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Genéricos na Imprensa
Notícias
Como
fazer do limão, limonada
Fonte:
Correio Braziliense - 18/01/2002
Política
Anamaria Rossi
Da equipe do Correio
O discurso do ministro José Serra é um exemplo claro
de como fazer de um limão azedo uma boa limonada. Ele foi
construído de forma a transformar em virtude - e virtude
essencial a um estadista - uma característica de Serra apontada
por muitos como um de seus defeitos: a obstinação.
Serra pescou no baú da História exemplos de ''obstinados''
que lograram grandes feitos para o Brasil. Começou por Getúlio
Vargas, que sonhou com uma nação industrializada e
foi criticado pelos que queriam manter a ''vocação
agrícola''. ''Sua obstinação e sua competência
fizeram de Volta Redonda o símbolo de uma nova era'', disse.
Emendou com Juscelino Kubitschek: ''A esperança, a teimosia
e a competência de JK criaram a indústria automobilística
brasileira''. Passou pelos líderes da redemocratização.
''Com esperança, obstinação e competência,
Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro e tantos
outros combateram a ditadura.''
Chegou em Fernando Henrique Cardoso, que ''conseguiu derrubar a
superinflação porque juntou, à esperança,
uma grande equipe técnica, obstinação e capacidade
de liderança''. E terminou em si mesmo: ''Obstinação
e competência fizeram com que se passasse apenas um ano até
a chegada da primeira caixa de remédio genérico às
farmácias''.
Consolidada a idéia de que obstinação e competência
são essenciais a um estadista, Serra projetou para o futuro
a dobradinha de qualificativos. ''Só a obstinação
e a competência permitirão montar uma política
que estimule as exportações'', disse.
É o discurso de um obstinado. E dá a medida da disposição
de Serra para encarar o que vier pela frente no caminho que ele
mesmo traçou para chegar à Presidência da República.
Para ele, a política não é a arte do possível,
mas ''a arte de ampliar o possível''.
PSDB
unido lança Serra candidato
Fonte:
O Globo - 18/01/2002
XCapa/O País
Candidato oficial
Catia Seabra
BRASÍLIA Sob o lema "Nada contra a estabilidade,
tudo contra a desigualdade", o ministro da Saúde, José
Serra, oficializou ontem sua candidatura à Presidência
da República pelo PSDB. O discurso de Serra, na solenidade
organizada pelo partido para demonstrar unidade, não deixou
dúvidas: a pefelista Roseana Sarney é a sua adversária
da hora. Num pronunciamento de 20 minutos lido num teleprompter,
Serra evitou críticas explícitas ao governo Fernando
Henrique e mesmo à equipe econômica. Serra, que teve
o governador do Ceará, Tasso Jereissati, ao seu lado durante
a solenidade, fez questão de apresentar sua candidatura como
uma opção competente contra a política do atraso,
as desigualdades sociais, os privilégios e a acomodação,
expressões geralmente associadas ao PFL.
Relembrou o início de sua vida política como líder
estudantil e no combate à ditadura, citou a aceitação
de suas propostas pelos oposicionistas e fez um afago no governador
de Minas Gerais, Itamar Franco. Insistindo no uso das palavras competência,
repetida oito vezes, e obstinação, seis vezes, Serra
criticou oposição e direita sem citar nomes ao falar
da situação da Argentina:
- A principal lição que podemos tirar do sofrimento
dos irmãos argentinos é a do risco que representa
para os destinos de uma grande nação ser conduzida
com fraqueza de vontade política e com incompetência.
Na vida pública, é preciso evitar tanto o radicalismo
populista quanto a fraqueza de vontade, a inépcia, o receio
das pressões, a acomodação, patrimônio
tanto de setores que se consideram de esquerda como também
das forças do atraso, coniventes com a permanência
de uma sociedade injusta - disse Serra, provocando tantos aplausos
que teve de interromper o discurso.
Serra prometeu combater as desigualdades sociais e garantir progresso
para todos. E sem compromissos com privilegiados.
- Progresso não deve ser carro de luxo para alguns, nem
tecnologia para privilegiados. A bandeira do Brasil nunca significou
que podemos ter progresso para alguns e ordem para outros. Se o
progresso não for para todos, não haverá ordem
para ninguém.
Serra cita patentes e genéricos
Serra prometeu fazer "aquilo que não foi possível
fazer" pelo presidente Fernando Henrique. Para provar que tem
competência e obstinação para governar o país,
citou dois exemplos de sua atuação à frente
do Ministério da Saúde: a criação dos
genéricos e a quebra de patentes.
Além de Fernando Henrique, Serra citou outros três
ex-presidentes em seu discurso: Getúlio Vargas, Juscelino
Kubitschek e Itamar Franco. Chamou seus adversários de populistas
e lembrou que o populismo produziu presidentes nocivos para o país.
Pela direita, Jânio Quadros e Fernando Collor. Pela esquerda,
João Goulart.
- Não vou me apresentar como o candidato de mil faces. Mas
teremos mil olhos para enxergar os problemas sociais do país
- afirmou, avisando aos tucanos que exporia o governo Fernando Henrique
como o patamar para o futuro do país.
- Sei que há muito ainda por fazer. Mas vou partir daquilo
que já foi conquistado.
Na cerimônia estiveram presentes os ministros da Educação,
Paulo Renato, do Planejamento, Martus Tavares, da Justiça,
Aloysio Munes e das Comunicações, Pimenta da Veiga.
Também participaram o secretário de Desenvolvimento
Urbano, Ovídio de Angelis e o secretário de Comunicação
Institucional do governo, João Roberto Vieira da Costa. Entre
os governadores estavam Almir Gabriel (PA), Dante de Oliveira (MT),
Tasso Jereissati (CE), Geraldo Alckmin (SP), Marcone Perillo (GO)
e Albano Franco (SE). Os ex-governadores do Rio de Janeiro, Marcello
Alencar, e de Minas Gerais, Eduardo Azeredo, também participaram,
além da filha do falecido governador de São Paulo,
Mario Covas, Renata Covas e a viúva do ex-ministro das Comunicações,
Sérgio Motta, Vilma Motta.
