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19/01

Planos que atravessam a madrugada

19/01

PSDB do S

Planos que atravessam a madrugada
Fonte: Jornal do Brasil- 19/01/2002


Brasil

Serra elogia Armínio Fraga, promete aliviar carga tributária, segue agenda de ministro e rebate falta de carisma

GUSTAVO KRIEGER E CARMEN KOZAK

BRASÍLIA - A cena remetia a uma daquelas maratonas em que o astro do filme passa horas respondendo às mesmas perguntas para repórteres diferentes. No caso de José Serra, a sessão entrou pela madrugada. Desafio para um político que assume como maior defeito a falta de paciência até para esperar elevador. Quando conversou com o JORNAL DO BRASIL, pouco antes da meia-noite de quinta-feira, Serra não disfarçava o cansaço. Não quer lançar farpas contra antigos concorrentes, como Tasso Jereissati, ou contra quem ainda pode ser aliada, como Roseana Sarney.

Acima de tudo, não agüenta mais ouvir a pergunta: manteria Pedro Malan como ministro da Fazenda? Não responde. Até Malan sabe que não ficaria. Vem da equipe econômica, contudo, o primeiro nome certo num eventual governo Serra. Armínio Fraga continua. ''Ele é um bom presidente do Banco Central'' elogia.

Uma crítica acompanha Serra mesmo no PSDB. É descrito como político sem carisma ou simpatia. Técnico com dificuldades para empolgar palanques. ''Tenho 40 anos de vida pública'', observa. ''Se tudo que existe contra mim se resume a falta de carisma ou antipatia, tudo bem''. E continua. ''No Brasil, quem ganha eleição é carismático, quem perde não. Dizem que não tenho carisma porque perdi as eleições para a prefeitura em 1996. Que o Celso Pitta venceu porque era carismático. E, agora, o Pitta continua assim?''.

Serra, fã de ''A marca da maldade'', filme de Orson Welles, pretende mostrar uma face mais animada na campanha. Quão sorridente? Ainda não sabe. Repetiria Fernando Henrique e subiria num jegue com chapéu de couro para angariar votos no Nordeste? ''Vamos ver se isso é necessário''.

Citar índices de pesquisas que o colocam com 7% na preferência do eleitorado é método certeiro para acabar com qualquer sinal de humor em Serra. ''Eleição só começa a se definir depois da Copa do Mundo'', justifica. ''O que incomoda é o tempo perdido comentando pesquisas.''

Dono de memória privilegiada, lembra que, em 1994, o candidato Fernando Henrique apresentava números parecidos oito meses antes da eleição. E venceu no primeiro turno. Apesar disso, o ministro sabe que os dados dos levantamentos pesam na campanha. ''Os jornais adoram publicá-los e as notícias influenciam os políticos.''

Aposta em reverter o quadro com aparições nos programas do PSDB no rádio e na TV. Vai se mostrar um executivo. ''Idéias boas existem de sobra por aí'', ironiza. ''O eleitor não decide com base no que o candidato diz, mas pela capacidade que tem de cumprir promessas''.

Como bom especialista, o candidato já montou, na cabeça, o programa econômico de governo. Uma receita diferente dos últimos oito anos. Quer investir no crescimento da produção industrial e das exportações. Promete desenvolvimento e acena com menos voracidade da Receita Federal. ''Temos de fazer a reforma tributária para acabar com os impostos cumulativos.''

Nesta primeira fase como candidato, quer conversar com dirigentes regionais, municipais e parlamentares tucanos. Animá-los para a disputa com argumentos para defender o voto nele, Serra. Contatos com o eleitorado vão se restringir à agenda de ministro da Saúde, como ontem, ao inaugurar um hospital em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Até meados de fevereiro, quando deixa o cargo, cumprirá vasta programação. Inaugura obras, distribui auxílio a famílias carentes. Uso da máquina? Discorda. ''Vou continuar trabalhando como os governadores candidatos à Presidência, como Roseana Sarney (Maranhão) ou Anthony Garotinho (Rio). Eles não estão inaugurando obras?''

''Sou candidato do presidente da República''

Ministro e candidato: ''Não vejo problema em ser candidato e ministro. É a mesma coisa que fazem os governadores em campanha pela Presidência. O prazo de desincompatibilização é abril e pretendo sair em fevereiro. Não há uso de máquina.''

Candidato chapa-branca: ''Serei o candidato do presidente da República, mas isso não significa que o governo tem candidato.''

Exportar para crescer: A ponta do barbante da estratégia econômica é o estímulo à produção, às exportações. Precisamos substituir importações para reduzir o déficit em conta corrente, os juros e garantir o crescimento da economia. Teremos mais emprego. É perfeitamente possível substituir importações e manter níveis de competitividade sem criar cartórios ou favorecer empresários ineficientes.

O que faltou na era FH: A reforma tributária ficou pendente e terá de ser feita. O setor elétrico precisa ser reformulado. O atual governo até começou a fazer isso. O modelo de privatização pré-existente não funcionou.

Reforma Tributária - Relatei o capítulo da Ordem Tributária na Constituinte e incluí a proibição dos impostos em cascata. Mas a cumulatividade veio pelas contribuições sociais, destinadas a financiar a Seguridade Social. O critério da reforma tributária tem que ser o de melhorar a eficiência do sistema. É necessário implantar um sistema que não prejudique a competitividade dos produtos no exterior. O fundamental é o governo definir a proposta, mandar para o Congresso e trabalhar pela aprovação.

