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Genéricos na Imprensa
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02/10
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Lula
defende um governo plural, fala em pacto social e assegura que a
melhor maneira de enfrentar a Alca é brigar pelo Brasil
Fonte:
Revista Istoé - 02/10/2002
Negociar e negociar
Luiz Inácio Lula da Silva quando decidiu ser candidato
pela quarta vez à Presidência da República não
queria ser a repetição do Lula de 1989, de 1994 e
tampouco de 1998. O diferencial: apresentar-se à sociedade
com mais substância, com um programa que pensasse o Brasil
não apenas para os próximos quatro anos, mas para
15, talvez 20 anos à frente de seu tempo. Para começar
a construir os alicerces desse país mais sólido do
sonho de Lula e do PT é preciso mudar o modelo econômico
e devolver a auto-estima ao povo com ações políticas
fortes a fim de pôr a Nação nos trilhos do crescimento,
da geração de empregos e da distribuição
de renda. Mesmo perto de viver o sonho, Lula não quer saber
de já ganhou.
Trabalha voto a voto para chegar lá. A 13 dias da eleição,
esteve na redação de ISTOÉ para expor suas
idéias. O candidato não abre mão da fase paz,
amor e humor, incorporada não apenas à campanha, mas
à sua vida. Ele não vai responder aos ataques dos
adversários, seja de Serra, seja de Ciro ou de Garotinho.
O tom sobe quando Lula fala das questões que ameaçam
a soberania nacional. Para ele, a Alca, do jeito que está,
não é uma política de integração,
mas de anexação. No lugar da guerra fria, entra em
cena a guerra comercial. E, para isso, pretende criar uma secretaria
de comércio exterior. Cada embaixador se transformará
num mascate, para vender ao mundo o que o País tem de melhor.
O diálogo será marca registrada. "Somos capazes
de fazer o grande pacto social que o Brasil precisa." O governo,
defende Lula, tem que conversar com os setores organizados da sociedade
para, inclusive, se livrar da dependência do capital especulativo.
"Queremos acabar com essa história de sermos um país
de economia capitalista onde o capital é proibido para quem
queira tomá-lo emprestado, seja para giro ou para comprar
uma simples geladeira."
ISTOÉ - O que fazer para tirar o País do caos
social?
Luiz Inácio Lula da Silva - Precisamos ter claro que
o número de miseráveis no Brasil não pode continuar
a crescer. Hoje, temos 43 milhões de brasileiros que não
consomem as calorias e as proteínas necessárias. Estão
a um passo de cair num processo de desagregação e
degradação. Nós queremos com o projeto Fome
Zero garantir comida a essas pessoas. O projeto não tem como
filosofia dar peixe a vida inteira, a gente vai querer que eles
pesquem e comam seu próprio peixe. É por isso que
temos medidas de mudanças estruturais e políticas
compensatórias porque quem está com fome não
pode esperar. A questão da distribuição de
renda e da política social são os temas principais,
que permeiam todo o nosso programa de governo.
ISTOÉ - O mercado começa a falar no preço
de um governo
Lula. Que tipo de relacionamento o sr. vai estabelecer com
a banca internacional?
Lula - Estamos vivendo um momento de excepcionalidade no
mundo. A crise não é apenas brasileira, temos os americanos
passando por uma situação complicada. Por outro lado,
os EUA agora têm um presidente que só pensa em guerra
e isso vai criando tensão no mundo. Logicamente causa mais
intranquilidade em países emergentes, como o Brasil. Espero
que o presidente Fernando Henrique afirme o compromisso que assumiu
comigo de fazer uma transição democrática e
a partir de outubro chamar o candidato vencedor para participar
das decisões do governo. Isso pode deixar as coisas muito
mais claras para toda a sociedade e para aqueles que são
os investidores no Brasil. Do ponto de vista teórico, há
três meses não havia razão para fuga de capitais.
Os títulos venceriam em agosto, em setembro, em outubro,
em novembro. Portanto, no governo FHC, com (Pedro) Malan (Fazenda)
e Armínio Fraga (Banco Central).