ESTABILIDADE: "A estabilidade de nossa moeda, um objetivo difícil,
caro e precioso, tornou possível melhorar a vida dos brasileiros,
combater a pobreza e aumentar as oportunidades de progresso. Agora,
temos de ir mais longe, temos de avançar e, para isso, precisamos
de esperança, de vontade política e de ação
realizadora"
FERNANDO HENRIQUE: "O Brasil tem seguido um rumo claro desde
o Plano Real, sob as duas administrações do presidente
Fernando Henrique Cardoso, na economia, nas políticas sociais
e na consolidação da democracia. Quero manter as coisas
certas e fazer aquilo que não foi possível fazer"
ITAMAR FRANCO: "Fernando Henrique, levado ao Ministério
da Fazenda por Itamar Franco, conseguiu derrubar a superinflação"
PROGRESSO: "A bandeira do Brasil nunca significou que podemos
ter progresso para alguns e a ordem para outros. Se o progresso
não for para todos, não será para ninguém"
NORDESTE: "O progresso será de todos os brasileiros
somente quando as desigualdades regionais deixarem de ser consideradas
um produto do destino. A esperança, a força de vontade
e a competência dos migrantes nordestinos contribuíram
muito para erguer o parque industrial de São Paulo"
VIOLÊNCIA: "Muitas das grandes cidades são abomináveis
focos de desigualdades. A isto se acrescenta o desperdício
de recursos e a violência, com sua carga de terror e de lágrimas,
de angústia e de luto"
AUTO-RETRATO: "Sou apaixonado pelo trabalho. Valorizo sempre
os diagnósticos objetivos das situações e dos
problemas. Sou otimista na ação. E não compartilho
a tese fácil, cômoda, de que a política é
apenas a arte do possível. Não é nada. Para
mim, política é a arte de ampliar os limites do possível".
Mais
41 genéricos
Fonte:
O Globo - 18/01/2002
Economia
BRASÍLIA. O mercado farmacêutico brasileiro
terá 41 novos medicamentos genéricos, informou ontem
a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Entre as novidades estão produtos para o tratamento de doenças
como câncer, diabetes, hipertensão, osteoporose, hipotiroidismo,
doenças respiratórias e terapias de reposição
hormonal (TRH). Os genéricos custarão 40% menos que
os medicamentos de marca e devem chegar às farmácias
ainda neste semestre.
Uma das doenças que poderá ser tratada com os novos
genéricos é o câncer de próstata. De
acordo com estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca),
foram registrados no país 14.800 novos casos da doença
em 2000, com 6.800 mortes. O frasco com 20 comprimidos do genérico
custará R$ 43,54 - enquanto o de marca (Androcur) custa R$
72,57.
O
discurso de José Serra: "Sou
candidato a presidente da República"
Fonte:
Jornal do Brasil - 18/01/2002
Capa/Brasil
'Íntegra do discurso de José Serra de oficialização
de sua candidatura à Presidência da República
BRASÍLIA - "Com a consciência da responsabilidade
de minha decisão, venho hoje declarar que sou candidato a
presidente da República.
Trago um compromisso com a esperança e a determinação
de trabalhar por um Brasil no qual o progresso seja de todos.
O progresso ou é de todos ou não é duradouro.
Se o progresso for só para alguns, logo não será
de ninguém.
A esperança move as pessoas e reclama delas não apenas
a fé obstinada, mas também a vontade política
e a ação realizadora.
A vontade política, ao mesmo tempo em que cumpre os anseios
da esperança, acrescenta-lhe novos e mais sedutores horizontes.
A ação realizadora, competente e perseverante, é
o que leva o país ao encontro desses horizontes ampliados.
A estabilidade da nossa moeda, um objetivo difícil, caro
e precioso, tornou possível melhorar a vida dos brasileiros,
combater a pobreza e aumentar as oportunidades de progresso.
Agora, temos de ir mais longe, temos de avançar e, para isso,
precisamos de esperança, de vontade política e de
ação realizadora.
O Brasil tem seguido um rumo claro desde o Plano Real, sob as duas
administrações do presidente Fernando Henrique. Eu
quero manter as coisas certas e fazer aquilo que não foi
possível fazer. Tudo isso para trazer mais progresso. E progresso
para todos.
Resumindo em uma frase, com o voto e o apoio dos brasileiros, o
lema do nosso governo será: nada contra a estabilidade, tudo
contra a desigualdade. Tudo a favor do progresso para todos!
Não é um sonho impossível, uma esperança
irrealizável. O Brasil já atingiu capacidade produtiva
e nível de renda bem superiores aos que tinham as nações
asiáticas, no início do processo que lhes permitiu
reduzir a pobreza absoluta de mais de 60 por cento a menos de 10
por cento da população, no espaço de uma só
geração.
Na verdade, o Brasil moderno foi construído sob a liderança
de homens que juntaram a esperança, a vontade e a competência.
Esse foi o caso de Getúlio Vargas, que sonhou com um Brasil
industrializado. Sua obstinação e sua competência
fizeram de Volta Redonda o símbolo de uma nova era. Quando
ele negociava a construção da primeira usina siderúrgica
brasileira, era criticado por querer mudar o que diziam ser uma
vocação "essencialmente agrícola"
de nossa gente.
A esperança, a teimosia e a competência de Juscelino
Kubitschek criaram a indústria automobilística brasileira.
JK trouxe os investimentos estrangeiros puxando-os pela gola. Havia
brasileiros que duvidavam da capacidade dos nossos trabalhadores
e estrangeiros que asseguravam ser impossível fabricar carros
no Brasil. Diziam que era uma utopia, até porque o nosso
clima tropical estragaria os pistões dos automóveis,
cobrindo-os de fungos...
Com esperança, obstinação e competência,
Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro e tantos
outros combateram a ditadura, recuperando a democracia, depois dos
anos de chumbo. Atravessaram uma noite de 21 anos e conduziram o
país a uma nova alvorada.
Podemos dizer que foram muitos os brasileiros que tiveram a esperança
de acabar com a inflação. Durante quinze anos, sofremos
oito planos de estabilização e conhecemos quatro moedas
diferentes. Mas Fernando Henrique Cardoso, levado ao ministério
da Fazenda por Itamar Franco, conseguiu derrubar a superinflação,
porque juntou, à esperança, uma grande equipe técnica,
obstinação e capacidade de liderança.
Os grandes exemplos fazem parte da vida de nosso grande povo. Como
ministro da Saúde, recebi comoventes lições
de generosidade e competência. Orgulho-me de mencionar duas.
Primeiro, a de uma mulher extraordinária: a médica
Zilda Arns. Acreditando na grandeza dos seres humanos, movida pela
fé cristã e conhecedora do espírito de solidariedade
de nosso povo, ela simboliza o trabalho da Pastoral da Criança.
São 150 mil voluntários espalhados por 3 mil e 400
municípios. Atuam nas regiões mais pobres do país.
E, onde trabalham, a mortalidade infantil caiu à metade dos
níveis nacionais.
Também foi no Ministério da Saúde que conheci
um homem extraordinário. O professor Luiz Hildebrando Pereira
da Silva. Tem 73 anos, está aposentado e foi morar em Porto
Velho - Rondônia. Ele foi professor da Faculdade de Medicina
da Universidade de São Paulo. A ditadura o expulsou. Exilou-se
na França e tornou-se um pesquisador de grande prestígio,
do Instituto Pasteur, em Paris. Tentou voltar ao Brasil, mas não
o deixaram ficar e o obrigaram a novo exílio.