Redução dos juros - Não sou pessimista em relação à redução dos impostos. Com a economia voltando a crescer 4,5% ao ano poderemos aumentar o gasto público federal e estadual em 3% a cada 12 meses. Dá para baixar a carga tributária sem diminuir a arrecadação.
Banco Central - É importante a independência do Banco Central. O único problema é a indemissibilidade dos diretores. Esse ponto exige cuidadoso debate para evitar dor de cabeça depois.

Demissão no BC e nas agências reguladoras - A impossibilidade de demitir diretores nas agências reguladoras me incomoda. É desejável que elas, como o Banco Central, estejam resguardadas de pressão política. O assunto exige debate.

Argentina X Eleição: Presumo que a crise argentina influenciará as eleições. E olhe que o presidente De la Rúa não era nenhum populista radical. A Argentina já estava numa situação difícil quando ele assumiu e quis fazer mucho más de lo mismo. Estava numa trajetória errada e permaneceu nela. Não podia dar certo. Uma crise quando mais se aprofunda, mais custosa fica. A lição da Argentina é a dos riscos da inoperância, da incompetência.

Realizações - O problema no Brasil não é falta de idéias ou de leis. É ter vontade para acontecer e capacidade para fazer. Muitas das coisas que fizemos no Ministério da Saúde não foram invenção nossa, como agentes comunitários, saúde na família, genéricos, programa de Aids, patentes. Nada disso inventei. O que fizemos: acontecer. Isso é o fundamental.


PSDB do S
Fonte: Jornal do Brasil- 19/01/2002


Opinião

MÁRCIO FORTES

O PSDB acolheu o lançamento do nome do ministro José Serra como candidato à presidência da República. Mais importante do que o nome do candidato, ou mesmo do que o currículo do ministro, é o compromisso que acompanha essa candidatura. É a marca dessa candidatura, o que ela resgata da história do partido. Resgate que converge para um objetivo: tornar possível a revolução nas condições de vida de milhões de brasileiros. O PSDB nasceu para tornar possível essa meta. Nasceu com esse compromisso - um compromisso com o social, acima de tudo.

Os dois mandatos do presidente Fernando Henrique exibiram essa preocupação prioritária e permitiram que se avançasse imensamente nas áreas de educação e saúde. A estabilidade econômica, consolidada no primeiro governo, já havia subvertido as condições de vida da população. Mais de 13 milhões abandonaram a linha de pobreza. Entre 1993 e 1998, milhões de novos lares passaram a contar com abastecimento de água, redes de esgoto, coleta de lixo, luz elétrica e telefone. A reforma agrária assentou mais de 400 mil famílias em território duas vezes maior que o da Bélgica. Os avanços foram extraordinários também em saúde e educação. Em 1992, 18,2% das crianças entre 7 e 14 anos não freqüentavam a escola. Agora o acesso ao ensino fundamental foi universalizado. Na área de saúde, a mortalidade infantil declinou quase 30% entre 1989 e 1998. A adoção de medicamentos genéricos foi das maiores conquistas sociais do país. O programa de combate à Aids é hoje reconhecido internacionalmente.

Avançou-se, mas ainda há muito a fazer. Nos últimos três anos, uma série de circunstâncias impediu que o país pudesse deslanchar. O primeiro mandamento para alcançar uma distribuição de renda mais justa é a estabilidade econômica. Isso foi feito. O segundo mandamento é criar condições para o crescimento econômico sustentado. Isso não tem sido possível, em especial diante das questões externas que afetam o país.

Enfrentar crises internacionais é muito difícil, e não há receita única. O que não se pode imaginar é que o Brasil seja obrigado a manter juros em patamares tão elevados por muito mais tempo. Ou que se esboce uma espécie de ''doença do pânico inflacionário'' no país, como se cada gesto ou medida de administração econômica tivesse, necessária e obrigatoriamente, de ser guiada por essa preocupação obsessiva. Até há que existir uma preocupação, mas quase se perde o timing da mudança de rota cambial por receio infundado de potenciais impactos inflacionários.

Um fenômeno interessante no Brasil é que o país está hoje muito melhor do que alguns formadores de opinião imaginam. Olhar para a Argentina talvez seja um bom exercício para eles. Nada parecido poderia ocorrer no Brasil. Por aqui, alteramos os rumos da política cambial quando era preciso. O país é hoje 100% estável politicamente. É hoje uma democracia madura e amadurecida. A credibilidade externa de que desfruta o governo é prova disso. Ou seja, o Brasil está preparado para crescer, e vai crescer nos próximos anos em níveis elevados.

É com essa projeção de crescimento que o PSDB trabalha. Ela quer dizer que o Brasil vai gerar riquezas. A novidade é que essa riqueza, como nunca se viu na história do país, será prioritariamente direcionada para a área social. Contar com um ministro egresso da saúde é garantia de que esse compromisso será cumprido. É um referendo, torna-o mais eloqüente e sincero.

E o PSDB caminhará unido, forte e mobilizado, até a pré-convenção e depois da pré-convenção de fevereiro. Enganam-se os que acham que algo diferente poderá ocorrer. O fato é que, simbolicamente, este terceiro governo do PSDB, vestido dos pés à cabeça de um compromisso social, começa a se delinear.

A missão agora é elaborar, com objetividade e clareza, as propostas do programa de governo que serão apresentadas à sociedade. Tudo que se deseja é tornar possível um país mais justo. Socialmente mais justo. Por isso, o PSDB é hoje o PSDB do ''S''. ''S'' de social, não de Serra. Um ''S'' que abriga, nesse sentido, Serra, Tasso (responsável pelas administrações estaduais que maiores resultados conquistaram na área social neste país), Paulo Renato, enfim, todos os seus líderes nacionais. Uma nova história começa para o PSDB. E para o Brasil.

Márcio Fortes, deputado federal (RJ), é secretário-geral do PSDB

 
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