Se isso acontecesse a partir do dia 1º de janeiro, iriam dizer:
"Ah, foi
por conta do Lula." FHC, como presidente da República
até o dia 31
de dezembro de 2002, tem a responsabilidade de manter a Nação
sob tranquilidade, inclusive quanto à especulação
financeira. Somente eles podem fazer isso. Não é porque
faltam poucos dias para a eleição que nós vamos
aceitar que se crie terrorismo, premeditado ou não,
com relação ao Brasil, porque quem paga o pato é
quem não deve:
o povo pobre deste país.
ISTOÉ - O ex-governador Cristovam Buarque, do PT, defende
que a
antecipação dos nomes da sua equipe econômica
acalmaria o mercado.
O sr. concorda com isso?
Lula - Não concordo. Isso poderia ser a minha derrota,
porque criaria uma fissura interna desnecessária. Você
tem pouco mais de 20 ministros e no mínimo 300 pensando que
vão ser (risos). Seria uma irresponsabilidade total e absoluta
criar uma guerra interna. E mais: se isso fosse verdade, não
estaria acontecendo agora esse problema com o dólar, porque
o Armínio e o Malan vão estar lá até
o dia 1º de janeiro.
ISTOÉ - Só até 1º de janeiro?
Lula - Só.
ISTOÉ - O que o governo Lula faria assim que assumisse
para tranqüilizar os investidores?
Lula - Não acredito que esse mercado vai estar nervoso
no dia 1º de janeiro. Sou otimista, quero trabalhar de forma
otimista. A partir da apuração do processo eleitoral,
as coisas vão começar a se arrumar neste país.
Temos que reconquistar a credibilidade dos setores
produtivos e dos trabalhadores. Isso você não tenha
dúvida que
é a primeira coisa que eu vou fazer.
ISTOÉ - O sr. fala em pacto, mas as reformas propostas
vão contrariar interesses do capital financeiro...
Lula - Vamos ser francos. Até na minha casa, toda
vez que eu quero fazer uma coisa, nem todos os filhos levam partes
iguais. Às vezes, o pequeno chora mais e tem um pouco mais.
Hoje, o governo é o maior responsável pelas altas
taxas de juros. Eu nunca aceitei a idéia de que é
o mercado que regula a taxa de juros, porque quem aumenta é
o governo. Ou seja: é o Brasil que, ao querer vender os seus
títulos, aceita ou não a pressão do sistema
financeiro. O governo não pensou em outro jeito de ter dinheiro,
a não ser vendendo títulos.
ISTOÉ - Qual seria o outro jeito?
Lula - Vamos fomentar no País cooperativas de crédito
e fundos de pensão por categorias. Vamos reativar a economia
investindo, num primeiro momento, nas atividades que não
precisam importar matéria-prima. A construção
civil é um exemplo forte disso. Estamos dispostos a discutir
com a agricultura um incentivo e uma política agressiva para
agregar valor à maioria dos produtos que exportamos. É
isso que me dá a garantia de que a gente vai ter mais dinheiro
interno, sem precisar tanto de dinheiro especulativo. Há
ainda três ingredientes que um país pode oferecer a
investidores estrangeiros, em vez de ativos públicos a preços
muito baratos e a juros altos: infra-estrutura, mão-de-obra
qualificada e mercado. O que falta é ter o governo funcionando
como uma espécie de indutor poderoso, não apenas no
planejamento, mas no incentivo a que as coisas aconteçam
nacionalmente e regionalmente neste país.
ISTOÉ - Há setores no PT e nos partidos de
sua aliança que defendem medidas mais radicais, como moratória.
Qual será a influência deles no seu governo?
Lula - Você acha que no governo FHC todo mundo pensa
igual? Não pensa. Esse é o grande feito do PT no Brasil:
nós brigamos, divergimos, mas vamos a um congresso e aprovamos
uma tese. Portanto, aqui não tem posição para
a direita, nem para a esquerda. Temos um programa que foi feito
e aprovado por 90% do partido e nós vamos executá-lo
com gente do PT e com gente que não é do PT, e até
de nenhum partido. Queremos fazer um governo plural, com gente da
mais alta competência.
