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Genéricos na Imprensa
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O
futuro da Indústria Farmacêutica
Fonte: Gazeta Mercantil - 13/06/2002
Farmácias tentam diversificar vendas
São Paulo, - Para os empresários, o comércio
só de remédios não assegura a sobrevivência
das lojas. "O varejo farmacêutico nacional anda de lado".
A afirmação é do presidente da Associação
Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma),
Sérgio Mena Barreto, ao explicar que o setor tem apresentado
apenas crescimento vegetativo. A queixa recai sobre a legislação
vigente, considerada retrógrada por ele por restringir o
mix de produtos a medicamentos e perfumaria, o que torna o mercado
pouco atrativo.
O gerente geral de inspeção e controle de medicamentos
da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa),
Antonio Carlos da Costa Bezerra, diz que há necessidade de
reavaliar a legislação vigente, que é de 1973
e estaria defasada em relação às necessidades
do mercado interno, tanto na oferta quanto no atendimento. "Estamos
na fase final de uma nova proposta, que deverá ser encaminhada
no segundo semestre ao Congresso Nacional. A proposta tem o cuidado,
no entanto, de não descaracterizar os estabelecimentos farmacêuticos.
Os produtos comercializados devem ser de interesse da população
na área da saúde", diz.
Como o resultado líquido financeiro do setor caiu nos últimos
três anos de cerca de 2% para em torno de 1%, várias
farmácias recorrem à Justiça para vender outros
produtos, além dos específicos da área da saúde.
Algumas acabam conseguindo isso.
R$ 15 bilhões em vendas
No ano passado, o faturamento dos associados da Abrafarma chegou
a R$ 3 bilhões, ante um resultado de R$ 2,9 bilhões
em 2000. O setor todo chega a faturar R$ 15 bilhões por ano,
com 55 mil farmácias espalhadas pelo País. Do total
de estabelecimentos, 22,9% são farmácias ligadas a
redes, e 77,1% são independentes, segundo dados da Associação
Brasileira do Comércio Farmacêutico (ABCFarma), que
engloba tanto as redes como as independentes.
"Nos últimos anos tivemos poucas expansões, com
a abertura de algumas lojas, com espaço bem delimitado em
supermercados e a vinda do grupo chileno Ahumada por meio da aquisição
da rede Drogamed, concentrada no Sul do País. E é
só", diz Mena Barreto.
"Quem viria para um mercado com controle de preços,
restrição de venda e uma população com
queda no poder aquisitivo?", pergunta Mena Barreto. O mercado
americano, que fatura US$ 20 bilhões por ano, comercializa
20 mil itens. O Brasil autoriza a venda de apenas 6 mil itens, afirma
o dirigente da Abrafarma.
O gerente geral de inspeção e controle da Anvisa explica
que no mercado americano as farmácias podem vender quase
tudo. Já no modelo europeu a não descaracterização
desses estabelecimentos tem um controle rígido.
Para Mena Barreto, a sobrevivência do setor está justamente
na possibilidade de vender mais produtos e ampliar o acesso a medicamentos
para a população mais carente. "O então
ministro da Saúde José Serra cogitou a idéia
de os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) receberem
o medicamento em qualquer farmácia. Mas, não chegou
a implementá-la", diz Mena Barreto.
Genéricos não ajudam
Até a grande novidade dos últimos anos para a indústria
farmacêutica, que foi o incentivo à produção
de medicamentos genéricos - em média 40% mais baratos
que os de marca -, não teria ajudado o varejo farmacêutico
na avaliação da Abrafarma. O principal argumento está
no fato de que o volume total de vendas de medicamentos no País
não teve alteração no período.
"No segundo ano de produção de genéricos,
registrou-se aumento de 5% no número de clientes atendidos.
Hoje são 50 milhões de consumidores. Entretanto, como
o volume total de medicamentos vendidos não se alterou, conclui-se
que houve apenas substituição do medicamento de marca
pelo genérico", diz Mena Barreto.
Diversificação
Apesar dos indicadores negativos do varejo farmacêutico nacional,
há quem insista em investir nele e crescer. Além do
grupo chileno Ahumada, que se apoia simplesmente no fato do Brasil
ter mais habitantes por farmácia do que no Chile, alguns
grupos nacionais enfrentam a legislação vigente e
diversificam o mix de venda, como é o caso da rede inter-regional
Pague Menos, com sede em Fortaleza (CE) e 21 anos de atuação.
Com 192 farmácias distribuídas em 10 estados e cerca
de 30 cidades, especialmente nas regiões Nordeste e Norte
do País, a Pague Menos vem mantendo uma média de 25
lojas abertas por ano. O presidente da rede, Francisco Deusmar Queiroz,
costuma justificar seus seguidos investimentos dizendo que o Brasil
é um país fadado ao sucesso. "O fantasma da crise
se espanta com trabalho. Sempre haverá consumidor",
afirma. A Pague Menos investe principalmente na diversificação,
com a venda de produtos de limpeza e higiene, além de medicamentos.
As farmácias da rede também atraem consumidores com
serviços de 16 laboratórios de revelação
de filmes. Em 13 de suas farmácias - oito em Fortaleza e
cinco no Piauí - são vendidas passagens de ônibus
rodoviários. Além disso, a rede recebe contas telefônicas,
de água e de luz, e emite documentos de segunda via dos tributos.
O movimento de documentos - que ocorre em 60% das lojas da rede
- soma cerca de 1,5 milhão de títulos recebíveis
a cada mês. "O nosso atendimento mensal chega a 3 milhões
de pessoas", afirma Queiroz. A capital baiana lidera o ranking
de desempenho. "Salvador é atualmente o nosso melhor
mercado, seguido de Recife e Fortaleza", diz.
Somente no ano passado, a rede, que emprega 3,7 mil pessoas, abriu
20 novas lojas entre Recife (PE), Salvador (BA), São Luís
(MA) e Maceió (AL) - cada unidade custa cerca de R$ 300 mil.
