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28/10
Deixa que os partidos se acomodem, diz FHC
28/10
Efeito Colateral

Deixa que os partidos se acomodem, diz FHC
Fonte:O Globo
- 28/10/2001

Cristiane Jungblut
Enviada especial

MADRI. O presidente Fernando Henrique Cardoso reagiu com desdém à proposta do pré-candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, de unir os partidos de esquerda já para a disputa do primeiro turno das eleições de 2002.
- Deixa que os partidos se acomodem. Falta muito tempo para as eleições - disse.

O presidente, que viajou na companhia dos presidentes do PSDB, José Aníbal; do PFL, Jorge Bornhausen; e do PMDB, Michel Temer, para tentar assegurar a aliança dos partidos da base nas eleições do ano que vem, disse achar normal a busca de apoio.
"Sou presidente e vou agir como presidente", diz FH

Ele evitou, porém, comentar as negociações político-partidárias, dizendo que está preocupado com os problemas que interessam à população brasileira. Fernando Henrique afirmou que não deixará de tomar nenhuma medida como forma de evitar um possível desgaste do governo e do seu candidato nessa fase pré-eleitoral.

- Quem imagina que não deve fazer o necessário para ganhar votos, pode ser até que não perca votos, mas realmente não ganha o reconhecimento do país. Nunca fui movido por questões eleitoreiras e muito menos agora, que não sou candidato. Sou presidente e vou agir como presidente - disse.

Hoje o presidente se encontrará com o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, em sua residência de campo, em Chequers, a uma hora e meia de Londres. Também participará do encontro o ex-presidente dos EUA Bill Clinton. Fernando Henrique pretende abordar as ações mundiais de combate ao terrorismo. Ontem, ele participou do encerramento da Conferência sobre Transição e Consolidação Democráticas.

Paulo Renato diz que pode enfrentar prévias

O ministro da Educação, Paulo Renato Souza, afirmou ontem que está disposto, se for preciso, a enfrentar prévias para a escolha do candidato da base governista à sucessão de Fernando Henrique. Segundo ele, apenas os adeptos das pré-candidaturas do ministro da Saúde, José Serra, e do governador do Ceará, Tasso Jereissati, o excluíram da disputa presidencial, lançando especulações de que se candidataria ao Senado. As afirmações foram feitas durante solenidade do programa Bolsa-Escola em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.

- Minha candidatura está colocada para o partido e eu vou permanecer com ela até que meu nome seja indicado. Se o partido determinar a prévia como método de escolha, disputarei, sem dúvida nenhuma - disse.
Paulo Renato disse que o fato de a família do governador Mário Covas, falecido em março, ter lançado Tasso em São Paulo, assim como a suposta preferência do presidente por Serra, não inibem sua candidatura.

- Tenho uma visão do partido e posso fazer a transformação que o país está experimentando com o presidente Fernando Henrique - disse.
Ao lado do prefeito de São Bernardo, Maurício Soares, que trocou o PPS pelo PSDB há um mês, Paulo Renato agiu como candidato, distribuindo camisetas e bonés do programa Bolsa-Escola.

COLABOROU Soraya Aggege

Presidente põe o nome de Aécio no jogo da sucessão

Diana Fernandes e Cristiana Lôbo*

BRASÍLIA. Quando se pensava que o processo no PSDB para a escolha do candidato à presidência da República estava restrito aos nomes do ministro da Saúde, José Serra, e do do governador do Ceará, Tasso Jereissati, o presidente Fernando Henrique entra em campo para ampliar a lista tucana. Tal como fez até outubro com Pedro Malan, desta vez, o nome novo é o do presidente da Câmara, Aécio Neves.

- Preste atenção no Aécio - disse ele a um interlocutor.
Ao próprio Aécio aconselhou que se mantivesse discreto e não se comprometesse diretamente com nenhum dos dois pretendentes.

Para uns, estes movimentos de Fernando Henrique têm o objetivo de confundir o cenário pré-eleitoral e de manifestar seu desagrado com o discurso dos dois com restrições à política econômica de Pedro Malan. Para outros, o objetivo é tirar José Serra do foco de críticas para preservá-lo.

- Com os movimentos de Tasso, ficou claro que a vaga de candidato não é garantida a Serra por gravidade. Por isso, todo mundo tem de trabalhar - disse um partidário do ministro da Saúde.
Com esta preocupação, os simpatizantes de Serra, inclusive o presidente Fernando Henrique, estão induzindo o PSDB a usar o programa eleitoral de 15 de novembro para defender exclusivamente políticas de governo como as da área de saúde e educação. É uma forma de excluir o governador Tasso Jereissati do programa tucano, ao mesmo tempo em que valoriza o desempenho de Serra na Saúde.

Os programas do Ministério da Saúde sob o comando de José Serra - como o dos genéricos, o Bolsa-Alimentação e o de combate à Aids - têm aprovação superior a 80% dos consultados em pesquisas. Ao lado do Bolsa-Escola, do Ministério da Educação, os da Saúde são os mais aprovados programas do governo Fernando Henrique.