Só pôde retornar depois da anistia. E o que faz hoje
o professor Luiz Hildebrando? Está em Rondônia, continuando
as suas batalhas, pesquisando a malária, a hepatite e atendendo
os doentes sem recursos das populações ribeirinhas.
Zilda Arns e Luiz Hildebrando são exemplos de pessoas que
vivem para impulsionar o progresso, e para levar este progresso
a todos os brasileiros e brasileiras.
Este sonho está a nosso alcance. Já vencemos várias
batalhas. Hoje a palavra "genérico" se incorporou
ao vocabulário nacional. Significa remédios de boa
qualidade e mais baratos. Eles não foram invenção
minha, nem do atual governo. Existem no mundo há mais de
quarenta anos. Sempre houve quem os defendesse no Brasil. Havia
a proposta e nada ocorria. Ninguém se dizia contra os genéricos,
mas seus adversários insinuavam sempre que a medida "ficasse
para depois". "Depois," por isso e por aquilo. Mas
sempre "depois'. Esse episódio nos ensina: "depois"
é o disfarce do nunca, a arma predileta do "deixa-como-está".
Obstinação e competência fizeram com que se
passasse apenas um ano até a chegada da primeira caixa de
remédio genérico às farmácias. Devo
reconhecer, aliás, que a bancada oposicionista no Congresso
também apoiou essa medida, bem como todas as outras sobre
a saúde que enviamos ao Congresso.
Ao "fica para depois" junta-se a objeção
do "é impossível". Foi a preferida no caso
da decisão do governo brasileiro de propor e defender, em
circunstâncias justificadas, a quebra de patentes de remédios
essenciais, com o fim de reduzir seus preços.
Seria "impossível", diziam, porque o governo americano
não permitiria. Seria impossível porque, em um mundo
globalizado, a Organização Mundial do Comércio
derrubaria a iniciativa.
Pois foi possível sim, com o apoio da opinião pública
internacional e de centenas de organizações não-governamentais,
com a ajuda dos 150 países da Organização Mundial
do Comércio e com o entendimento do governo do presidente
George Bush. Foi possível porque à esperança
se juntaram a nossa obstinação e nossa competência
negociadora. Conquistamos uma grande vitória internacional,
com repercussão sobre a vida de todas as nações
em desenvolvimento.
Nunca houve e nunca haverá civilizações fechadas
na xenofobia, na desconfiança do
estrangeiro. O Brasil não pode perder tempo discutindo se
deve ou não participar do processo de globalização.
Esse debate é falso. O problema real é outro: quais
são nossas verdades e certezas, quais são nossos interesses
como Nação?
Junto com a globalidade deve-se pensar, sempre, também na
"localidade". O mundo continua sendo feito de nações
soberanas, com suas diferenças, e seus interesses. Países
que seguiram, ou foram obrigados a seguir, as certezas dos outros,
pagaram caro pelas más escolhas. É o caso da Argentina.
Uma certeza, talvez uma conveniência, dos outros (de que o
peso valia um dólar), levou nosso país irmão
às dificuldades que atravessa e das quais espero sinceramente
que logo se liberte.
O que aconteceu na Argentina é um exemplo do que não
devemos fazer. A principal lição que podemos tirar
do sofrimento argentino é a do risco que representa para
os destinos de uma grande nação ser conduzida com
fraqueza de vontade política e com incompetência.
Na vida pública, é preciso evitar tanto o radicalismo
populista quanto a fraqueza de vontade, a inépcia, o receio
das pressões, a acomodação, patrimônio
tanto de setores que se consideram de esquerda como também
das forças do atraso, coniventes com a permanência
de uma sociedade injusta.
No mundo da globalização, o Brasil precisa produzir
mais, exportar mais e gerar grandes excedentes comerciais com o
exterior. Isto reduzirá nossa dependência de financiamentos
externos a proporções mais modestas e, com a estabilidade
da moeda, permitirá reduzir os juros, estimular os investimentos
produtivos, fortalecer as empresas brasileiras, das grandes às
pequenas, e acelerar o crescimento da produção e do
emprego. Mas só a obstinação e a competência
permitirão montar uma política que estimule as exportações,
a substituição de importações, sem criar
cartórios, privilégios e sem fazer favores a empresários
incapazes.
Progresso não deve ser carro de luxo para alguns, nem tecnologia
para privilegiados.
A bandeira do Brasil nunca significou que podemos ter o progresso
para alguns e a ordem para outros. Se o progresso não for
para todos, não haverá ordem para ninguém.
Progresso para todos significa um crescimento econômico no
qual as pessoas vivam sem o medo de perder seus empregos e possam
confiar que seus filhos, depois de educados, terão oportunidades
para trabalhar, construir suas famílias e buscar a felicidade.
O progresso será de todos os brasileiros quando as desigualdades
regionais deixarem de ser consideradas um produto do destino. A
esperança, a força de vontade e a competência
dos migrantes nordestinos contribuíram muito para erguer
o parque industrial de São Paulo. A esperança, a vontade
e a competência farão com que os desníveis regionais
existentes hoje no Brasil sejam combatidos com a necessária
prioridade, como, aliás, já tem sido feito nas áreas
da educação e da saúde.
A mesma atenção merecem os desníveis urbanos.
Muitas das grandes cidades, hoje, são abomináveis
focos de desigualdades. A isto se acrescenta o desperdício
de recursos e a violência, com sua carga de terror e de lágrimas,
de angústia e de luto. Uma situação especialmente
injustificável em um país ainda subpovoado e com tantas
áreas potencialmente ricas para ocupar e desenvolver.
Meus companheiros e companheiras.
Tudo o que aprendi até hoje devo a duas escolas que freqüentei:
a escola pública e a escola da vida pública.
Devo muito à escola pública. Sem ela, não teria
podido estudar e chegar até onde cheguei.
Na escola da vida pública, ingressei como líder estudantil,
há quase quarenta anos, quando apenas saía da adolescência.
Minha atuação foi interrompida bruscamente pelo golpe
de 1964, pela repressão e pelo exílio, que durou 14
anos.
No exterior e aqui dentro participei da luta pela redemocratização.
Tive o orgulho de ocupar a secretaria de Economia e Planejamento
de São Paulo, no governo de Franco Montoro, quando saneamos
as finanças e recolocamos o estado no rumo do desenvolvimento
econômico e social.
Participei ativamente da candidatura vitoriosa de Tancredo Neves,
e fui coordenador do seu plano de governo.
Fui eleito duas vezes deputado e, depois, senador. Na Assembléia
Constituinte, relatei dois dos capítulos mais difíceis:
a construção da moldura dos orçamentos públicos,
e o capítulo dos tributos e da repartição de
receitas e responsabilidades dentro da Federação.
