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Remédios
proibidos continuam nas farmácias
Fonte:O
Globo - 02/06/2002
Jailton de Carvalho
BRASÍLIA. As máfias dos medicamentos desapareceram
das páginas dos jornais há algum tempo, mas comprar
remédio ainda é um risco em todo o país. Laboratórios,
distribuidores e farmácias de grande porte continuam explorando
remédios ilegais. Numa prova do abuso, O GLOBO conseguiu
comprar, nas duas últimas semanas, seis remédios proibidos
pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa). As compras foram feitas em várias lojas, inclusive
na chamada Rua das Farmácias, a área mais nobre do
comércio farmacêutico em Brasília, a cerca de
dois quilômetros do Ministério da Saúde.
Na primeira visita às farmácias, em 22 de maio, foram
comprados sem receita médica Antomiopic, Doxium e Clarvisol,
os três fabricados pelo laboratório Allergan. No dia
seguinte, também sem dificuldade, foi adquirido o xarope
Limão Bravo, do laboratório Lobo Franco. No dia 27,
numa nova visita às farmácias foram encontrados o
Flor da Noite, produto do laboratório As Ervas Curam, e o
Porangaba, fitoterápico da laboratório de manipulação
Botika.
Um dos remédios pode até causar câncer
O Antomiopic, o Rotram, o Limão Bravo, o Flor da Noite e
o Porangaba estão na lista de proibidos da Anvisa por diversos
motivos. Segundo a Anvisa, o Antomiopic contém tiomersal,
substância à base de mercúrio. O mercúrio
é um metal pesado, que se acumula no organismo e, a longo
prazo, pode atingir órgão vitais, como fígado,
rins e coração. Pode até mesmo, conforme a
agência, provocar câncer. O Limão Bravo (xarope),
o Flor da Noite (uso ginecológico) e o Porangaba (emagrecedor)
foram vetados por falta de registro na Anvisa.
As autoridades sanitárias dizem que não sabem se esses
remédios são perigosos, mas alegam que, da mesma forma,
desconhecem os supostos efeitos curativos dos produtos. Isso porque
os laboratórios não os submeteram aos testes científicos
exigidos pela legislação para que um medicamento possa
ser oferecido ao consumidor. Os casos mais complicados são
os do Doxium e do Clarvisol. Eles foram proibidos pelo Ministério
da Saúde em 1994, mas por ordem judicial puderam voltar ao
mercado.
Segundo a Anvisa, esses dois produtos, largamente consumidos pela
população, são ineficazes. Além disso,
o Clarvisol também contém tiomersal. Por decisão
da juíza Lília Botelho Neiva, da 4Vara Federal em
Brasília, a Anvisa teve que publicar, no Diário Oficial
da União de 13 de março, uma portaria suspendendo
a proibição imposta ao Doxium e ao Clarvisol. Consultada
na quarta-feira, a Anvisa reafirmou o veto ao remédios.
- Se dependesse da gente, os dois medicamentos estariam fora do
mercado - disse um assessor do presidente da Anvisa, Gonzalo Vecina
Neto.
O problema não se resume à frouxidão da fiscalização
em relação aos medicamentos proibidos. Segundo relato
de dirigentes da Anvisa à Comissão de Assuntos Sociais
do Senado há duas semanas, dos 22.600 remédios em
circulação no mercado, pelo menos 21 mil não
foram devidamente testados, conforme recomenda a Organização
Mundial de Saúde (OMS).
O GLOBO fez as compras nas farmácias Genérica (Antomiopic),
Vison (Doxium), Santa Marta (Clarvisol) e Dias da Cruz (Flor da
Noite). Todas ficam na área que, conforme a Vigilância
Sanitária, é a mais fiscalizada da capital. As demais
aquisições foram feitas na Rede da Economia Loja 214
Sul (Limão Bravo) e Botika (Porangaba) no Plano Piloto. A
Vison e a Santa Marta são duas das maiores redes de farmácias
do Distrito Federal. A Genérica, pioneira na venda de genérico,
foi inaugurada com a presença do então ministro da
Saúde, José Serra, hoje candidato do PSDB à
Presidência.
- Isso é uma tragédia. Nenhum país sério
aceitaria um descontrole dessa natureza - afirmou Tião Viana
(PT-AC), da Comissão de Assuntos Sociais do Senado.
Situação é ainda mais grave nos municípios
mais pobres
Infectologista e médico com atuação no interior
do Acre, Viana sustenta que a venda de medicamentos danosos é
ainda mais intensa nos estados mais pobres. Segundo ele, remédios
proscritos como a terramicina e a tetraciclina são usados
indiscriminadamente por populações de baixa renda,
sobretudo no Norte e no Nordeste. Esses antibióticos, segundo
ele, têm várias contra-indicações. Uma
delas, provavelmente a principal, é a destruição
da dentição, principalmente se for criança.
COLABOROU Francisco Leali
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