ISTOÉ - O sr. ainda é um homem de esquerda?
Lula - Eu nunca me preocupei com isso. O que me dá
mais prazer na vida é não andar com um rótulo
na testa. Quem gosta de marca é gado. Lembro que a primeira
coisa que me perguntaram, no início da minha vida política,
é se eu era comunista. E eu respondi: "Sou torneiro
mecânico." Do ponto de vista filosófico, sou muito
mais socialista. Acho que a riqueza do mundo tem que ser distribuída
de forma mais equânime para toda a sociedade. Vencendo, terei
quatro anos para executar um programa pensando em fazer justiça
social, um mínimo de distribuição de renda.
ISTOÉ - No Ministério da Fazenda e no Banco
Central pode ter gente que não seja do PT?
Lula - Eu pretendo diminuir o papel do Ministério
da Fazenda. Pouca gente neste país mandou tanto como o Malan.
Mandou em nós, porque a subserviência ao Consenso de
Washington foi total e absoluta. O Ministério do Planejamento
vai ter mais força no meu governo. Não será
apenas para fazer orçamento. Será um ministério
para pensar o Brasil globalmente, regionalmente, setorialmente.
O ministro da Fazenda ainda hoje é uma figura muito importante,
e eu não vejo economistas melhores do que os do PT. Alguns
cargos serão do PT, outros não.
ISTOÉ - Como mudar o modelo de desenvolvimento para
evitar que acelere a concentração no Sudeste e no
Sul?
Lula - Se eu ganhar as eleições, quero anunciar
todos os ministros de uma vez. Esses companheiros terão que
fazer uma viagem comigo pelo Brasil. É importante que cada
ministro consiga conhecer as disparidades regionais, tanto do ponto
de vista econômico-social quanto político ou cultural.
Por exemplo, quero que entrem na periferia de algumas grandes regiões
metropolitanas, que conheçam o que é o Vale do Jequitinhonha,
o que é o semi-árido nordestino. As decisões
não serão tomadas em função das pressões
dos que podem chegar perto do presidente da República ou
de algum ministro. Não! Elas têm que ser tomadas pensando
na totalidade do Brasil. O Estado pode promover o desenvolvimento
em algumas regiões em que somente ele, num primeiro momento,
tem interesse em fazer isso. Será que o Nordeste nasceu para
ser pobre a vida inteira? Eu não quero que um ministro tome
decisão apenas com base numa estatística, que é
fria, não tem coração, sentimento. Quero que
eles conheçam o Brasil para que, cada vez que tiverem de
tomar uma decisão, saibam que estão mexendo com gente.
Em oito anos, FHC fez duas reuniões ministeriais e duas de
governos de Estado, nenhuma para discutir desenvolvimento regional.
É um governo que não discute o seu próprio
país.
ISTOÉ - O sr. vai criar um ministério de ação
social?
Lula - Nenhuma precipitação. Execução
eu só quero falar depois de ganhar as eleições.
Ninguém vai sentar na cadeira antes. Ganhando, vamos discutir
internamente o que vai se criar de novo, o que será mantido.
Por exemplo, a FAO detectou que o melhor programa de combate à
fome neste país foi o projeto do leite do Sarney. FHC
acabou com esse projeto sem nenhuma explicação.
ISTOÉ - Houve denúncias de corrupção
na época.
Lula - Mas era uma coisa que envolvia 15 mil entidades da
sociedade civil. Se você tem 15 mil instituições
participando de um programa e consegue detectar 0,5% dela praticando
desvio, é quase nada. Nós nunca devemos partir do
pressuposto que a sociedade vai cometer
erros. É assim que nós precisamos ter a nossa cabeça
funcionando
para poder dirigir bem este país.
ISTOÉ - O sr. manteria alguma das políticas
de saúde implantadas pelo ex-ministro Serra?
Lula - O Serra não implantou política alguma.
O Serra implantou
as coisas que o PT fez.
ISTOÉ - O sr. não vê nada de bom?