Orgulho-me de ter sido um dos fundadores de meu partido, o PSDB,
ao lado de companheiros como o inesquecível Mário
Covas, e de ter sido coordenador do primeiro programa de governo
do PSDB.
Como deputado, contribuí para fortalecimento dos direitos
sociais, tornando possível o seguro-desemprego e criando
o Fundo de Amparo ao Trabalhador.
Como ministro do Planejamento, ajudei na consolidação
do Plano Real, na recuperação dos investimentos e
concorri para expandir, tornar mais eficiente e descentralizar setores
da indústria brasileira, como o de automóveis, ameaçados
por decisões anteriores imprudentes e mal pensadas.
Fui o primeiro não médico a assumir o Ministério
da Saúde, graças à iniciativa do presidente
Fernando Henrique Cardoso. No Ministério trabalhei muito
para abrir o atendimento à saúde de todos. Ainda falta
muito a fazer , mas ouso afirmar com segurança: hoje, a saúde
está melhor do que ontem e amanhã vai estar melhor
do que hoje.
Apresento esta lista dos trabalhos que fiz porque me orgulho deles
e porque penso que me deram condições para disputar
a presidência da nação. Falo sobre estas passagens
da minha vida pública porque dirigir um país, neste
momento delicado do mundo, é muito difícil. Exige,
mais do que no passado, esperança, força de vontade,
ação competente. Exige amor à verdade e à
razão.
Faço este relato para que me conheçam exatamente
como sou. Sempre fui objetivo e direto. Em toda a campanha será
assim.
Sou obstinado pelas teses que defendo, pondo o interesse público
acima de tudo, em todos os momentos. Sou apaixonado pelo trabalho.
Valorizo sempre os diagnósticos objetivos das situações
e dos problemas. Sou otimista na ação. E não
compartilho a tese fácil, cômoda, de que a política
é apenas "a arte do possível". Para mim,
política é a arte de ampliar os limites do possível.
Ampliá-los ao máximo, até o limite de nosso
engenho e de nossa tenacidade.
Ao longo de toda a minha vida pública acumulei sucessos
e alegrias. Conheci vitórias e derrotas eleitorais. Passei
também angústias e sofrimentos. Orgulho-me disso também,
inclusive de ter sido perseguido pelas ditaduras, no Brasil e no
Chile. Hoje, quero ser presidente porque acredito que posso unir
a esperança com a experiência, o conhecimento com a
ousadia.
Vou lutar ombro a ombro com a militância tucana, os militantes
de base do PSDB, com nossos dirigentes, parlamentares, prefeitos
e governadores. Não hesitaremos em buscar o diálogo
com outros partidos, movimentos sociais e personalidades públicas.
Tenho consciência de que uma ampla convergência de vontades
políticas é importante para a vitória e essencial
para a vida democrática e o êxito da ação
governamental.
Em todos os momentos de minha trajetória política,
sempre trabalhei pela democracia e para servir ao povo brasileiro.
É a este povo que vou pedir o voto e o apoio, para fazermos
desta grande nação uma terra de todos."
Serra,
candidato, pretende leque de alianças
Fonte:
O Esatdo de S. Paulo - 18/01/2002
Capa/Política
O ministro da Saúde, José Serra (PSDB), lançou
ontem sua candidatura à Presidência anunciando que
quer fazer um leque de alianças para eleger-se. Seu lema
em caso de eleição será "Nada contra a
estabilidade, tudo contra a desigualdade"
Serra defende 'estabilidade sem desigualdade'
Ao assumir candidatura, ministro evita atritos com equipe econômica
e prega 'progresso para todos'
CHRISTIANE SAMARCO e JOÃO DOMINGOS
BRASÍLIA - O ministro da Saúde, José
Serra (PSDB), lançou-se ontem na corrida presidencial, antecipando
o lema que pretende adotar em seu eventual governo: "Nada contra
a estabilidade, tudo contra a desigualdade."
Com um "improviso", que na verdade revelou a excelente
memória do ministro para decorar cada palavra e cada pausa
do texto de 14 páginas que ele próprio havia escrito,
ele abriu sua fala em sintonia com a equipe econômica do governo.
"A estabilidade tornou possível melhorar a vida dos
brasileiros, combater a pobreza e aumentar as oportunidades de emprego",
discursou. Serra ressaltou, ainda, que o Brasil tem um rumo claro
desde o Plano Real e que pretende manter "as coisas certas
e fazer aquilo que não foi possível fazer". Ele
frisou, porém, que é preciso ir mais longe, perseguindo
o progresso para todos.
Como era previsto, não houve críticas à condução
da política econômica. Na segunda-feira, porém,
Serra terá um encontro com empresários do Rio e deverá
ser questionado sobre suas idéias para a economia. A iniciativa
é do secretário-geral do partido, Márcio Fortes
(RJ).
Apesar dos aplausos durante o encontro e da presença maciça
de tucanos de Norte a Sul - até do governador do Ceará,
Tasso Jereissati, que se sentou ao lado de Serra -, a aparente coesão
do PSDB não valeu sequer para inibir as primeiras críticas
ao candidato.
Os reparos se ocorreram por causa da menção feita
pelo ministro ao governador de Minas, Itamar Franco (PMDB), considerado
adversário do governo. Ao ressaltar que muitos brasileiros
sonharam em acabar com a inflação, mas só Fernando
Henrique Cardoso conseguiu, Serra fez questão de dizer que
o presidente foi levado ao Ministério da Fazenda pelo peemedebista.
Oposição - Serra falou, em seguida, do leque
de alianças que quer construir para chegar ao Palácio
do Planalto. E fez elogios à oposição pelo
apoio às suas propostas no Congresso.
Em um aceno à Igreja, o ministro citou no discurso a médica
Zilda Arns e seu trabalho na Pastoral da Criança, que fez
a mortalidade infantil cair à metade nas regiões em
que atua.
Depois, ele falou de sua própria "competência
e obstinação negociadora", que lhe deram vitória
na briga em favor dos remédios genéricos e da quebra
de patentes de medicamentos em casos de emergêcia.
A palavra competência apareceu insistentemente na fala do
ministro. Foi assim até no recado aos nordestinos, que fez
a alegria do governador de Sergipe, Albano Franco, atento na platéia.
Serra disse que a esperança, a força de vontade e
a competência dos migrantes nordestinos contribuíram
muito para erguer o parque industrial de São Paulo.
Diálogo - O ministro comentou que não compartilha
a tese "fácil" de que a política é
a arte do possível. "Para mim, política é
a arte de ampliar os limites do possível. Ampliá-los
ao máximo, até o limite de nosso engenho e de nossa
tenacidade".
