Unidos na eleição para uma cadeira nesse mesmo conselho.
Proposto no início do ano, o painel não foi aberto por causa do atraso na escolha dos três árbitros que julgariam o processo. Ambos países vinham negando seguidamente os nomes indicados. Após 20 dias de indefinição, os americanos poderiam ter pedido intervenção da OMC na seleção dos juízes. Mas preferiram levar o processo em "banho-maria", o que reforçou a impressão de que a Casa Branca desejava uma solução negociada.
até dezembro, mês em que será realizado o Encontro Nacional da sigla, atendendo ao pedido de tempo para uma definição pública do presidente de honra do partido, Luiz Inácio Lula da Silva, favorito absoluto para ganhar a prévia partidária e primeiro colocado nas pesquisas de opinião. Pela primeira vez, o presidente nacional do PT, deputado José Dirceu (SP), admitiu que corrente mais à esquerda do partido deverá lançar pré-candidato - o prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues. Com isto a prévia deverá ter três nomes: Lula, Edmilson e o senador Eduardo Suplicy. "É uma possibilidade concreta", disse.
sistema financeiro.

 


Serra diz que a vitória é do bom senso
Fonte:
Gazeta Mercantil - 26/06/2001

Hylda Cavalcanti de Brasília

O ministro da Saúde, José Serra, afirmou ontem que o acordo feito entre o Brasil e os Estados Unidos com o objetivo de facilitar a venda e produção de medicamentos para combate à Aids, fechado no último domingo, precisa ser considerado como 'uma vitória do bom senso'. Serra lembrou, durante entrevista concedida em Nova York, minutos antes de participar da abertura da conferência especial sobre a doença, promovida pela ONU, que todo o processo de negociações foi iniciado em Genebra em maio passado, ocasião em que ele se reuniu com o ministro da saúde americano.
Na opinião do ministro, caso o panel que os Estados Unidos tinham solicitado à Organização Mundial do Comércio (OMC) para rever a legislação brasileira sobre patentes de medicamentos fosse levado adiante, os dois países sairiam prejudicados. 'No caso do Brasil, porque tal medida ameaçaria a política de produção de medicamentos genéricos, tanto os de Aids como outros produtos. E, dos Estados Unidos, porque a opinião pública mundial está do nosso lado'.
A declaração de Serra foi baseada no respaldo do jornal New York Times que, na edição de ontem, fez editorial apoiando as posições brasileiras. Para o ministro, o acordo também teve um outro componente: uma espécie de reavaliação feita pelo governo Bush sobre o caso. É que o pedido de abertura do painel à OMC foi feito no último dia da administração Bill Clinton, em 19 de janeiro passado. 'Creio que o presidente americano fez uma revisão positiva para o seu país, até porque nós também estávamos preparando um panel com relação à lei de patentes americana, nos mesmos moldes', disse.
Ao ser questionado sobre uma provável reação da indústria farmacêutica, Serra deixou claro que já está esperando qualquer investida nesse sentido. 'Imagino que o setor não deve ter amado a decisão, mas é inegável que a indústria farmacêutica internacional ao mesmo tempo que tem produzido bons avanços na área de novos medicamentos, também vem cometendo sucessivos abusos de preços e, por isso, não desfruta de uma boa imagem', argumentou.
Nos bastidores do Ministério da Saúde, mais do que uma negociação, o acordo feito no último domingo consiste na etapa final de sucessivas vitórias que o governo brasileiro vinha obtendo na sua posição, impulsionadas pela declaração recente da ONU de que o acesso a remédios para Aids tinha que ser considerado prioridade geral para os países.
O início da polêmica, no entanto, foi observado em março de 2000, durante a Conferência Internacional de Saúde, realizada na África do Sul. Foi a primeira vez que o Brasil propôs o repasse da tecnologia de fabricação de medicamentos mais baratos, de combate à doença, para outros países pobres. Em novembro, por ocasião do Fórum 2000 da Alca, realizado no Rio de Janeiro entre países da América Latina e Caribe, o assunto voltou a ser discutido. Em janeiro deste ano, os Estados Unidos formalizaram o pedido de abertura do painel.

 

Inimigo comum
Fonte: O Globo - 26/06/2001

O acordo sobre lei de patentes anunciado ontem pelos governos do Brasil e dos Estados Unidos é vitória dos dois países no esforço internacional para conter o avanço da Aids: ele cria um mecanismo de consultas capaz de reduzir consideravelmente as diferenças de posição que vinham pondo em risco a eficácia dos programas anti-Aids em qualquer parte do mundo.
Uma das batalhas da guerra mundial contra a doença é, como se sabe, travada em terreno jurídico. De um lado alinham-se os interesses da indústria farmacêutica, que luta para preservar seus direitos de patente sobre medicamentos. E do outro está a necessidade, cada dia mais urgente, de fabricar remédios baratos para enfrentar a epidemia, especialmente nas regiões pobres.
Esse conflito provocou atritos entre o Brasil, que tem um programa exemplar de envolvimento oficial e fabricação de remédios genéricos, e os Estados Unidos, que sofrem a pressão dos grandes laboratórios.
Moralmente, como afirmou editorial recente do GLOBO, é óbvio que o Brasil está em posição mais confortável, o que explica o apoio recebido nos principais foros internacionais. Mas o realmente importante não é marcar pontos numa espécie de torneio ético. O acordo anunciado ontem mostra que o entendimento não só é indispensável - como sempre se soube - como é possível, algo em que poucos acreditavam. Brasileiros e americanos mostraram que podem ficar do mesmo lado, na defesa das patentes e no esforço para neutralizar o vírus HIV - seu verdadeiro inimigo comum.

 

Genérico para glaucoma
Fonte: Gazeta Mercantil - 26/06/2001


Os dois genéricos para tratamento de glaucoma lançados pelo Laboratório Cristália - Cloridrato de Betaxolol e Maleato de Timolol - já estão à venda nas farmácias, com valor 40% menor que o dos medicamentos de referência Betopticâ e Timoptolâ. No Brasil, a receita de vendas dos medicamentos para a doença somou US$ 40 milhões em 2001. Segundo a Associação Brasileira dos Portadores de Glaucoma o faturamento mundial nessa área seja de US$ 2,15 bilhões em 2001.

 
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