Lula - Como é que eu não vejo? Quase metade
das principais pessoas
que trabalharam com o Serra era ligada ao PT, a começar pelo
Davi Capistrano. O genérico foi um projeto de lei do Eduardo
Jorge. Fala-se tanto do genérico, mas vocês sabiam
que o genérico atende apenas 7% da população
brasileira? É muito pouco.
ISTOÉ - Mas ele foi premiado como o melhor ministro
da Saúde do mundo.
Lula - Porque colocou em prática um programa de combate
à Aids que foi feito em Santos no governo da Telma (de Souza).
A saúde é uma coisa delicada, porque mexe com a coisa
mais frágil do ser humano. Quando a gente está doente,
fica um zé-ninguém. Quando vou ao hospital e vejo
aquelas pessoas vestidas com aventalzinho andando pelos corredores,
percebo que elas estão realmente para baixo. Então
esse é o momento em que a gente tem que tratar das pessoas
com carinho. Tratar de saúde muitas vezes é também
uma ação humanitária.
ISTOÉ - Quais são os partidos que o PT pretende
procurar para buscar maioria no Congresso?
Lula - O Congresso nunca foi problema para governo algum.
Quando o Congresso reage é porque o Poder Executivo, por
falta de explicação para a sociedade, fala mal do
Legislativo. Nós temos que trabalhar com duas certezas: a
de que no dia 6 de outubro o povo brasileiro vai eleger o Congresso
Nacional e a cara deste Congresso será a cara político-ideológica
da sociedade brasileira. Portanto, nós vamos ter que negociar.
ISTOÉ - De que forma?
Lula - Pretendo escolher o mais hábil dos políticos
do PT para ser o interlocutor entre
o Executivo e o Legislativo. Será quase uma coisa sistematizada:
reuniões do governo, através do próprio presidente
ou através de
seu líder, com os líderes do Congresso. Isso
para a gente ir se habituando a dialogar não apenas em casos
emergenciais.
ISTOÉ - Os ataques que o PSDB está fazendo
agora nessa campanha não vão prejudicar sua relação
com o partido?
Lula - Minha mãe dizia o seguinte: quando os olhos
não vêem, o coração não sente.
Como eu não vejo os ataques, pois não vejo televisão,
não estou nem preocupado com isso. Parece até que
não teve efeito positivo para o candidato. Isso não
me impede de conversar com o PSDB.
ISTOÉ - FHC fez coalizão com o PFL e muitas
vezes
descontentou o PSDB...
Lula - Ele não fez coalizão. O PFL teve mais
poder no governo FHC
do que se o próprio PFL tivesse eleito o presidente. É
diferente. O PT
tem um programa definido e o PT vai fazer alianças com setores
que queiram cumprir aquele programa. Eu não sei se será
com o PFL. O
PFL não está no nosso espectro de aliança política,
embora o
partido tenha bons técnicos.
ISTOÉ - José Sarney e ACM sempre foram criticados
pelo PT.
Hoje, estão prontos para votar na sua candidatura. Mudou
o PT ou mudaram os dois?
Lula - O mesmo estigma que muitas vezes eu tive de muita
gente, muita gente também teve de mim. Não são
os outros que foram demônios para mim a vida inteira, eu também
fui demônio para eles. As coisas estão mudando no Brasil,
todo mundo está ficando um pouco mais civilizado, mais moderno.
A discussão já não se faz mais como antigamente,
quando tudo tinha um viés ideológico muito forte.
O Sarney tinha
como candidata a filha dele. Ela não sendo candidata, ele
resolveu declarar apoio à minha candidatura e eu aceitei.
O que muita gente gostaria era que eu não tivesse aceitado
e que o porcentual que o Sarney tem de influência de voto
fosse para os meus adversários.
Tudo o que eu puder ganhar de voto eu vou ganhar.
ISTOÉ - Mas eles terão participação
no governo?
Lula - Se eu não estou nem indicando os meus ministros,
por que vou discutir participação no governo? Primeiro,
vamos ganhar as eleições. Nós iremos montar
o melhor governo que este país já teve, tanto do ponto
de vista técnico quanto político. Será um governo
que deixará muitos surpresos com a qualidade das pessoas
que eu vou colocar lá.
