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27/06
Fundo anti-Aids ganha mais adesões
27/06
Vitória do bom senso





Fundo anti-Aids ganha mais adesões
Fonte: Jornal do Brasil - 27/06/2001

Brasil oferece capacitação e tecnologia e cinco países anunciam doações. Arrecadação já ultrapassa os US$ 811 milhões

AFP

NOVA IORQUE - O fundo anti-Aids ganhou ontem adesão de mais cinco países e o reforço do governo britânico, que prometeu dobrar a quantia antes oferecida, elevando o total arrecadado para US$ 811,207 milhões. As doações estão longe da meta mínima de US$ 7 bilhões, mas foram consideradas um primeiro passo pelo ministro da Saúde, José Serra, que participa da Sessão Especial da ONU sobre Aids, em Nova Iorque. Serra anunciou ontem que o Brasil não contribuirá diretamente com o fundo, mas se comprometeu a oferecer cursos de capacitação e transferência de tecnologia aos países interessados.
''O que podemos fazer é transmitir nossa experiência'', disse o ministro, referindo-se ao Programa Nacional de Aids, que distribui gratuitamente coquetéis anti-HIV a 100 mil pessoas, boa parte deles fabricada no Brasil. A distribuição levou à queda de 50% da taxa de mortalidade, desde 1996, quando a terapia tríplice (três drogas combinadas) foi adotada no país.
Sucesso - ''O sucesso do nosso programa é atribuído a quatro pontos: o trabalho de conscientização das ONGs, a integração prevenção-tratamento, a persistência política e a produção local de genéricos'', afirmou Serra, que fará pronunciamento hoje no encerramento da assembléia.
O vice-presidente de Cuba, Carlos Lage, que também participa da reunião da ONU, seguiu o exemplo brasileiro e colocou à disposição da comunidade internacional 4 mil médicos para ajudar no combate à Aids em países em desenvolvimento. Lage afirmou que ''é responsabilidade do G-7 (grupo que reúne os sete países mais ricos do mundo) o aporte de recursos''. Lage disse ainda que Cuba está disposta a deslocar professores universitários para países africanos para assessorar a criação de 20 faculdades de medicina na África, continente mais afetado pela epidemia.
Lista - Os países que decidiram assinar à lista de doações ontem foram Noruega (US$ 110 milhões), Suécia (US$ 60 milhões), Nigéria (US$ 10 milhões), Zimbábue (US$ 1 milhão) e Quênia, que ofereceu a simbólica quantia de US$ 7 mil. Anteontem, a Noruega havia anunciado que o governo liberaria mais US$ 110 milhões, mas não tinha deixado claro se o dinheiro seria investido internamente ou se seria destinado ao fundo. A Grã-Bretanha, por sua, vez dobrou a doação para US$ 200 milhões, igualando-a à americana.
''Ainda é muito pouco. Mas não diria que é um valor frustrante. Os três dias de reunião não são decisivos para o estabelecimento do fundo. Esperamos que a pressão internacional faça crescer as doações e que até o fim do ano tenhamos conseguido a quantia mínima de US$ 7 bilhões'', disse por telefone ao JB, de Nova Iorque, o coordenador do programa brasileiro de Aids, Paulo Teixeira.
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, autor da proposta do fundo, fez novo apelo por doações em carta direcionada ao G-8 (sete nações mais ricas do mundo mais a Rússia), tornada pública ontem. Annan espera que os oito países tomem uma decisão antes da reunião de julho, em Gênova, na Itália.

 


Vitória do bom senso
Fonte:
O Estado de S.Paulo - 27/06/2001

A solução negociada da disputa sobre patentes de remédios entre Estados Unidos e Brasil deixa o Ministério da Saúde em posição de força para obter do laboratório suíço Roche preços mais acessíveis para o medicamento Neufinavir, que compõe o coquetel ministrado aos pacientes de aids. Mas não significa que os Estados Unidos tenham reconhecido que o artigo 68 da Lei de Propriedade Intelectual brasileira - que autoriza o licenciamento compulsório de remédios que não sejam fabricados no País - não viola os acordos de patentes da Organização Mundial do Comércio (OMC).
O pedido norte-americano de constituição de um panel (tribunal de arbitragem) para julgar a legalidade do artigo 68 acabou criando mais embaraços para Washington que para o governo brasileiro. Mais de 50 países e 100 organizações não-governamentais apoiaram a posição brasileira, entendendo não proceder as alegações norte-americanas de que o dispositivo da lei brasileira de patentes nada tinha a ver com o programa de combate à aids, antes constituindo uma violação da propriedade intelectual. O governo brasileiro não apenas demonstrou que acata as normas internacionais de propriedade intelectual - tanto assim que nunca aplicou o artigo 68 -, como fez uma eficiente campanha de esclarecimento da opinião pública - comandada pelo ministro José Serra - sobre a necessidade de contar com um instrumento de pressão sobre os laboratórios, sob pena de os elevados preços dos medicamentos antivirais tornarem inviável o programa de combate à aids, um dos mais bem-sucedidos do mundo.
A Casa Branca avaliou as conseqüências do dissídio para a imagem internacional dos Estados Unidos e constatou que estava numa posição insustentável, pois mesmo se ganhasse o pleito na OMC perderia a batalha da opinião pública. Não só o isolamento dos Estados Unidos era notório, como o representante comercial norte-americano, Robert Zoellick, chegou a advertir a indústria farmacêutica de que a intransigência com que estavam tratando a questão dos medicamentos antivirais poderia provocar o efeito oposto ao desejado e ameaçar o sistema global de patentes.
Esse foi o primeiro sinal de que o peso da opinião pública mundial estava fazendo os Estados Unidos entenderem que era preciso uma abordagem mais flexível da questão das patentes, quando causas humanitárias estivessem em jogo.
Finalmente, o governo norte-americano propôs ao Brasil um acordo vantajoso para ambas as partes. O pedido de panel foi retirado, os dois países mantêm suas posições originais e o Brasil assumiu o compromisso de levar antecipadamente à comissão bilateral de consultas sobre comércio e investimentos - criada em março - eventuais decisões de quebrar patentes. O compromisso americano inclui, ainda, a possibilidade de se discutir, no âmbito da Organização Mundial do Comércio, uma moratória de disputas comerciais contra países pobres, não só no caso do acesso a remédios contra a aids, como em outras questões de saúde pública, incluindo licenças compulsórias e importação paralela, abrindo maior espaço para a produção e comercialização de genéricos.
Certamente pesou na decisão final do governo norte-americano a reiteração, feita pelo ministro da Saúde, José Serra, e pelos diplomatas que acompanharam o caso, de que o Brasil não pretende, ao contrário do que afirmavam os laboratórios, produzir remédios contra a aids para exportação.
Com o acordo, aliviam-se as tensões que anuviam o relacionamento comercial dos dois países e que se agravaram, nos últimos dias, pela decisão norte-americana de iniciar uma investigação ampla sobre as práticas comerciais de uma dúzia de países exportadores de aços, entre eles o Brasil.

 

 
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