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05/06

Saúde, milagres e populismo

05/06

Para laboratórios, genérico não atinge baixa renda

05/06

Estados processam a Bristol

 

Saúde, milagres e populismo
Fonte: Folha de S.Paulo - 05/06/2002

ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE

O programa do candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, para o setor de saúde é tão imaginativo e revolucionário que o ex-ministro da área o expõe com receio de que venha a ser plagiado pelos demais candidatos (Folha, pág. A5, 21/5).

O projeto tem três capítulos. No primeiro, ele pretende estender o Programa de Saúde da Família, que atenderia atualmente cerca de 50 milhões de indivíduos, a um custo total de apenas R$ 1 bilhão, para 160 milhões de brasileiros, a um custo previsto de R$ 3 bilhões.
Eu bem que estava desconfiando de que esses planos de saúde privados estavam nos explorando. O ex-ministro Serra, com R$ 1,60 por mês, per capita, vai fazer o mesmo que nos custa atualmente entre R$ 200 e R$ 400. Agora já sabemos o que o presidente Fernando Henrique foi fazer no Vaticano e quem será o próximo, depois da madre Paulina, a ser canonizado.

O segundo item se refere a uma redução da mortalidade infantil de 29 para 20 por 1.000. De fato, o Brasil apresentou um significativo progresso nesse ponto nos últimos dez ou 12 anos. O senador atribuiu às administrações estaduais a responsabilidade sobre a epidemia de dengue e chama a si, ao Ministério de Saúde, os encômios pela redução da mortalidade infantil.
Aliás, o ministro sempre omite qualquer menção ao saneamento básico, que negligenciou e sem o qual não há como sustentar um nível aceitável de saúde pública, sem milagres.

A terceira proposta, que o prof. Serra teme que venha a ser considerada populista, refere-se a um teto para cada medicamento, acima do qual a diferença seria paga pelo governo. Para isso seriam destinados R$ 160 milhões, cifra que coincide exatamente com o valor que o Ministério da Saúde atribui atualmente ao Programa do Remédio Popular, isto é, à contribuição do governo federal para o medicamento que é distribuído gratuitamente. Aparentemente, esse novo programa substituiria o do Remédio Popular.

O mercado nacional de medicamentos é hoje de aproximadamente R$ 15 bilhões, com o que a redução de preço seria em média de 1%. O candidato do PSDB pode ficar sossegado, ninguém o chamará de populista, pois, se esta proposta vier a aumentar sua popularidade, será só na indústria farmacêutica.

O Ministério da Saúde anuncia ainda um quarto projeto. A comercialização de genéricos, que já estaria alcançando cerca de 5% do consumo nacional, seria ampliada para 30%. Os genéricos são atualmente comercializados a um preço que está, em média, 35% abaixo daqueles de seus medicamentos de referência. E o que se ganhou com isso? Primeiro, não houve ampliação do acesso ao medicamento, pois o consumo total de remédios, em unidades, é o mesmo.
O que quer que tenha acontecido de bom, foi somente para aqueles que já tinham pleno acesso aos medicamentos. E não foi muito, pois redes de farmácias costumavam oferecer descontos equivalentes. Trocamos seis por meia dúzia.

O que quer que tenha acontecido de bom, foi somente para aqueles que já tinham pleno acesso aos medicamentos

E por que isso aconteceu? Tudo começou no governo Collor, mas se acentuou nas duas administrações FHC. A indústria nacional de química fina, que inclui a fabricação dos princípios ativos dos medicamentos, foi desmantelada com a abertura às importações. O último golpe foi dado por iniciativa do ministro Serra, ao eliminar os últimos resíduos de taxas alfandegárias, como contrapartida para a aceitação do programa de genéricos pela indústria farmacêutica.
Com a abertura econômica, temos hoje um catastrófico resultado, comparável somente ao da Argentina, paradigma para o governo FHC no setor industrial. No setor da química fina, entre 1989 e 99, foram desativadas no Brasil 1.096 unidades e 355 projetos foram cancelados. Destes, 407 unidades e 110 projetos eram da área de fármacos. Mais, 241 unidades e 208 projetos eram do setor de intermediários.

Como consequência, o déficit (importação menos exportação) para a área química passou de US$ 1,2 bilhão para US$ 6,3 bilhões no mesmo período; ou seja, um aumento de 425% em dez anos.

Todavia este não é o único prejuízo devido à abertura intempestiva de nosso mercado nesse setor. Com o sucateamento da nascente indústria de química fina nacional, perdemos a capacidade de avaliar custos de produção dos fármacos, os princípios ativos, que em sua quase totalidade são hoje importados.

O governo federal não é assim tão ignorante que não perceba que é uma batalha inglória a tentativa de conter preços de medicamentos e outros produtos finais sem uma produção interna dos produtos básicos, como os farmoquímicos, os intermediários e os princípios ativos de defensivos agrícolas; sem uma indústria ativa na química fina.