Para recusar a proposta de dividir o horário eleitoral do partido apenas entre os dois principais pré-candidatos do PSDB - Serra e Tasso - Fernando Henrique argumentou que existem outros nomes como Aécio Neves e Paulo Renato Souza. E se fosse atender a todos, o tempo ficaria pulverizado. Para outros partidários de Serra, esta fórmula passaria a idéia de que o PSDB é um partido dividido.
(*) do GloboNews.com

_ O Serra, por estar no governo, não tem a mesma liberdade que tem o Tasso para fazer campanha, mas ele está se movimentando, viajando pelo país para divulgar os programas da saúde _ diz o secretário-geral do PSDB, deputado Márcio Fortes.
Cada um a seu modo, Serra e Tasso estão em campanha pela vaga de candidato tucano à presidência da República. Mas a escolha se dará em março, dizem os comandantes do partido, com uma observação: isso acontecerá depois do recesso, quando deputados e senadores irão para seus Estados e lá poderão aferir quem terá melhores condições na disputa.

- Nesta ocasião não haverá argumento de simpatia ou de antipatia; o parlamentar já vai chegar aqui com a decisão e o processo vai então chegar ao fim - disse um dos articuladores da campanha governista.

Mesmo com seu nome lembrado por Fernando Henrique, Aécio Neves, como bom mineiro, já formado na escola de Tancredo Neves, de público, não se empolga nem descarta a possibilidade. Recorre a um bordão: "minha eleição passa por Minas". Ele já tem um bom percurso pavimentado rumo ao Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, mesmo sem dar cotoveladas e nenhum de seus parceiros e correligionários. Publicamente, ele diz que seu projeto é se eleger senador por Minas e, quem sabe, se Deus der sorte, tornar-se presidente do Senado - o mais jovem na história da República.

O tucano em campanha para o governo de Minas é o ex-governador Eduardo Azeredo, com a alternativa de ser também candidato o ministro Pimenta da Veiga.
Mas quem faz política em Minas identifica os movimentos de Aécio e percebe que ele é um nome que poderá reproduzir lá uma aliança que na disputa presidencial a cada dia fica mais difícil: a união do PSDB com o PFL, o PPB e até o PMDB. Lembre-se que esta semana ele recebeu a visita de Itamar Franco no gabinete da presidência do Senado.

Efeito colateral
Fonte:Folha de São Paulo
- 28/10/2001

O caso antraz provocou um efeito colateral inesperado ao pôr em questão, nos EUA, o conflito entre proteção à propriedade intelectual, isto é, patentes de medicamentos, e interesses da saúde pública.

Desde que terroristas começaram a disseminar esporos do antraz, aumentou enormemente a procura por Cipro, o único antibiótico recomendado pela FDA, a agência sanitária dos EUA, para tratar a forma pulmonar da moléstia. Calcula-se que 10 mil americanos estejam tomando Cipro, embora os casos diagnosticados não passem de poucas dezenas.

Cipro é o nome comercial da ciprofloxacina da Bayer, antibiótico da classe das quinolonas. Cada comprimido de Cipro custava nos EUA, até a semana passada, US$ 1,75.

Autoridades sanitárias dos Estados Unidos entraram em negociações com a Bayer. Chegou-se a falar em quebra de patentes. O laboratório alemão concordou em reduzir o preço para 95 centavos nos primeiros 100 milhões de unidades. Ciprofloxacinas genéricas custam entre 12 e 20 centavos no mercado global.

Os responsáveis pela negociação cantaram vitória. Talvez até fosse, se a ciprofloxacina fosse de fato o único medicamento capaz de combater o Bacillus anthracis, o agente causador do antraz.

Essa bactéria, que em estado natural raramente infecta seres humanos, é sensível a diversas classes de antibióticos, incluindo penicilinas e tetraciclinas, que são bem mais antigas (sem patente) e muito mais baratas do que a Cipro.

Laboratórios que concorrem com a Bayer ofereceram ao governo dos EUA grandes lotes de remédios antiantraz gratuitamente, em troca apenas de a FDA aprovar suas drogas para o tratamento do bacilo. Aliás, os EUA são um dos últimos países do mundo em que a patente da droga ainda é válida, existindo, portanto, ampla produção mundial de genéricos, inclusive no Brasil.

A indicação da ciprofloxacina como droga de escolha contra o antraz é de fato obscura. No ano passado, uma comissão de legisladores investigava a ameaça de bioterrorismo. Concluiu que tanto a penicilina quanto a doxiciclina seriam tratamentos eficazes contra o antraz. Mas o comitê não as recomendou. Escolheu a ciprofloxacina. A alegação é a de que havia indícios de que terroristas teriam produzido cepas de antraz resistentes a essas drogas. Também se falou no risco de o uso indiscriminado de penicilina originar linhagens de bactérias multirresistentes.

São argumentos teóricos válidos, mas que servem para todos os antibióticos, inclusive a ciprofloxacina.

Independentemente dos desdobramentos dessa história intricada, o caso serve para mostrar que nem mesmo os EUA estão imunes à disputa patente X saúde pública. A pressão que as autoridades sanitárias colocaram sobre a Bayer não é diferente, por exemplo, da que países pobres exercem -e com firme oposição dos EUA- sobre laboratórios que produzem remédios contra a Aids.

O caso antraz deveria servir para estabelecer, de uma vez por todas, que nenhuma patente pode prevalecer sobre o direito à vida, ou seja, sobre o direito a receber tratamento médico.

 
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