A investida ajudou no faturamento do ano, que fechou em R$ 336 milhões,
ante os R$ 260 milhões apurados em 2000, segundo Queiroz.
O faturamento atual coloca a rede Pague Menos na terceira colocação
do varejo farmacêutico nacional. Mas as pretensões
do empresário são maiores. "Estamos projetando
para este exercício uma receita da ordem de R$ 420 milhões",
diz Queiroz. O montante leva em conta a abertura de novas lojas
e a expansão nas vendas, vitaminadas por produtos como cosméticos,
filmes fotográficos, biscoitos, sorvetes e energéticos.
Os planos de instalar uma central de distribuição
em São Paulo, a partir de 2003, continuam firmes, confirma
o empresário. A unidade, orçada em R$ 3 milhões,
vai atender também Goiás, Minas Gerais, Espírito
Santo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande
do Sul.
O
futuro da Indústria Farmacêutica
Fonte: Gazeta Mercantil - 13/06/2002
Governo e indústria divergem sobre consumo
Brasília, - A pesar do crescimento da população
nos últimos anos, o volume de medicamentos vendidos pela
indústria nacional está em curva descendente. Segundo
levantamento da Associação Brasileira da Indústria
Farmacêutica (Abifarma), em 1996 foram comercializadas 1,82
bilhão de unidades. De lá para cá, os números
foram minguando até chegar a 1,41 bilhão no ano passado,
uma redução de 410 milhões de unidades - mais
do que o consumo anual da Argentina, estimado em 380 milhões
de medicamentos. Governo e indústria divergem sobre os motivos
da queda e também sobre as formas para aumentar o poder de
compra da população.
O presidente da Abifarma, Ciro Mortella, afirma que "como medicamento
está ligado à renda", o baixo poder aquisitivo
dos brasileiros seria uma das causas da queda nas vendas. "A
outra é a falta de políticas públicas definidas
para ampliar o acesso ao consumo", aponta. Ao mesmo tempo,
Mortella reconhece os esforços que o governo tem feito na
aquisição de remédios, em especial para aids
e outras doenças de alta complexidade. "Só que
apenas isso não basta para compensar o encolhimento do mercado
privado", diz.
Altos preços
O coordenador geral de Regulação e Monitoramento de
Mercado da Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa), Pedro Bernardo, rebate os argumentos da indústria
e afirma que "se a população está consumindo
menos, os altos preços dos medicamentos são um item
fundamental na equação". Segundo ele, basta comparar
o número de unidades vendidas com o faturamento das empresas
para se chegar a esta conclusão.
"Entre 1996 e 2001, período em que as vendas caíram
22%, o faturamento do setor aumentou de R$ 9,74 bilhões para
R$ 14,07 bilhões - um crescimento de 46%", diz.
Segundo Bernardo, de lá para cá, o preço médio
dos medicamentos, em real, aumentou 86%. "Agora a indústria
quer tirar o foco da discussão e culpar o governo pela crise",
afirma.
Para o presidente da Abifarma, é impossível avaliar
o faturamento do setor, entre 1996 a 2002, levando em conta a moeda
brasileira. "Muitas variantes foram incorporadas de lá
para cá, como aumento da carga tributária, inflação
e diferenças de câmbio", ressalta. Segundo ele,
se analisado em dólar, o faturamento do segmento caiu. Ele
acrescenta que, se utilizada a moeda americana, o preço médio
dos medicamentos também apresenta decréscimo de 24%.
De qualquer forma, Mortella volta a enfatizar que qualquer discussão
sobre o tema passa pelo aumento de renda e não pelo preço
dos remédios. Ele afirma que, ainda que a indústria
baixasse os valores dos remédios em 30% ou 40%, não
conseguiria ampliar o mercado. "A barreira de ingresso não
é o custo, e sim a renda. O mercado não é elástico
a preço", afirma o presidente da Abifarma.
Compras do governo
Segundo o Ministério da Saúde, atualmente o governo
federal gasta em torno de R$ 1,5 bilhão com medicamentos,
distribuídos em diversos programas. Apenas no Farmácia
Básica, que inclui 40 drogas, os gastos aumentaram de R$
45 milhões, em 1998, para R$ 172,4 milhões em 2002.
Outro programa importante é o de Medicamentos Estratégicos,
que inclui os tratamentos de câncer e aids, por exemplo. Neste,
os gastos subiram de R$ 858,2 milhões no ano passado para
R$ 998,7 milhões no presente ano.
Os números do tratamento de prevenção à
aids são os mais significativos. Segundo o Ministério
da Saúde, em 1995 o governo investia R$ 1,38 milhão
em drogas para o combate à doença. Este ano, tem um
orçamento de R$ 516 milhões. Para Bernardo, as negociações
com os laboratórios, com o objetivo de baixar o preço
das drogas, são importantíssimas para o sucesso deste
programa, que é uma referência mundial.
Outro destaque é a comercialização dos medicamentos
genéricos, hoje fundamentais para a política do governo.
"É a lei da oferta e da procura. A partir do momento
que várias indústrias começaram a produzir
um mesmo medicamento, nosso poder de barganha aumentou muito. O
mesmo deverá acontecer com o mercado privado a longo prazo",
diz. Ele conta que, em algumas licitações, o governo
chega a comprar drogas por 10% do valor vendido nas farmácias.
O coordenador admite, no entanto, que o pouco tempo de vigência
dos genéricos ainda não foi suficiente para mudar
radicalmente o quadro de queda na comercialização,
mas aposta numa reversão a partir deste ano. "Estimamos
que os genéricos significarão pelo menos 10% das vendas
dos remédios em 2002. Isso mostra que poderão ganhar
escala para alterar os números do setor", afirma.
Segundo ele, outro fator que começará a se refletir
de forma mais forte este ano é o controle de preços,
iniciado em 2000. "Esta queda de vendas que aí está
ainda reflete a alta de preços praticada antes do monitoramento",
diz Bernardo.