ISTOÉ - Qual vai ser a sua política para o
salário mínimo?
Lula - Estou propondo criar as condições para
dobrar o poder aquisitivo do salário mínimo em quatro
anos. Não é muito e não vai pesar. Espero provar
que o salário mínimo tem que ser visto como renda
e não como custo, porque quem tiver R$ 50 de aumento no seu
salário não vai comprar dólar ou carro importado.
Vai comprar comida, roupa. O dinheiro vai voltar para o mercado
no dia seguinte. É por isso que estou convencido de que as
prefeituras podem pagar, estou convencido de que a Previdência
pode pagar, na medida em que a gente recupere concomitantemente
o trabalho formal neste país.
ISTOÉ - O presidente que assumir vai enfrentar uma
negociação sobre a Alca. Qual será a sua posição?
Lula - Eu defendo uma política de livre comércio
com todos os países do mundo, desde que haja uma certa igualdade
na participação desses países. Nós temos
de ter em conta que os EUA têm hegemonia tecnológica,
têm praticamente 80% do PIB da região (o Brasil tem
6%)
e têm ainda lutado por mais hegemonia militar. A Alca, tal
como está proposta, não é uma política
de integração, mas de anexação. Os EUA
aprovaram uma lei destinando US$ 190 bilhões de subsídios
para seus produtos agrícolas, dificultando a entrada de produtos
brasileiros. Eles elevaram para mais de 400 os chamados produtos
considerados sensíveis, ou seja, produtos com os quais o
Brasil poderia disputar o mercado deles. Então eles já
se armaram para não permitir que os produtos brasileiros
entrem e querem começar a negociar a Alca dia 15 de fevereiro?
Nós não seremos anexados. Vamos participar das conversas,
sim, e vamos fazer valer também os interesses da indústriae
da agricultura nacionais nessa mesa de negociação.
ISTOÉ - A sociedade brasileira está consciente
desses perigos que a Alca representa para o Brasil?
Lula - Uma parte está, outra não. A Fiesp tem
um estudo que mostra que o Brasil vai ter muito prejuízo.
Temos que pensar no Brasil como um todo. Caso contrário,
vamos quebrar o pouco de indústria nacional que resta e vamos
quebrar a nossa agricultura. Temos que exportar produtos com valor
agregado. É isso que trará os dólares de que
precisamos para não termos que pedir dinheiro emprestado
ao FMI.
ISTOÉ - Com o avanço dessa postura belicista
de Bush, como seu governo se posicionará em negociações
com o governo americano? Como se portará num cenário
de guerra com o Iraque?
Lula - Primeiro, o ministro das Relações Exteriores
do governo Lula
não tirará o sapato nos EUA, em nenhum aeroporto!
Segundo, o Brasil precisa se respeitar na política internacional.
No mundo da negociação, ninguém respeita quem
entra de cabeça baixa. Vamos ter uma política de comércio
exterior ativa, de preferência democrática, com todos
os países, sem discriminar ninguém, sobretudo com
os EUA, mas o Brasil terá posicionamento próprio.
ISTOÉ - Qual será a política do PT para
os militares e para as áreas de fronteiras?
Lula - Para um país ser respeitado no mundo, ele tem
que ser muito forte do ponto de vista tecnológico, ou econômico
ou militar. O correto é ter as três frentes, como têm
os EUA. O Brasil está sem nenhuma. Nós ficamos fragilizados.
Sou um pacifista de nascença. Agora, isso não significa
que a gente tenha que estar desmontando as Forças Armadas.
Um dia você pode precisar delas. O Brasil assinou o Tratado
de Não-proliferação de Armas Nucleares imaginando
que os EUA fossem cumprir com sua parte: desativar o que têm
e não atacar países que não têm armas
nucleares. Mas não cumprem. Só nós é
que vamos estar proibidos e eles não? Eu vou ficar com uma
rosa na mão para enfrentar as armas deles? O Brasil tem que
exigir que se respeitem os tratados por nós assinados. O
próprio FHC tem feito reuniões com outros governos
querendo rediscutir o acordo. O nosso país não é
uma republiqueta qualquer, é uma nação grande.