O ministro lembrou que ao longo de sua vida acumulou sucessos e
alegrias, conhecendo vitórias e derrotas eleitorais. E fechou
a fala prometendo buscar diálogo: "Tenho consciência
de que uma ampla convergência de vontades políticas
é importante para a vitória e essencial para a vida
democrática e o êxito da ação governamental."
Serra
anuncia candidatura e busca PMDB
Fonte:
Folha de S. Paulo - 18/01/2002
Capa/Brasi
ELEIÇÕES-2002 - Serra se lança e promete
realizar o que FHC não fez
Ministro faz aceno a Itamar e elogia competência nordestina;
Lema será nada contra a estabilidade, tudo contra a desigualdade
RAYMUNDO COSTA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Com um discurso de 25 minutos, no qual recolocou Itamar Franco
no panteão do Plano Real, prometeu manter as "coisas
certas" do atual governo, elogiou a oposição
e criticou indiretamente Ciro Gomes (PPS), o tucano José
Serra lançou ontem sua candidatura a presidente sob o lema
"nada contra a estabilidade, tudo contra a desigualdade".
À mesa, organizada sob medida para demonstrar a unidade
dos tucanos, o ministro da Saúde ficou entre o governador
do Ceará, Tasso Jereissati, e José Aníbal (SP),
presidente do PSDB, dois antigos adversários de sua candidatura.
Serra e Tasso se dirigiram um ao outro apenas uma vez. O tom da
reunião foi dado pelo presidente da Câmara, Aécio
Neves. "[É" o PSDB se encontrando e se reencontrando",
disse.
Tasso foi aplaudido quando Aécio lembrou que ele desistira
da candidatura. "O PSDB iniciará e terminará
essa jornada unido. Acima das postulações, existe
um projeto de país". Além de Tasso, os demais
governadores do PSDB -Geraldo Alckmin (SP), Dante de Oliveira (MT),
Marconi Perillo (GO), Albano Franco (SE) e Almir Gabriel (PA)- estavam
presentes. O governador Mário Covas, morto em março
último, foi homenageado na figura da filha, Renata. Serra
abraçou emocionado uma convidada especial: Vilma, viúva
do ministro Sérgio Motta, morto em 98.
Chama o PFL
Serra começou a falar às 13h40. A sala do Espaço
Cultural da Câmara, com 108 lugares, estava abarrotada. Antes
do discurso, as pessoas suavam no empurra-empurra à procura
do melhor lugar. Na confusão, alguém reclamou alto:
"Faltou o PFL para organizar a festa!". Quem não
conseguiu lugar acompanhou o ministro por um telão no salão
ao lado.
Em 14 páginas datilografadas, nas quais introduziu "cacos"
enquanto lia, Serra começou dizendo: "Venho hoje declarar
que sou candidato a presidente da República". Logo no
terceiro parágrafo, uma frase de efeito: "O progresso
ou é de todos ou não é duradouro. Se o progresso
for só para alguns, não será de ninguém".
Serra disse que o país tem um "rumo claro" desde
a implantação do Real. Prometeu manter as "coisas
certas" que levaram à estabilização e
fazer "aquilo que não foi possível fazer".
No lema "nada contra a estabilidade, tudo contra a desigualdade",
sintetizou o sentimento dominante de seu pensamento, segundo o qual
a estabilidade não é uma camisa-de-força que
impeça investir na área social.
Foi também um recado velado para o Nordeste, região
na qual Serra enfrenta dificuldades políticas. Mais explícito
logo adiante, o ministro falou: "A esperança, a força
de vontade e a competência dos nordestinos contribuíram
muito para erguer o parque industrial de São Paulo".
"Brasil moderno"
Serra juntou Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Ulysses
Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro e Fernando Henrique
Cardoso entre os líderes da construção do "Brasil
moderno". Getúlio implantou a siderurgia; JK, a indústria
automobilística; Ulysses, Tancredo e Montoro "atravessaram
uma noite de 21 anos e conduziram o país a uma nova alvorada",
numa alusão ao regime militar e seu fim.
FHC, "levado ao ministério da Fazenda por Itamar Franco",
entrou na relação como o presidente que derrotou a
inflação após 15 anos, oito planos de estabilização
e quatro moedas diferentes.
Na parte referente à sua passagem pela Saúde, Serra
destacou a aprovação dos medicamentos genéricos
e a vitoriosa proposta brasileira que permite a quebra de patentes
de remédios essenciais.
O ministro disse ser falso o debate sobre a inserção
ou não do país no processo de globalização
e citou a Argentina como um exemplo de má subordinação
aos EUA. "Países que seguiram ou foram obrigados a seguir
as certezas dos outros pagaram pelas más escolhas (...) O
que aconteceu na Argentina é um exemplo do que não
devemos fazer", disse.
"Ampliar o possível"
A receita de Serra para o Brasil: "Produzir mais, exportar
mais e gerar grandes excedentes comerciais com o exterior".
A redução da dependência de investimentos externos,
aliada à estabilidade, permitirá, de acordo com Serra,
a queda da taxa de juros, o investimento produtivo, o fortalecimento
das empresas e o crescimento da produção e do emprego.
O ministro reservou a parte final do discurso para fazer uma breve
autobiografia política, do exílio, em 1964, ao Ministério
da Saúde. Declarou-se um "obstinado" pelas teses
que defende e cutucou de leve FHC, que caracterizou seu mandato
como "a utopia do possível". Serra fez uma paráfrase:
"Não compartilho a tese cômoda de que a política
é a arte do possível. Para mim, política é
ampliar os limites do possível".
Churrasco
"Agora vai?", perguntaram a Vilma Motta após o
discurso. "Agora vamos!", respondeu. Ao seu lado, a cearense
Moema Santiago, ex-deputada pelo PSDB, observou: "Mas o discurso
foi morno, não foi?". Segundo muitos tucanos, teria
"faltado emoção" ao discurso.
A festa tucana foi esticada numa churrascaria às margens
do Lago Paranoá. Tasso alegou que tinha compromissos no Ceará
e não foi. O presidente da Câmara, Aécio Neves
(MG), também voltou correndo para o Rio.
Serra deu uma "passadinha", suficiente para percorrer
as duas longas mesas principais e cumprimentar correligionários.
Nem sentou. Foi embora sem comer nada, exceto uma batata frita que
pegou no prato do presidente do partido, José Aníbal.