Alguns laboratórios questionam a capacidade dos genéricos
de aumentar o acesso da população à compra
de remédios. De acordo com estas empresas, os genéricos
estariam disputando a mesma faixa das drogas de marca - as classes
média e alta -, que já tinham poder aquisitivo para
adquirir medicamentos. Mesmo com a hipótese de a tese estar
certa, alguns números não podem ser ignorados.
Somente a Eurofarma, que produz o genérico mais vendido e
prescrito no Brasil, a amoxicilina, viu as vendas do medicamento
aumentadas em 119% entre janeiro e dezembro de 2001. Segundo o IMS
Health, instituto de pesquisa da indústria farmacêutica,
outras classes de medicamentos apresentaram crescimento na base
de clientes após a entrada dos genéricos, entre eles
a ceftriaxona, que teve um aumento de 68% na apresentação
frasco/ampola.
Proposta de acesso
Em outubro do ano passado, a Abifarma encaminhou à Câmara
de Medicamentos e à Comissão de Seguridade Social
da Câmara dos Deputados o Programa Nacional de Acesso a Medicamentos
(Pamsus). "É uma fórmula bem sucedida em outros
países e que poderia aumentar a base de consumidores de remédios
no Brasil", afirma Ciro Mortella.
Segundo ele, o projeto garantiria à camada da população
que não tem como comprar remédios, estimada em 50
milhões de pessoas, o acesso à lista Rename, a Relação
Nacional de Medicamentos, que atende às principais patologias
existentes no País. O custo da iniciativa está estimado
em no máximo R$ 4,8 bilhões por ano.
A mecânica do Pamsus, segundo Mortella, é a seguinte:
a partir de dotação orçamentária, o
setor público realizaria pregões para o fornecimento
de medicamentos previstos numa lista previamente determinada. Essas
drogas seriam distribuídas regularmente pelo setor privado
e sua circulação seria isenta de ICMS, numa isenção
proposta por lei complementar. A população retiraria
o medicamento mediante o receituário do SUS, por uma porcentagem
do preço registrado nos pregões - porcentagem que
seria estabelecida pelo governo. Os medicamentos da lista teriam
apresentação especial e seriam acompanhados por um
selo adesivo, em código de barras, a ser anexado à
receita. Mortella ressalta que não é um programa inovador,
já que na Europa e em alguns países tal política
é implementada há mais de uma década.
O projeto está sendo avaliado pelo governo. Bernardo admite
que é válida a intenção da indústria
de ajudar o governo a ampliar a base de consumidores. Todavia, diz
que o Pamsus - e seu sistema de co-pagamento - não atingiria
a população carente. "Nosso foco é quem
não pode pagar absolutamente nada", afirma o coordenador
da Anvisa.
O
futuro da Indústria Farmacêutica
Fonte: Gazeta Mercantil - 13/06/2002
Mercado prepara-se para a reformulação
São Paulo, - Com a lei das patentes e o êxito dos
genéricos, setor farmacêutico prevê o desaparecimento
dos similares. O futuro do mercado farmacêutico nacional começou
a ser traçado em 1996, com a lei de patentes. Três
anos depois, vieram os remédios genéricos, que estabeleceram
uma nova referência de preços para produtos de alta
demanda. Espera-se para os próximos meses o último
grande movimento de reformulação do negócio:
a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
promete baixar até setembro o novo regulamento para produtos
similares - as cópias com marca que até agora dominaram
o varejo de medicamentos passarão por testes obrigatórios
de bioequivalência, uma espécie de garantia de eficácia.
Será concluído, assim, um ciclo de iniciativas que
mudará completamente o mercado brasileiro nos próximos
seis anos.
Existe consenso entre laboratórios nacionais, multinacionais
e o governo sobre esse prazo e, também, a respeito da direção
da mudança: os similares tenderão a desaparecer. O
novo regulamento é quase um atestado de óbito para
as cópias com marca. É o que dizem executivos de empresas
farmacêuticas locais, como Biosintética, Aché
ou Biolab Sanus, e de gigantes estrangeiros, como o norte-americano
Eli Lilly. E da mesma forma que acontece em outros grandes mercados
no mundo, a maior parte do negócio será dividida entre
as inovações patenteadas e os genéricos. Restará
um percentual para os remédios sem receita, os medicamentos
de venda livre, que admitem propaganda de massa e garantem cerca
de 10% do faturamento e 30% do volume de vendas da indústria.
Se o critério da divisão do mercado for o volume de
vendas, a vantagem, no futuro, ficará com os genéricos.
Se a medição tomar como base o faturamento e os ganhos,
as patentes prevalecerão, com folga. "Os similares desaparecerão
do mercado", afirma o vice-presidente do Eli Lilly, Devaney
Bacarin. "Esse esgotamento acontecerá em um prazo curto",
completa o presidente do Aché, José Eduardo Bandeira
de Mello. O Aché, como todos os laboratório nacionais,
obtém boa parte de seu faturamento com similares e busca
saídas para compensar as futuras perdas. Uma dessas saídas
é a venda de fitoterápicos, remédios à
base de plantas. Outra é o fechamento de acordo com multinacionais
para a promoção e venda conjunta de produtos patenteados.
Diante da possibilidade de comprar genéricos, o consumidor
tenderá a deixar de lado, gradualmente, as drogas de referência
e as similares, por razões de preço. Produtos inovadores
cada vez mais especializados, agora protegidos da concorrência
durante o prazo de vigência da patente, correrão em
outra raia - a dos altos lucros, com margens líquidas médias
em torno de 30%. É uma exclusividade temporária. Ao
fim da patente, começarão a enfrentar competidores
genéricos e sua curva de negócios entrará em
baixa. "As novas exigências da Anvisa elevarão
o padrão de qualidade dos remédios vendidos para a
população", diz Flávio Vormitag, diretor
executivo da Interfarma, a associação dos laboratórios
de pesquisa.