Eu quero ser para o povo brasileiro como eles são para o
povo deles: quero primeiro pensar no Brasil, segundo pensar no Brasil,
terceiro pensar no Brasil! Sou favorável a que não
se tenha arma nuclear. Mas entre a minha utopia de um mundo desarmado
e a ganância e a prepotência militar de outros, temos
que nos precaver.
ISTOÉ - Todos os candidatos prometem vigiar a fronteira
para evitar que as armas e drogas entrem e equipar melhor a polícia.
Qual o pulo-do-gato para mudar o cenário de violência
nas grandes cidades?
Lula - Para isto não existe pulo-do-gato. O Estado
brasileiro não estava preparado para enfrentar o tipo de
violência que temos hoje. O narcotráfico e o crime
organizado viraram verdadeiras indústrias multinacionais.
O crime organizado tem braços no Poder Judiciário,
no Congresso, na indústria, no Exterior e na polícia.
Precisamos ter uma polícia que seja mais preventiva e ela
tem que estar preparada tecnicamente, cientificamente. Estamos propondo
um sistema único de polícia, criando uma secretaria
ligada ao Ministério da Justiça.
ISTOÉ - Seu adversário José Serra insiste
em desafiá-lo, dizendo que o número de empregos que
o sr. promete é impossível.
Lula - É porque ele não leu o programa. Nós
afirmamos o seguinte: o Brasil precisa criar no mínimo dez
milhões de empregos. Isso vale para mim e para qualquer um
que se eleja presidente.
ISTOÉ - Com que projeções o sr. trabalha?
Lula - Não trabalhamos com projeção.
Não quero fazer o que fez FHC, que prometeu criar oito milhões
de empregos em 1998, e o saldo no
final do mandato dele são 12 milhões de desempregados.
Eu quero reativar a economia, a agricultura, a construção
civil e, com isso,
gerar empregos. Já fiquei desempregado 11 meses e sei o que
o desemprego causa na cabeça das pessoas, sei o que causa
na estrutura familiar. O povo brasileiro não quer esmola,
ele quer trabalhar e viver
à custa do seu salário.
ISTOÉ - Há um acordo entre o sr. e FHC para
aprovar o foro privilegiado para ex-autoridades, já que o
presidente enfrenta 200 processos de primeira instância?
Lula - Se alguém fez um acordo por mim, falta me dizer.
Eu não tenho essa conversa com o FHC. Se já há
processos, não é o presidente que vai conseguir dificultar
o andamento deles. Se eu ganhar as eleições, a partir
do dia 1º de janeiro não terei tempo de ficar futucando
a vida de quem quer que seja. Só tenho quatro anos de mandato
e vou dedicar 365 dias por ano para pensar no futuro, ver o que
vou fazer e não ficar mexendo nas feridas do passado.
ISTOÉ - Nem nas privatizações?
Lula - A minha prioridade é pensar no dia seguinte,
porque o tempo é curto e eu sei a expectativa que o PT gera
na cabeça de milhões de brasileiros. Qualquer candidato
que for eleito e não der certo, não tem nada, é
mais um que não deu certo. Mas, se é do PT, as exigências
são muito maiores. Portanto, sei o fardo que está
pesando nas minhas costas e sei das coisas que tenho de fazer. Os
empresários, os sindicalistas não têm dimensão
das tarefas que vou dar para eles. Ninguém vai ficar num
canto chorando, não. Vai ter trabalho para todo mundo neste
país.
ISTOÉ - A telefonia já está batendo
na porta do governo para sair do vermelho. O sr. é favorável
a um socorro a esse setor?
Lula - O Brasil não tem dinheiro para socorrer ninguém.
O Brasil precisa ser socorrido. Se temos um problema de gerenciamento
nas agências de regulação, precisamos rediscutir
o processo. Estaremos abertos a negociar com quem quer que seja,
a rever coisas que precisam ser revistas, mas não dá
para um Estado que não tem dinheiro tirar do pouco que tem
para ajudar grandes grupos econômicos que podem trazer dinheiro
de fora e aplicar aqui no Brasil. Aliás, gostaríamos
que fosse cumprida a intenção das privatizações,
que os componentes fossem produzidos dentro do Brasil para gerar
empregos para o povo brasileiro.