Colaboraram ELIANE CANTANHÊDE e RAQUEL ULHÔA, da Sucursal
de Brasília
FRASES
O lema do nosso governo será: nada contra a estabilidade,
tudo contra a desigualdade
Quero manter as coisas certas [do governo FHC"] e fazer aquilo
que não foi possível
Fernando Henrique Cardoso, levado ao Ministério da Fazenda
por Itamar Franco, conseguiu derrubar a superinflação
porque juntou, à esperança, grande equipe técnica,
obstinação e capacidade de liderança
A principal lição que podemos tirar do sofrimento
argentino é a do risco que representa para os destinos de
uma grande nação ser conduzida com fraqueza de vontade
política e com incompetência
JOSÉ SERRA
em discurso de lançamento de sua pré-candidatura à
Presidência
"Nada
contra a estabilidade, tudo contra a desigualdade"
Fonte:
Folha de S. Paulo - 18/01/2002
Brasil/ ÍNTEGRA
Leia a íntegra do discurso de José Serra no lançamento
de sua pré-candidatura à Presidência:
Com a consciência da responsabilidade de minha decisão
venho hoje declarar que sou candidato a presidente da República.
Trago um compromisso com a esperança e a determinação
de trabalhar por um Brasil no qual o progresso seja de todos. O
progresso ou é de todos ou não é duradouro.
Se o progresso for só para alguns, logo não será
de ninguém. A esperança move as pessoas e reclama
delas não apenas a fé obstinada, mas também
a vontade política e a ação realizadora. A
vontade política, ao mesmo tempo em que cumpre os anseios
da esperança, acrescenta-lhe novos e mais sedutores horizontes.
A ação realizadora, competente e perseverante é
o que leva o país ao encontro desses horizontes ampliados.
A estabilidade da nossa moeda, um objetivo difícil, caro
e precioso, tornou possível melhorar a vida dos brasileiros,
combater a pobreza e aumentar as oportunidades de progresso. Agora,
temos de ir mais longe, temos de avançar e, para isso, precisamos
de esperança, de vontade política e de ação
realizadora.
O Brasil tem seguido um rumo claro desde o Plano Real, sob as duas
administrações do presidente Fernando Henrique. Eu
quero manter as coisas certas e fazer aquilo que não foi
possível fazer. Tudo isso para trazer mais progresso. E progresso
para todos. Resumindo em uma frase, com o voto e o apoio dos brasileiros,
o lema do nosso governo será: nada contra a estabilidade,
tudo contra a desigualdade. Tudo a favor do progresso para todos!
Não é um sonho impossível, uma esperança
irrealizável. O Brasil já atingiu capacidade produtiva
e nível de renda bem superiores aos que tinham as nações
asiáticas, no início do processo que lhes permitiu
reduzir a pobreza absoluta de mais de 60% a menos de 10% da população,
no espaço de uma só geração.
Na verdade, o Brasil moderno foi construído sob a liderança
de homens que juntaram a esperança, a vontade e a competência.
Esse foi o caso de Getúlio Vargas, que sonhou com um Brasil
industrializado. Sua obstinação e sua competência
fizeram de Volta Redonda o símbolo de uma nova era. Quando
ele negociava a construção da primeira usina siderúrgica
brasileira, era criticado por querer mudar o que diziam ser uma
vocação "essencialmente agrícola"
de nossa gente. A esperança, a teimosia e a competência
de Juscelino Kubitschek criaram a indústria automobilística
brasileira. JK trouxe investimentos estrangeiros puxando-os pela
gola.
Havia brasileiros que duvidavam da capacidade dos nossos trabalhadores
e estrangeiros que asseguravam ser impossível fabricar carros
no Brasil. Diziam que era uma utopia, até porque o nosso
clima tropical estragaria os pistões dos automóveis,
cobrindo-os de fungos.
Com esperança, obstinação e competência,
Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro e tantos
outros combateram a ditadura, recuperando a democracia, depois dos
anos de chumbo. Atravessaram uma noite de 21 anos e conduziram o
país a uma nova alvorada.
Podemos dizer que foram muitos os brasileiros que tiveram a esperança
de acabar com a inflação. Durante 15 anos, sofremos
oito planos de estabilização e conhecemos quatro moedas
diferentes. Mas Fernando Henrique Cardoso, levado ao Ministério
da Fazenda por Itamar Franco, conseguiu derrubar a superinflação,
porque juntou, à esperança, uma grande equipe técnica,
obstinação e capacidade de liderança. Os grandes
exemplos fazem parte da vida de nosso grande povo. Como ministro
da Saúde, recebi comoventes lições de generalidade
e competência. Orgulho-me de mencionar duas.
Primeiro, a de uma mulher extraordinária: a médica
Zilda Arns. Acreditando na grandeza dos seres humanos, movida pela
fé cristã e conhecedora do espírito de solidariedade
de nosso povo, ela simboliza o trabalho da Pastoral da Criança.
São 150 mil voluntários espalhados por 3.400 municípios.
Atuam nas regiões mais pobres do país. E, onde trabalham,
a mortalidade infantil caiu à metade dos níveis nacionais.
Também foi no Ministério da Saúde que conheci
um homem extraordinário. O professor Luiz Hildebrando Pereira
da Silva. Tem 73 anos, está aposentado e foi morar em Porto
Velho, Rondônia. Ele foi professor da Faculdade de Medicina
da Universidade de São Paulo. A ditadura o expulsou. Exilou-se
na França e tornou-se um pesquisador de grande prestígio,
do Instituto Pasteur, em Paris. Tentou voltar ao Brasil, mas não
o deixaram ficar e o obrigaram a novo exílio.
Só pôde retornar depois da anistia. E o que faz hoje
o professor Luiz Hildebrando? Está em Rondônia, continuando
as suas batalhas, pesquisando a malária, a hepatite e atendendo
os doentes sem recursos das populações ribeirinhas.
Zilda Arns e Luiz Hildebrando são exemplos de pessoas que
vivem para impulsionar o progresso e para levar esse progresso a
todos os brasileiros e brasileiras.
Este sonho está a nosso alcance. Já vencemos várias
batalhas. Hoje a palavra "genérico" se incorporou
ao vocabulário nacional. Significa remédios de boa
qualidade e mais baratos. Eles não foram invenção
minha, nem do atual governo. Existem no mundo há mais de
40 anos.
Sempre houve quem os defendesse no Brasil. Havia a proposta e nada
ocorria. Ninguém se dizia contra os genéricos, mas
seus adversários insinuavam sempre que a medida "ficasse
para depois". "Depois", por isso e por aquilo. Mas
sempre "depois". Esse episódio nos ensina: "depois"
é o disfarce do nunca, a arma predileta do "deixa-como-está".
Obstinação e competência fizeram com que se
passasse apenas um ano até a chegada da primeira caixa de
remédio genérico às farmácias. Devo
reconhecer, aliás, que a bancada oposicionista no Congresso
também apoiou essa medida, bem como todas as outras sobre
a saúde que enviamos ao Congresso.