Efeito dos similares
Os produtos similares definiram o perfil do mercado nacional nas
últimas décadas. Permitiram que dezenas de empresas
locais prosperassem, mesmo sem oferta interna de matérias-primas
e investimento em pesquisa e desenvolvimento. Para cada patente
internacional, surgiam mais de uma dezena de cópias. Muitas
chegavam a vender mais do que o produto de referência por
causa da boa aceitação médica e de políticas
comerciais agressivas. Isso vai acabar. "Muitas indústrias
perderão interesse em manter suas marcas", afirma a
coordenadora da área de genéricos da Anvisa, Vera
Valente. "E sairão do mercado ou passarão a vender
genéricos".
Os produtos patenteados já garantem 12% do faturamento da
indústria, segundo Bacarin, da Eli Lilly. Os genéricos
ficam com outros 6%, de acordo com a Anvisa - no início de
julho foi atingida a marca de 600 registros de genéricos
no País. Até o final de 2002, inovações
e genéricos terão mais de 20% do mercado. Dentro de
cinco ou seis anos, dizem os especialistas, esse percentual será,
certamente, superior a 50%.
Restará, eventualmente, uma pequena parcela para alguns produtos
similares, com marcas fortes e bom trabalho de divulgação.
Mas essa parcela será insuficiente para sustentar as dezenas
de laboratórios nacionais que hoje dependem do negócio.
"O novo regulamento terá um impacto profundo sobre a
empresa nacional", declara o presidente da Associação
dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (Alanac),
Dante Alario Junior.
Há três anos, não havia nenhum produto patenteado
entre os vinte com maior faturamento do País. Hoje, há
cinco - entre eles, o Viagra, da Pfizer, o Vioxx, da Merck Sharp
& Dohme, e o Xenical, da Roche. A maioria das marcas líderes
de mercado em 1999 sucumbiram à concorrência dos genéricos
e tiveram sua receita reduzida em mais de 75% em alguns casos, como
o do antibiótico Amoxil, do antiinflamatório Cataflan
ou do anti-hipertensivo Capoten.
As novas regras para similares fixadas pela Anvisa, que já
entraram na fase de consulta pública, terão um impacto
de concentração na indústria. Elas estabelecerão,
por exemplo, a exigência de testes de bioequivalência,
equivalência farmacêutica, e certificação
de origem de matérias-primas e boa manufatura para todos
os produtos com marca. Todos os similares do mercado serão
testados no momento de renovação de seus registros,
o que acontece a cada cinco anos.
O atendimento dessas exigências gerará custos adicionais
capazes de inviabilizar alguns pequenos e médios laboratórios.
Só o teste de bioequivalência de cada medicamento custa
cerca de R$ 100 mil. Para se adequar às normas de produção,
serão necessários mais investimentos. Existem, atualmente,
cerca de 250 laboratórios em operação no Brasil.
Há um cruel processo de seleção pela frente.
O mercado farmacêutico brasileiro passa por um momento de
declínio. As vendas no varejo, computadas em dólares,
caíram 12% entre 2000 e 2001, de US$ 6,14 bilhões
para US$ 4,93 bilhões, segundo o instituto IMS Health.
O número de unidades (embalagens) vendidas também
apresentou uma ligeira queda no período, de 1,28 bilhão
para 1,25 bilhão de unidades. Embora continue a ser um mercado
atraente (o décimo faturamento do mundo entre os países
com direitos de propriedade intelectual protegidos), o Brasil se
tornou um lugar mais difícil para se vender remédios.
E quem consegue vender, perde margens de lucro por causa dos altos
custos em moeda estrangeira ou devido à maior competição.
Neste novo cenário, as multinacionais se livrarão
da concorrência com os similares, mas dependerão cada
vez mais de inovações para avançar no mercado
brasileiro. Algumas delas enfrentam problemas globais - sua base
de pesquisa e desenvolvimento não é promissora. Os
laboratórios nacionais, por sua vez, terão a opção
de entrar em novos negócios, como os fitoterápicos,
investir em pesquisa, se associar a empresas estrangeiras ou partir
para o mercado de genéricos.
Aqueles que decidiram vender genéricos têm apresentado
boas taxas de crescimento, mas terão, em breve, uma concorrência
multinacional qualificada e beneficiada pela produção
própria de matérias-primas e pela larga escala de
manufatura. Laboratórios como o canadense Apotec, o alemão
RathioPharm e o indiano Rambaxy, com fábricas de grande capacidade
e distribuição mundial, tratam de instalar unidades
no País.
Indústria marginal
Apesar dos novos rumos do mercado, o que não deve mudar tão
cedo é a dependência aguda de matéria-prima
importada da indústria farmacêutica instalada no País.
O Brasil, tudo indica, tornou-se mesmo uma indústria marginal
na produção de farmoquímicos. Importa quase
tudo que necessita.
Só no ano passado, o saldo da balança comercial do
setor farmacêutico ficou negativa em mais de US$ 2 bilhões.
A importação de produtos acabados representou US$
1,25 bilhão desse déficit e as matérias-primas,
outros US$ 780 milhões, segundo a Abiquif, a entidade da
indústria farmoquímica.
É um custo em moeda estrangeira do qual a indústria
não consegue se livrar. Tanto as inovações
como os genéricos dependem de princípios ativos importados
e seus fabricantes estão impossibilitados de repassar a variação
cambial para o preço final dos produtos, por causa do controle
de preços exercido pelo governo. Mesmo com a ampla oferta
de matéria-prima no mercado internacional, uma coisa é
certa: as margens de lucro do negócio farmacêutico
diminuíram. A alta competição e o baixo índice
de nacionalização dos produtos tornaram mais difícil
a vida dos laboratórios
O
futuro da Indústria Farmacêutica
Fonte: Gazeta Mercantil - 13/06/2002
Anápolis atrai distribuidoras
Brasília, - O crescimento no número de indústrias
farmacêuticas em Goiás, alavancado principalmente pela
migração de empresas para o pólo farmacêutico
de Anápolis, profissionalizou e fez crescer a participação
das distribuidoras de medicamentos desse estado no País.