Qualquer política para fornecimento de medicamentos, qualquer política de saúde que não favoreça a produção de insumos no Brasil não passa de uma fachada populista. E é bom que o senador José Serra se acostume com essa classificação, pois a única outra alternativa, a de santo milagreiro, não lhe cai bem, uma vez que diuturnamente acusa seus concorrentes de prometerem milagres.

Rogério Cezar de Cerqueira Leite, 70, físico, é professor emérito da Unicamp e membro do Conselho Editorial da Folha.



Para laboratórios, genérico não atinge baixa renda
Fonte: Valor Econômico - 05/06/2002

Cláudia Lobo, Do Rio

A indústria de remédios de marca (que pesquisa novas fórmulas de fármacos) questiona a capacidade dos genéricos de aumentar o acesso da população à compra de medicamentos. De acordo com estas empresas, os genéricos estariam apenas disputando mesma faixa da população explorada pela indústria de marcas: as classes média e alta, que já tinham condições de consumir remédios.

"A entrada dos genéricos não barateou os preços de forma a aumentar a base de vendas e nem garantiu o acesso da população mais carente", disse o presidente da Interfarma (entidade que reúne os laboratórios pesquisadores de novos medicamentos), Flávio Vormittag. Segundo ele, o indicativo da questão é o balanço da unidade de remédios vendidos pela indústria farmacêutica entre os anos de 2000 e 2001 - primeiro ano de existência dos genéricos.

"Mesmo com a publicidade favorável e o apoio à entrada dos genéricos, o volume de vendas dos medicamentos em geral caiu de 1,288 bilhão de unidades (por embalagem) para 1,249 bilhão, respectivamente", disse. Ainda de acordo com ele, à medida que entrem mais genéricos, a disputa entre os fabricantes aumentará pelo mesmo público - embora reconheça que a concorrência beneficie o consumidor.

Epicentro da questão, os laboratórios de genéricos informam não ter condições de sozinhos alcançarem as classes mais pobres da população. O diretor comercial da Ranbaxy, laboratório indiano gigante de genéricos, Ailton Wiliczinski, diz que a solução do problema, em qualquer lugar do mundo, passa por uma política de governo específica para a questão.
"São 50 milhões de pessoas que não têm renda para acessar os medicamentos. Mas avaliamos que tem que haver a união do governo, dos laboratórios e dos genéricos para resolver o problema", acrescentou Jaime Caetano, diretor da Rationfarma e membro da Pró-genéricos (entidade que reúne os fabricantes de genéricos).

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por sua vez, não concorda com a acusação, afirmando que somente em um ano de existência os genéricos não conseguiriam mudar radicalmente o quadro de queda nas vendas que vem ocorrendo, na verdade, há cinco anos. "Essa queda reflete os altos preços dos medicamentos praticados antes do controle", informou Pedro Bernardo, gerente-geral da área de regulação e monitoramento da Anvisa. Apesar disso, ele garante que em 2002 a tendência já será de os genéricos, no mínimo, estancarem essa redução das vendas dos remédios em geral. "Estimamos que os genéricos significarão pelo menos 10% das vendas de remédios no Brasil em 2002. Isso significa que poderão, inclusive, ganhar escala para alterar os números de queda verificados até agora", explicou.

Ainda segundo Bernardo, a expansão da massa compradora de remédios já está sendo verificada. Ele cita como exemplo a Amoxilina, genérico do Amoxil. De maio de 2000 (quando os genéricos entraram no país) até abril do ano passado, o Amoxil vinha registrando queda no consumo de 320 mil unidades vendidas (por embalagem) para 109 mil unidades, enquanto o genérico Amoxilina teve seu volume de vendas aumentado para 326 mil unidades (partindo do zero nos meses de maio, junho e julho). "A partir dessa data é nítido o salto no consumo da Amoxilina, ao mesmo tempo em que há interrupção na queda de vendas do concorrente", disse, explicando ainda que essa manutenção das vendas do Amoxil significa que a perda de mercado que vinha ocorrendo passa a dar espaço à expansão da base dos medicamentos, só que com favoritismo para o genérico.


Estados processam a Bristol
Fonte: Gazeta Mercantil - 05/06/2002

Lansing, Michigan A Bristol-Myers Squibb foi processada por 29 procuradores gerais estaduais, que acusam a companhia de impedir ilegalmente a venda de versões genéricas do medicamento para o tratamento do câncer de mama Taxol. A Bristol-Myers lutou quatro anos nos tribunais contra os fabricantes de medicamentos genéricos para defender o Taxol, que no ano 2000 conquistou vendas de US$ 1,6 bilhão. A Ivax obteve o direito de comercializar uma cópia do medicamento em setembro de 2000, e as vendas da Bristol-Myers do Taxol caíram 45% nos EUA em 2001.

O processo chega quando as agências federais e estaduais intensificam a investigação da política de preços do setor farmacêutico. Mais de uma dúzia de companhias de tratamento da saúde receberam intimações recentemente, assinalando uma investigação mais ampla pois os aumentos de dois dígitos no custo de medicamentos sob prescrição pressionam os orçamentos para tratamento de saúde federal e estadual.

 
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