Ao "fica para depois" junta-se a objeção
do "é impossível". Foi a preferida do caso
da decisão do governo brasileiro de propor e defender, em
circunstâncias justificadas, a quebra de patentes de remédios
essenciais, com o fim de reduzir seus preços. Seria "impossível",
diziam, porque o governo americano não permitiria. Seria
impossível porque, em um mundo globalizado, a Organização
Mundial do Comércio derrubaria a iniciativa. Pois foi possível
sim, com o apoio da opinião pública internacional
e de centenas de organizações não-governamentais,
com a ajuda dos 150 países da Organização Mundial
do Comércio e com o entendimento do governo do presidente
George Bush. Foi possível porque à esperança
se juntaram a nossa obstinação e nossa competência
negociadora. Conquistamos uma grande vitória internacional,
com repercussão sobre a vida de todas as nações
em desenvolvimento.
Nunca houve e nunca haverá civilizações fechadas
na xenofobia, na desconfiança do estrangeiro. O Brasil não
pode perder tempo discutindo se deve ou não participar do
processo de globalização. Esse debate é falso.
O problema real é outro: quais são nossas verdades
e certezas, quais são nossos interesses como Nação?
Junto com a globalidade deve-se pensar, sempre, também na
"localidade". O mundo continua sendo feito de nações
soberanas, com suas diferenças e seus interesses. Países
que seguiram, ou foram obrigados a seguir as certezas dos outros,
pagaram caro pelas más escolhas. É o caso da Argentina.
Uma certeza, talvez uma conveniência dos outros (de que o
peso valia um dólar), levou nosso país irmão
às dificuldades que atravessa e das quais espero sinceramente
que logo se liberte.
O que aconteceu na Argentina é um exemplo do que não
devemos fazer. A principal lição que podemos tirar
do sofrimento argentino é a do risco que representa para
os destinos de uma grande nação ser conduzida com
fraqueza de vontade política e com incompetência. Na
vida pública, é preciso evitar tanto o radicalismo
populista quanto a fraqueza de vontade, a inépcia, o receio
das pressões, a acomodação, patrimônio
tanto de setores que se consideram de esquerda como também
das forças do atraso, coniventes com a permanência
de uma sociedade injusta.
No mundo da globalização, o Brasil precisa produzir
mais, exportar mais e gerar grandes excedentes comerciais para o
exterior. Isso reduzirá nossa dependência de financiamentos
externos a proporções mais modestas e, com a estabilidade
da moeda, permitirá reduzir os juros, estimular os investimentos
produtivos, fortalecer as empresas brasileiras, das grandes às
pequenas, e acelerar o crescimento da produção e do
emprego. Mas só a obstinação e a competência
permitirão montar uma política que estimule as exportações,
a substituição de importações, sem criar
cartórios, privilégios e sem fazer favores a empresários
incapazes.
Progresso não deve ser carro de luxo para alguns, nem tecnologia
para privilegiados. A bandeira do Brasil nunca significou que podemos
ter o progresso para alguns e a ordem para outros. Se o progresso
não for para todos, não haverá ordem para ninguém.
Progresso para todos significa um crescimento econômico no
qual as pessoas vivam sem o medo de perder seus empregos e possam
confiar que seus filhos, depois de educados, terão oportunidades
para trabalhar, construir suas famílias e buscar a felicidade.
O progresso será de todos os brasileiros quando as desigualdades
regionais deixarem de ser consideradas um produto do destino.
A esperança, a força de vontade e a competência
dos migrantes nordestinos contribuíram muito para erguer
o parque industrial de São Paulo. A esperança, a vontade
e a competência farão com que os desníveis regionais
existentes hoje no Brasil sejam combatidos com a necessária
prioridade, como, aliás, já tem sido feito nas áreas
da educação e da saúde.
A mesma atenção merecem os desníveis urbanos.
Muitas das grandes cidades, hoje, são abomináveis
focos de desigualdades. A isso se acrescenta o desperdício
de recursos e a violência, com sua carga de terror e de lágrimas,
de angústia e de luto. Uma situação especialmente
injustificável em um país ainda subpovoado e com tantas
áreas potencialmente ricas para ocupar e desenvolver.
Meus companheiros e companheiras. Tudo o que aprendi até
hoje devo a duas escolas que frequentei: a escola pública
e a escola da vida pública. Devo muito à escola pública.
Sem ela, não teria podido estudar e chegar até onde
cheguei. Na escola da vida pública, ingressei como líder
estudantil, há quase 40 anos, quando apenas saía da
adolescência. Minha atuação foi interrompida
bruscamente pelo golpe de 1964, pela repressão e pelo exílio,
que durou 14 anos.
No exterior e aqui dentro participei da luta pela redemocratização.
Tive o orgulho de ocupar a Secretaria de Economia e Planejamento
de São Paulo, no governo de Franco Montoro, quando saneamos
as finanças e recolocamos o estado no rumo do desenvolvimento
econômico e social. Participei ativamente da candidatura vitoriosa
de Tancredo Neves e fui coordenador do seu plano de governo.
Fui eleito duas vezes deputado e, depois, senador. Na Assembléia
Constituinte, relatei dois dos capítulos mais difíceis:
a construção da moldura dos orçamentos públicos
e o capítulo dos tributos e da repartição de
receitas e responsabilidades dentro da Federação.
Orgulho-me de ter sido um dos fundadores de meu partido, o PSDB,
ao lado de companheiros como o inesquecível Mário
Covas, e de ter sido coordenador do primeiro programa de governo
do PSDB. Como deputado, contribuí para o fortalecimento dos
direitos sociais, tornando possível o seguro-desemprego e
criando o Fundo de Amparo ao Trabalhador.
Como ministro do Planejamento, ajudei na consolidação
do Plano Real, na recuperação dos investimentos e
concorri para expandir, tornar mais eficiente e descentralizar setores
da indústria brasileira, como o de automóveis, ameaçados
por decisões anteriores imprudentes e mal pensadas.
Fui o primeiro não médico a assumir o Ministério
da Saúde, graças à iniciativa e à persuasão
do presidente Fernando Henrique Cardoso. No ministério trabalhei
muito para abrir o atendimento à saúde de todos. Ainda
falta muito a fazer, mas ouso afirmar com segurança: hoje,
a saúde está melhor do que ontem e amanhã vai
estar melhor do que hoje.
Apresento essa lista dos trabalhos que fiz porque me orgulho deles
e porque penso que me deram condições para disputar
a Presidência da nação. Falo sobre essas passagens
da minha vida pública porque dirigir um país, neste
momento delicado do mundo, é muito difícil. Exige,
mais do que no passado, esperança, força de vontade,
ação competente. Exige amor à verdade e à
razão. Faço esse relato para que me conheçam
exatamente como sou. Sempre fui objetivo e direto. Em toda a campanha
será assim. Sou obstinado pelas teses que defendo, pondo
o interesse público acima de tudo, em todos os momentos.