Já são cerca de 80 em Goiânia - incluídas
aí as que atendem o segmento hospitalar - e outras quatro
em Anápolis, que colocam nas prateleiras das farmácias
o produto das plantas industriais em operação no Distrito
Agroindustrial de Anápolis (Daia). A produção
dessas indústrias está estimada em 90 milhões
de unidades mensais, o equivalente a mais de 5% do total nacional.
O pólo de produção de medicamentos similares
e de genéricos que se formou em 1989, com a chegada da Neo
Química e da Teuto Brasileiro ao Daia, atraiu a atenção
de empresas de variados portes. Somente a Teuto e a Neo Química
produzem cerca de 20 milhões de unidades mensais.
Com a movimentação crescente de cargas, algumas empresas
de Goiás optam por estratégias típicas do eixo
Rio-São Paulo e formam parcerias com distribuidoras de outros
estados. Um exemplo é a associação entre a
paulista Farmais e a goiana Panarelo, que atribuem seus melhores
resultados à capilaridade da estrutura de distribuição.
A Panarelo está entre as três maiores distribuidoras
de medicamentos do Brasil, ao lado da Santa Cruz e da Farmed.
A maioria das distribuidoras goianas, no entanto, optou pela especialização.
A Norte Sul Medicamentos, sediada em Anápolis, tem 16 anos
de atividade e há três assinou contrato de exclusividade
com a Teuto. Antes, a empresa atendia a 104 laboratórios
de São Paulo, Goiás e do Sul. "Ao trabalhar para
apenas um laboratório, não perdemos faturamento, reduzimos
custos e passamos a atuar melhor, porque a logística de distribuição
única é mais ágil do que a entrega partindo
de endereços diferentes", diz Lucinéia Maria
Dias, proprietária da distribuidora. A Norte Sul coloca caixas
de remédios produzidos pela Teuto em 900 farmácias
de Goiás.
O
futuro da Indústria Farmacêutica
Fonte: Gazeta Mercantil - 13/06/2002
O marketing 'healthcare' ganha fôlego
São Paulo, - Correr atrás do inalador para combater
uma forte crise de asma costuma ser um calvário recorrente
na vida de quem padece do mal crônico. O tratamento prescrito
considera duas etapas: a ingestão de remédio para
combater a inflamação e o uso da bombinha para auxiliar
a dilatação dos brônquios.
Na tentativa de reduzir o transtorno na vida do asmático,
os remédios de nova geração foram desenvolvidos
a partir do princípio da "associação fixa".
Ou seja, drogas que cuidam dos dois efeitos simultaneamente e indicam
uma tendência na área médica, como explica Eric
Corrêa de Oliveira, um publicitário e não um
médico, como poderia se supor.
Na gerência geral da OgilvyHealthcare, coligada do Grupo Ogilvy,
Oliveira está em um negócio que começou a prosperar
entre as agências de propaganda por aqui há pouco mais
de dois anos. O atendimento específico às empresas
e aos laboratórios voltados para a saúde, presente
há mais de duas décadas nos EUA, recebe agora a elegante
denominação à inglesa - "healthcare"
- e ganha status, além de atendimento diferenciado nas estruturas
das grandes agências.
A medicação de asma, por exemplo, evoluiu muito nos
últimos tempos. Mas muita gente desconhece o fato, como gosta
de explicar Oliveira, da OgilvyHealthcare. "Uma comunicação
de massa informaria melhor a população sobre avanços
como o do remédio Symbicort, do laboratório Astrazeneca".
Pequenas agências
A prestação de serviços de comunicação
empresarial na área da saúde, até como decorrência
direta das restrições ao uso dos tradicionais meios
de propaganda de massa determinadas pela Agência Nacional
de Vigilância Sanitária (Anvisa), sempre ficou a cargo
de pequenas agências. Há pelo menos 100 delas focadas
no atendimento às necessidades dos mais de 250 laboratórios
atuantes no País.
Essas empresas preparam catálogos e materiais de divulgação.
Fazem anúncios em meios direcionados, como publicações
médicas e científicas. Realizam eventos promocionais,
com destaque para congressos médicos, em que sempre divulgam
a chegada de novas drogas ao mercado. A mídia de massa é
vetada por questões de segurança, assim como para
evitar a tendência da automedicação.Uma das
tradicionais empresas de comunicação dirigida ao meio
médico é a Limay, criada por José Carlos Assef,
ex-executivo da indústria farmacêutica.
Aliás, essa origem costuma ser comum no segmento tal a especificidade
dos conhecimentos exigidos. Outra empresa do gênero, a Corpore
Sano percebeu a movimentação que toma conta do setor
e, para crescer, incorporou-se à holding Prax, dona da agência
W/Brasil. Faturou no ano passado R$ 500 milhões, e o presidente
da agência, Claudio Ferrari, arrisca estimar que o segmento
já movimenta R$ 2 bilhões ao ano no Brasil.
O inevitável envelhecimento da população, o
que requer maior investimento em remédios para controle de
doenças do tipo propensão para acúmulo de colesterol,
é um fenômeno global. Por isso mesmo, tem provocado
discussões sobre as restrições ao trabalho
de comunicação e construção de marcas
pela indústria farmacêutica. A polêmica esta
presente em níveis distintos em todos os mercados mundiais.
No Brasil, apenas 8% dos remédios comercializados podem ser
anunciados como os outros produtos - são os dispensados de
prescrição médica. "Nos últimos
dois anos as empresas do setor reduziram seus investimentos em marketing
em mais de 10%", especula Sérgio Vasconcelos, diretor
executivo de marketing e vendas do laboratório Aché,
apontado com o um dos maiores investidores do setor. "A chegada
dos genéricos provocou dois comportamentos no setor, de um
lado houve quem cortasse os investimentos prejudicados pela forte
presença de genéricos, caso dos hipertensivos",
explica Vasconcelos. "De outro há os que intensificaram,
como analgésico Tylenol da Johnson & Johnson".