ISTOÉ - Em relação ao dia seguinte,
fala-se em fuga de capitais...
Lula - Não acredito nisso. O problema é o seguinte:
em cada campanha se inventa um tema. Em 1989, eram os empresários
que iam fugir. A
fuga de capitais só está na moda hoje por causa da
vulnerabilidade
da economia brasileira, ou seja: um governo que há oito anos
não fez crescer a economia, que subordinou todos os seus
interesses ao dinheiro fácil, sem levar em conta que o que
dá dimensão de nação a um país
é sua capacidade produtiva, de fortalecimento do mercado
interno. Tenho conversado com muitos bancos importantes, que estão
investindo no Brasil há muito tempo, e eles não ficam
com essa estupidez de
tirar dinheiro daqui. Quem age assim são pequenos bancos
de investimento que fazem o papel de agiotas. Lamentavelmente, a
equipe econômica subordinou o Brasil a isso.
ISTOÉ - Como será a reforma agrária
no governo do PT?
Lula - Eu sou a única possibilidade de este país
ter uma reforma agrária tranquila e pacífica, sem
precisar ter nenhuma ocupação de terra e sem precisar
ter nenhuma violência contra quem quer que seja.
ISTOÉ - Por quê?
Lula - Porque nós vamos negociá-la. O Brasil
tem 90 milhões de hectares de terras ociosas, boas para a
produção. Vamos ter que começar a discutir
os assentamentos e vamos fazer da forma correta. Na basta assentar
novas pessoas. É preciso cuidar dos quase quatro milhões
de pequenos proprietários que já estão trabalhando
no campo e não produzem porque não têm política
para o setor. A agricultura é um fator importante, tem sido
o filé-mignon das exportações. Foi a agricultura
que no ano passado nos deu um superávit de US$ 18,5 bilhões.
ISTOÉ - O MST vai invadir?
Lula - Não sei. O MST é autônomo. Não
tem que pedir licença para
nós para fazer as coisas. Eu quero reunir os sem-terra, a
Contag, a
CUT, o governo. Quero pegar os mapas do Brasil, do Incra, e ver
onde
é que está a terra, onde é que estão
esses trabalhadores, para fazer uma reforma civilizada. O que eu
espero é que haja efetivamente boa vontade de todos. Este
país tem lei, tem Constituição e ela serve
para mim, se for eleito presidente da República, e serve
para qualquer outro brasileiro ou brasileira.
ISTOÉ - O candidato Serra está chamando o sr.
para a briga faz tempo. O sr. vai continuar paz e amor?
Lula - (risos) Vou. Sabe por quê? O José Serra
entrou na água e descobriu que não sabe nadar (risos).
Eu vou ficar tranquilo. Quando completei 50 anos, conclui que tinha
menos tempo de vida a ser vivido e iria tentar viver melhor, mais
tranquilamente e com mais humor.
Resolvi sair candidato para provar que o PT está mais preparado
que os outros. Acho que o Brasil precisa de uma experiência
do PT. Então, resolvi fazer uma campanha em que, em vez de
falar mal dos outros, falo bem de mim, bem do PT, das coisas que
fizemos pelo País. Eles que tratem de se defender, de defender
o seu programa. No
último debate, vou estar do mesmo jeito: carinhoso com todo
mundo,
não vou brigar com ninguém. Isso irrita eles? Irrita.
Eles vão bater em mim? Vão. Mas não tem problema.
ISTOÉ - O sr. espera baixaria?
Lula - Quanto mais tiver jogo rasteiro, mais eu vou elevar
o nível.
Você pode ficar certo de que não tocarei em problema
pessoal de nenhum adversário. A minha divergência com
eles é de ordem política. Sou amigo do Serra, sou
amigo do Ciro, sou amigo do Garotinho, já estive junto com
eles em palanque. Não vou jogar fora uma relação
de amizade que vem de 30 ou 40 anos para responder bobagem. Quero
fazer uma campanha de alto nível. E vou fazer.
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