Sou apaixonado pelo trabalho. Valorizo sempre os diagnósticos
objetivos das situações e dos problemas. Sou otimista
na ação. E não compartilho a tese fácil,
cômoda, de que a política e apenas "a arte do
possível". Para mim, política é a arte
de ampliar os limites do possível. Ampliá-los ao máximo,
até o limite de nosso engenho e de nossa tenacidade.
Ao longo de toda a minha vida pública acumulei sucessos e
alegrias. Conheci vitórias e derrotas eleitorais. Passei
também angústias e sofrimentos. Orgulho-me disso também,
inclusive de ter sido perseguido por duas ditaduras, ou seja, exilado
ao quadrado, no Brasil e no Chile. Hoje, quero ser presidente porque
acredito que posso unir a esperança com a experiência,
o conhecimento com a ousadia.
Vou lutar ombro a ombro com a militância tucana, os militantes
de base do PSDB, com nossos dirigentes, parlamentares, prefeitos
e governadores. Não hesitaremos em buscar o diálogo
com outros partidos, movimentos sociais e personalidades públicas.
Tenho consciência de que uma ampla convergência de vontades
políticas é importante para a vitória e essencial
para a vida democrática e o êxito da ação
governamental.
Em todos os momentos de minha trajetória política,
sempre trabalhei pela democracia e para servir ao povo brasileiro.
É a este povo que vou pedir o voto e o apoio, para fazermos
desta grande nação uma terra de todos.
José
Serra, o candidato
Fonte:
Folha de S. Paulo - 18/01/2002
XColuna
ELIANE CANTANHÊDE
BRASÍLIA - Em 25 minutos de discurso, o tucano Serra
deixou todas as pistas de como serão os seus nove meses de
campanha.
1) Forçou uma comparação quase subliminar.
Roseana Sarney (PFL) dá prioridade à forma, não
ao conteúdo, e ele fez o contrário. Os elogios ao
discurso foram fartos. Mas as críticas à falta de
emoção também.
2) Aluno de teatro quando jovem, Serra evitou dar um pulo da imagem
de ministro sisudo e competente que as pessoas conhecem e aprovam
para a imagem de candidato alegre, saltitante, palanqueiro. Manteve
a pose.
3) Não citou, mas seguiu à risca a idéia básica
da "continuidade sem continuísmo", traduzida por
um slogan longo demais para encantar o eleitorado: "Nada contra
a estabilidade, tudo contra a desigualdade".
4) Enfatizou todo o tempo três qualidades que os aliados lhe
reconhecem e os eleitores lhe atribuem em pesquisas: esperança,
obstinação e competência. Evidentemente, esqueceu-se
dos defeitos.
5) Citou os símbolos óbvios de qualquer candidatura
de centro e democrática: Ulysses Guimarães, Tancredo
Neves e Franco Montoro. E os símbolos de presidentes bem-sucedidos,
de boa lembrança: Getúlio Vargas (apesar de tudo)
e Juscelino Kubitschek.
6) Elogiou a esquerda, que ajudou a aprovar os genéricos,
e... surpresa! citou Itamar Franco.
Tudo para favorecer, mais adiante, uma "ampla convergência
de vontades políticas".
José Serra falou como José Serra. E falou, sobretudo,
sem pressa. Aos que querem salamaleques de marketing, pulos nas
pesquisas, grandes movimentos, avisou ontem em rápido telefonema
para a coluna: se alguém está com pressa, não
é ele.
Ao se transformar no único candidato do PSDB, ele bem ou
mal uniu os tucanos. Agora, quer acordar as bases estaduais do partido,
gerar segurança nos aliados e crescer devagar e sempre. Como
Mário Covas na última campanha em São Paulo.
Serra começou ontem uma prova de resistência. Acha
que não ganha o mais rápido, ganha o mais forte.
Farmácias
terão mais genéricos
Fonte:
Jornal de Brasília - 18/01/2002
Brasil
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) vai autorizar, nos próximos dias, a fabricação
de remédios genéricos à base de hormônios
produzidos em laboratórios.
Os medicamentos são usados em tratamentos de osteoporose,
câncer na próstata, hipertensão, diabetes, hipotireoidismo
e terapias de reposição hormonal (TRH). Com o preço
40% inferior ao dos remédios de marca, os novos genéricos
devem começar a ser vendidos em junho.
Uma das substâncias incluídas na nova lista de genéricos
é o acetato de ciproterona, droga utilizada na terapia clínica
do câncer de próstata. O frasco com 20 comprimidos
da marca Androcur tem preço máximo de R$ 72,57 nas
farmácias. Já o genérico será vendido
por R$ 43,54, segundo cálculos da Anvisa. O uso da droga
exige acompanhamento médico, pois pode causar danos à
libido e ao sistema cardiovascular.
"Os genéricos à base de hormônios sintéticos
vão garantir os mesmos efeitos dos remédios de marca
por um preço mais em conta", afirmou Vera Valente, diretora
da área de Genéricos da Anvisa.
Saúde
ainda tem poucos recursos
Fonte:
Gazeta Mercantil - 18/01/2002
Apesar de dispor de cerca de 25% dos recursos do Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
para pesquisas, o setor de Saúde ainda sofre com a carência
de recursos. Com a fonte permanente de recursos que virá
da criação do fundo, o setor terá, em 2002,
R$ 91 milhões. O dinheiro deverá ser encaminhado para
pesquisas sobre Aids e câncer, além de medicamentos
genéricos.
Os R$ 39 milhões em recursos para biotecnologia servirão
para dar continuidade às pesquisas de seqüenciamento
genético, tratamento de doenças, novos medicamentos
e desenvolvimento e aperfeiçoamento de alimentos. A área
conta com 1,7 mil grupos de pesquisas e cerca de 300 empresas no
Brasil.
O setor de agronegócios, responsável por 30% do PIB
brasileiro, terá R$ 91 milhões para desenvolver novas
tecnologias. Entre as áreas que devem receber os recursos,
estão a biologia molecular, agricultura orgânica e
de precisão e estudos sobre mudanças ambientais.
O setor aeronáutico ganha um novo mecanismo de financiamento
que chega no rastro de sucesso da Embraer, que demonstra o potencial
brasileiro na área. Com R$ 39 milhões para gastar
no ano que vem, o fundo deverá apoiar projetos de pesquisa
sobre comunicações, controle de tráfego e meteorologia.
O Centro Técnico Aeropespacial (CTA) deverá ser um
dos beneficiados. (A.G.)
Serra
faz o discurso da continuidade e ataca "fraqueza e incompetência"
Fonte:
Valor Econômico - 18/01/2002
Brasil
Marcelo de Moraes, De Brasília
Com um discurso pouco emocional, o ministro da Saúde, José
Ser |