O perfil do Aché, dono de 93 marcas e faturamento de R$ 700
milhões no ano passado, não se dirige a investimentos
em promoções do tipo congressos e convenções.
O laboratório montou o maior exército de propagandistas.
São 1,3 mil profissionais que saem Brasil afora levando amostras
de remédios aos médicos dos mais diferentes grotões
do País.
O
futuro da Indústria Farmacêutica
Fonte: Gazeta Mercantil - 13/06/2002
Os desafios das companhias nacionais
São Paulo, - Acordos com empresas de pesquisa e preços
agressivos formam a base da estratégia. O s laboratórios
nacionais que decidiram entrar no mercado de genéricos acertaram.
O esforço do governo federal para estabelecer uma nova política
de medicamentos criou um negócio que mal existia há
dois anos e que já movimenta hoje perto de US$ 300 milhões.
É possível que a concorrência com as multinacionais
dos remédios sem marca dificulte o jogo em um futuro próximo,
mas os primeiros resultados são satisfatórios para
a indústria brasileira.
A venda de genéricos ampliou a participação
de mercado de várias empresas locais. Os fabricantes brasileiros
de remédios cresceram tanto em vendas unitárias como
em faturamento. E, em contrapartida, as multinacionais viram sua
fatia no negócio farmacêutico encolher nos últimos
dois anos. É essa a regra entre as 50 maiores empresas do
mercado nacional.
Os remédios genéricos têm sido o principal caminho
para a expansão da indústria nacional. Mas, parcerias
oportunas com empresas de pesquisa e políticas de preço
agressivas também fazem parte de sua estratégia.
Estrelas em ascensão
Laboratórios como Eurofarma, EMS, Medley e Biosintética,
todos com capital 100% nacional, são as estrelas em ascensão
em um setor que parece estagnado e enfraquecido: quando a evolução
do faturamento da indústria é medida em moeda estrangeira,
verifica-se uma perda de negócios.
Mas a receita em dólar obtida pelo EMS, por exemplo, triplicou
em cinco anos e já supera, com folga, os US$ 50 milhões.
O Eurofarma, apesar da desvalorização cambial e do
controle dos preços dos remédios, mantém o
faturamento estável em torno de US$ 60 milhões. O
Biosintética, com uma linha completa de antihipertensivos,
tornou-se líder de vendas na área cardiovascular no
último trimestre. E o Medley vende mais de US$ 100 milhões
e disputa um lugar no seleto grupo dos 10 maiores laboratórios
do País.
"É uma constatação: a empresa nacional
está ganhando mercado", afirma Marcel Visconde, vice-presidente
de marketing do Biosintética. "E os genéricos
são o fator de desequilíbrio no processo de crescimento".
As vendas de genéricos, iniciadas há cerca de três
anos, já representam cerca de 6% do faturamento total da
indústria com vendas para o varejo, que somou US$ 4,94 bilhões
em 2001, segundo auditoria do instituto IMS Health. Este é
o segmento de mercado que mais cresce no País. E, por enquanto,
ainda está caracterizado pela grande concentração.
Estratégias
Poucos laboratórios orientam suas estratégias para
as vendas de genéricos. Entre eles, estão, justamente,
o Biosintética, o EMS, o Eurofarma e o Medley. Os quatro,
juntos, detêm mais de 70% dos negócios com medicamentos
sem marca no País.
O avanço da indústria nacional pode parecer residual,
mas em um mercado pulverizado como o farmacêutico, em que
o líder de vendas, o franco-alemão Aventis, detém
6,2% de participação, meio ponto percentual faz bastante
diferença. A fatia do Medley cresceu 1,1 ponto percentual
de 2000 para cá e o EMS avançou 0,8 ponto percentual.
Outros laboratórios locais, como o Teuto Brasileiro, o Biolab-Sanus
e o Sigma Pharma, controlado pelo EMS, também ampliaram suas
participações de mercado e seus faturamentos em dólar.
E nem sempre a expansão do negócio esteve diretamente
associada com a entrada nos medicamentos genéricos.
O Eurofarma, dono do antibiótico Benzetacil, garante 30%
de seu faturamento com remédios comercializados no varejo,
mas dividiu seus investimentos em várias cestas. Apostou
em algumas marcas, por exemplo. Ampliou seu esforço de propaganda
e adotou uma política de preços competitiva. Identificou
novos fornecedores de matérias-primas no mercado externo.
O Eurofarma consegue vender o Fluxene, antidepressivo similar ao
Prozac, por um preço 40% mais baixo do que o de concorrentes
genéricos, à base de cloridrato de fluoxetina. E informa
que seu antibiótico amoxicilina custa 30% mais barato do
que outros remédios sem marca.
Esforços de divulgação
"Decidimos reduzir nossas margens de lucro e transferir a vantagem
de preço para o consumidor", afirma Julio Cesar Gagliardi,
diretor comercial da Eurofarma. Mesmo sem produtos inovadores, o
laboratório aposta na manutenção, nos próximos
anos, de suas taxas de crescimento atuais. Para isso, serão
necessários esforços de divulgação.
Sua base de visitação atual é de 75 mil médicos
em todo o País. A meta é elevar esse número
para 120 mil médicos. O núcleo de propagandistas do
laboratório já está sendo ampliado, passando
de 170 para até 181 profissionais.
O Biosintética fechou um acordo internacional com o laboratório
israelense Teva, um dos maiores fabricantes de genéricos
do mundo, mas não perdeu de vista as oportunidades com produtos
inovadores. No ano passado, fechou um acordo de co-marketing (venda
de uma mesma droga com duas marcas diferentes) com o suíço
Novartis, segundo maior vendedor de remédios no Brasil, para
comercialização do antihipertensivo valsartan. O Novartis
vende o produto com a marca Diovan. O Biosintética usa o
nome Tareg. "O medicamento está em fase de introdução,
mas as taxas de crescimento são bastante boas", diz
Visconde.
Co-marketing
O Medley, graças a um acordo de co-marketing com o Knoll,
agora controlado pelo Abbott, ampliou seu faturamento em cerca de
US$ 20 milhões em 2001. A parceria entre os dois laboratórios
envolve a venda da sibutramina, com as marcas Plenty e Reductil,
usadas no tratamento da obesidade.
O maior laboratório nacional, o Aché, que é
dirigido por José Eduardo Bandeira de Mello, voltou aos lucros
em 2001, mas ainda não reverteu sua curva descendente de
participação de mercado.
Como as grandes multinacionais, o Aché, que não participa
do segmento dos genéricos, viu sua fatia no negócio
farmacêutico encolher no ano passado. Suas vendas para o varejo
beiraram os US$ 250 milhões.
Os laboratórios nacionais tem procurado aumentar seus investimentos
em pesquisa, mas as cifras são insignificantes se comparadas
aos gastos dos grandes grupos estrangeiros. Algumas empresas de
pesquisa chegam a investir, anualmente, mais de US$ 2 bilhões
por ano, entre 10% e 15% de seu faturamento, no desenvolvimento
de novas moléculas.
No Brasil, os investimentos dos maiores laboratórios raramente
superam os US$ 4 milhões. É um número que não
sustenta projeções otimistas sobre o avanço
no registro de patentes pela indústria farmacêutica
local.
Casso essa tendência seja mantida, os laboratórios
nacionais não terão muitas outras saídas além
de alimentar uma longa disputa pelo mercado de genéricos.
O
futuro da Indústria Farmacêutica
Fonte: Gazeta Mercantil - 13/06/2002
Destino incerto para os similares
- Os medicamentos similares, que hoje detêm 65% de market
share na indústria farmacêutica nacional, estão
passando por um processo de "arrumação"
no mercado. Em breve, esses medicamentos - que copiam uma fórmula
e adotam outro nome fantasia - deverão se adequar à
nova regulamentação que a Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa) está elaborando.
A Anvisa pode colocar em prática, ainda sem data definida,
testes de bioequivalência ou de eficácia.
A situação confortável do segmento dentro do
mercado ainda é reflexo da inexistência da Lei de Patentes,
de 1996. Até então, os similares brigaram pelo mercado
com os medicamentos de referência com uma política
preços e de divulgação junto a médicos
e varejo. Com a chegada dos genéricos, muitos fabricantes
já pensam em produzi-los e abandonar alguns medicamentos
similares.
"Quem tem um similar com marca pouco conhecida e vendas fracas
deve avaliar se os investimentos com a mudança valerão
a pena. A competição com genéricos de outras
companhias é grande, e a empresa poderá enfrentar
problemas", analisa o presidente da Associação
dos Fabricantes da Indústria Farmacêutica (Abifarma),
Ciro Mortella.
O executivo estima que o número de similares pode se reduzir
por conta dos genéricos. Esta é a mesma opinião
de Sérgio Mena Barreto, presidente da Associação
Brasileira da Rede de Farmácias e Drogarias (Abrafarma).
Ele prevê a ocorrência de um grande afunilamento na
indústria de similares a longo prazo.
Permanência no mercado
Apesar de todo o furor causado pela entrada dos genéricos,
a indústria farmacêutica não acredita no fim
dos similares. "Há produtos muito ruins, mas há
outros excelentes", na opinião de Mena Barreto. O executivo
da Abrafarma acrescenta que a indústria nacional pôde
criar associações e testar combinações
resultando em bons produtos, muitos com marca e credibilidade fortes.
Mortella, da Abifarma, acrescenta que "medicamentos que conquistaram
a fidelização por sua qualidade não deverão
migrar para genéricos". Vera Valente, gerente geral
de Medicamentos Genéricos da Anvisa também aposta
na permanência desses produtos.
Algumas empresas podem buscar opções no mercado de
fitoterápicos ou fitomédicos, como define o diretor
da indústria Aché, José Eduardo Bandeira de
Mello. Ele acredita que se o governo não definir a importância
da indústria farmacêutica genuinamente brasileira no
País com base em estudos científicos e pesquisa, a
indústria nacional de similares não terá muito
fôlego. Bandeira de Mello prevê mais quatro ou cinco
anos de vida para esse segmento.
O
futuro da Indústria Farmacêutica
Fonte: Gazeta Mercantil - 13/06/2002
Os genéricos avançam com rapidez
São Paulo, - Vendas cresceram 500% em 2001 e em três
anos esse tipo de medicamento pode ter 30% do mercado. Após
dois anos de comercialização no Brasil, os medicamentos
genéricos conquistaram uma fatia importante do mercado e
prometem seguir com fôlego invejável. Entre 2000 e
2001, o volume de unidades vendidas cresceu 614% - só no
ano passado, foram comercializadas 70 milhões de unidades.
No mesmo período, o faturamento do segmento saltou 500% -
de US$ 25,4 milhões para US$ 126,7 milhões.
Até 40% mais baratos que os produtos de marca, os genéricos
também ocuparam terreno após a obrigatoriedade legal
dos princípios ativos na prescrição das receitas
médicas. Esses fatores podem impulsionar ainda mais o segmento
nos próximos anos.
"Encerraremos 2002 com 10% do mercado e a meta é avançar
essa participação para 18% em 2003", prevê
o presidente do grupo Pró-Genéricos, Carlos Eduardo
Sanches. "Em três anos os genéricos vão
representar 30% do faturamento e 50% das unidades vendidas no País",
diz. Para ele, 86% dos medicamentos de referência comercializados
poderão ter versão genérica.
Os genéricos já respondem por 6,72% do faturamento
das 1,3 mil lojas associadas à Associação Brasileira
de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma). O Brasil conta
com 582 medicamentos genéricos registrados na Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em mais
de 1,9 mil apresentações. Atualmente, 426 remédios
já estão disponíveis.
Os números espantosos, entretanto, pouco ajudaram no balanço
do mercado farmacêutico em geral, que vem amargando uma acentuada
retração nos últimos anos: entre 1996 e 2002,
o consumo brasileiro caiu de 1,82 bilhão de unidades para
1,6 bilhão. Na avaliação de Sérgio Mena
Barreto, presidente da Abrafarma, a renda baixa e o desemprego provocaram
um deslocamento de consumo dos produtos de marca para genéricos,
sem conquista de novos usuários.
Os genéricos enfrentam outros entraves. Apesar de já
serem bem conhecidos e aceitos pela população (40%
dos entrevistados em uma pesquisa do Ministério da Justiça
pedem para trocar o medicamento prescrito por um genérico
na hora da compra), o consumidor nota a ausência do produto
nas prateleiras da maioria das farmácias de pequeno porte.
Segundo Vera Valente, gerente geral de Medicamentos Genéricos
da Anvisa, o medo desses estabelecimentos é perder receita
por conta desses remédios serem mais baratos. A executiva
lembra que 80% das prescrições médicas ainda
são de remédios de marca. "Se o médico
receita o genérico, acaba estimulando o consumo", acrescenta.
Novos investimentos
De olho no segmento, as indústrias estão injetando
recursos para ampliar e modernizar a produção. Entre
2000 e 2001, os investimentos foram de R$ 396,3 milhões,
segundo levantamento da Anvisa. A empreitada resultou na criação
de 3,5 mil empregos e no aumento de faturamento anual dessas empresas
em até 40%. Quase todo esse investimento foi realizado por
empresas de capital 100% nacional. O Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) criou em maio de 2001 uma linha
de crédito que contempla o financiamento de modernização
e ampliação de plantas. O banco já aprovou
um financiamento de R$ 18,2 milhões para a Medley e estuda
dois outros projetos.
A Medley aplicou R$ 25 milhões em 2001 na ampliação
de sua fábrica em Campinas (SP), aumentando em 10 vezes a
capacidade de algumas linhas de produção.
Já a Biosintética comprou da Aventis (ex-Rhodia),
em dezembro de 2000, uma planta de 25 mil m², que aumentou
a capacidade de produção de genéricos em 25
vezes. No ano passado, o volume de vendas de genéricos da
Biosintética foi responsável por 30% do faturamento
total da empresa, de R$ 200 milhões. Foram 35 milhões
de unidades de medicamentos comercializadas, um crescimento de 19%
em relação a 2000. Este ano, o laboratório
pretende aumentar em 10% a participação dessa categoria
de medicamentos em seu faturamento. Para isso, está investindo
R$ 5 milhões em lançamentos e promoções
de produtos dessa área. Por fim, o laboratório Teuto
inaugurou em dezembro de 2001 uma fábrica de US$ 80 milhões
em Anápolis (GO). Parte da produção será
dedicada aos genéricos.
Entre os novos investimentos das indústrias que já
atuam no segmento, destacam-se os projetos da EMS Sigma Pharma,
que disputa a liderança nacional dos genéricos com
a Medley. A empresa paulista está construindo sua terceira
planta em Sergipe ao custo de US$ 20 milhões, que entrará
em funcionamento ainda este ano, e também espera para o final
de 2002 colocar em funcionamento sua fábrica de sólidos
em Hortolândia (SP), que exigiu recursos de US$ 30 milhões.
Outros US$ 5 milhões serão investidos no primeiro
centro de pesquisa construído por uma indústria farmacêutica,
que será destinado à etapa analítica de testes
de bioequivalência, ensaios clínicos e projetos de
formas farmacêuticas patenteadas. Em 2001, a EMS já
havia duplicado sua planta em São Bernardo do Campo (SP).
Presença das multinacionais
E agora é a vez das multinacionais fazerem mais investimentos
e trazerem novas tecnologias. Muitas delas já atuam no Brasil,
importando medicamentos de suas matrizes. A Ranbaxy, principal fabricante
de genéricos na Índia e sexta maior produtora mundial,
prevê inaugurar sua primeira fábrica na América
do Sul até 2003. A cidade brasileira que receberá
a planta ainda está em estudo. A produção abastecerá
o Mercosul e posteriormente a América Latina. Já a
Hexal, segunda maior produtora de genéricos na Alemanha e
décima mundial, iniciou no final de 2001 a construção
de sua fábrica em Cambé, norte do Paraná, com
investimento de US$ 108 milhões. A unidade terá 38
mil m² e gerará 585 empregos. Em 1999, a Hexal incorporou
o laboratório QIF - Química Intercontinental Farmacêutica,
em São Paulo.
Outra interessada no sucesso dos genéricos é a canadense
Apotex, primeira no ranking do segmento no País com 40% do
mercado. A companhia deve inaugurar a primeira etapa das instalações
fabris em setembro deste ano em Itatiba (SP), com investimentos
iniciais de US$ 8 milhões. A conclusão da fábrica
está prevista para o final de 2003, com capacidade de 1 bilhão
de comprimidos ao ano. "Vamos alcançar a liderança
na produção e comercialização de medicamentos
a preços acessíveis", aposta o presidente da
Apotex Brasil, Isac Correia, que espera faturamento de US$ 20 milhões
e a conquista 3% do mercado brasileiro em 2002.
Outras grandes indústrias estrangeiras também estão
se preparando para ingressar no Brasil, como a espanhola Cinfa,
as indianas Ajanta e Cipla e a alemã Stada.
Nos dois anos de existência, os genéricos também
avançaram no terreno dos similares. "A migração
do consumo atingiu o medicamento de referência e o similar
da mesma forma", comenta o presidente da Associação
dos Fabricantes da Indústria Farmacêutica (Abrafarma),
Ciro Mortella.
A Anvisa pode exigir que esses medicamentos sejam submetidos a padrões
mais rigorosos de qualidade. Com isso, alguns fabricantes poderão
transformar parte da linha de similares em genéricos. É
o caso da Hexal. Mas o processo deve ser demorado. "Só
um estudo de bioequivalência custa cerca de R$ 100 mil",
lembra a gerente de Desenvolvimento de Mercado da empresa, Telma
Salles.
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