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27/01
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Luta
em nome da vida
Fonte:
Revista IstoÉ-27/01/2002
Referência nacional, o laboratório Far-Manguinhos
briga para reduzir o preço de mais um remédio do coquetel,
estuda duas novas cápsulas 100% brasileiras e exporta conhecimento
para a África
O ano de 2002 começa com mais um round na batalha para
garantir à população o fornecimento gratuito
de remédios contra a Aids. De um lado do ringue estão
os laboratórios farmacêuticos privados, que detêm
o direito de propriedade para produzir o coquetel de pílulas
que trata os 597 mil brasileiros portadores do vírus HIV.
Do outro, um grupo de cientistas do Instituto de Tecnologia em Fármacos,
ou Far-Manguinhos, laboratório que integra a centenária
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e onde são
fabricados sete dos 12 medicamentos que combatem a doença.
O novo capítulo dessa disputa será travado contra
a multinacional GlaxoSmithKlein, fabricante do Amprenavir. O instituto
carioca agora exerce pressão para que o preço do frasco
seja reduzido de US$ 2 para US$ 1,20, uma queda de 40%. É
mais uma briga de Davi e Golias.
Na primeira queda-de-braço, em agosto do ano passado, o Ministério
da Saúde venceu um duelo travado com os laboratórios
Merck e Roche, fabricantes do Efavirenz e do Nelfinavir, respectivamente.
O governo ameaçou quebrar a patente dos laboratórios
por considerar seus preços abusivos e acabou negociando uma
redução média de 40%, o que resultou numa economia
de US$ 148 milhões, ou 36% nos gastos públicos com
antivirais.
Em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro, o laboratório
pesquisa novos remédios 100% nacionais para inibir as enzimas
que fazem o vírus HIV se replicar. A equipe também
trabalha para reunir em uma única fórmula três
princípios diferentes, o que reduziria o número indigesto
de cápsulas do coquetel. O front da guerra contra a Aids
está aglutinado num espaço de 500 metros quadrados
dentro de Far-Manguinhos, um mergulho no Primeiro Mundo em plena
miserável avenida Brasil, na zona norte do Rio de Janeiro.
O prédio erguido em 1900 para fabricar soro contra a peste
bubônica é um marco arquitetônico e foi construído
sob a tutela do sanitarista Oswaldo Cruz, que no início do
século passado instituiu a vacinação obrigatória
contra a varíola e criou a profissão de comprador
de ratos para erradicar a peste das ruas do Rio de Janeiro, então
capital brasileira.
As mil e uma noites - Batizado de castelo Mourisco, a sede
da Fiocruz lembra uma história de As mil e uma noites. Em
seu suntuoso prédio de tijolos, 40 profissionais operam equipamentos
de última geração avaliados em US$ 1,5 milhão.
Ali são produzidos anualmente 140 milhões de comprimidos,
pomadas e cápsulas destinadas ao tratamento dos soropositivos.
É o suficiente para abastecer 40% da demanda brasileira de
remédios antivirais com patente pública e distribuição
gratuita. Para evitar riscos de desabastecimento, o restante da
produção é atendida por instituições
públicas de pesquisa, como o Laboratório Farmacêutico
de Pernambuco (Lafep) e a Fundação de Remédio
Popular de São Paulo (Furp). Hoje, Far-Manguinhos está
apta a suprir a demanda nacional pelos sete medicamentos do coquetel.
Por enquanto, os outros cinco remédios estão protegidos
por patentes asseguradas às companhias privadas, mas isso
não significa que o País não se capacite a
quebrá-las no futuro. "Tudo aqui é feito com
recursos gerados pelo próprio laboratório, sem verbas
do governo", observa o carioca Marcos Mandelli, diretor de
negócios de Far-Manguinhos, cujo faturamento anual alcançou
R$ 200 milhões.
A equipe agora alça vôos mais longos e planeja exportar
seu conhecimento para outros países vítimas da Aids.
Em setembro de 2001, o castelo Mourisco recebeu uma missão
de Botsuana, país ao norte da África do Sul, e se
prontificou a partilhar o conhecimento adquirido na produção
de antivirais. Há negociações para repassar
a mesma tecnologia para Angola, que tem cinco milhões de
infectados pelo vírus HIV. Esses saborosos louros começaram
a ser colhidos quando entrou em cena a química Eloan dos
Santos Pinheiro, carioca de 56 anos com doutorado em tecnologia
farmacêutica pela Universidade de Farmácia de Londres.
Eloan chegou à Fiocruz em 1990. Sete anos depois, viajou
para a Índia e a China para resolver um dilema: conseguir
a matéria-prima para fabricar os antivirais brasileiros.
Até então, os dois países não reconheciam
as leis de patente em vigor. Sobretudo na Índia, Eloan encontrou
situações paradoxais: um contexto de miséria
associado a uma capacitação técnica de Primeiro
Mundo. Eloan trouxe na bagagem os princípios ativos utilizados
na fabricação de remédios anti-Aids. A essa
altura, Far-Manguinhos já possuía a outra ponta -
profissionais com alto nível de especialização
-, e o combate à doença ganhava status de prioridade
para o governo federal.
Em quatro anos, a Fiocruz passou a fabricar os sete componentes
do coquetel, engrossando a lista de genéricos produzidos
no País. São drogas que imitam a fórmula dos
medicamentos à disposição no mercado, mas não
carregam a mesma marca comercial. O que trouxe um especial sabor,
no entanto, foi dobrar os gigantes Merck e Roche. "Conseguimos
sentar em igualdade de condições", festeja Eloan.
Negligência - A Aids não é o único
foco da Far-Manguinhos. Uma de suas divisões produz remédios
para doenças como tuberculose, malária ou hanseníase.
Embora o número de unidades tenha crescido 220% nos últimos
quatro anos, esses males não atraem a atenção
dos laboratórios privados porque acometem pessoas de baixo
poder aquisitivo. "Dois bilhões de pessoas no mundo
não têm acesso a remédios vitais. Far-Manguinhos
garante a produção desses medicamentos no Brasil,
com controle de qualidade", elogia a espanhola Ofélia
García, coordenadora geral dos Médicos sem Fronteiras,
entidade francesa que conta com o apoio de empresas internacionais
para pesquisar e tratar doenças negligenciadas pelos grandes
laboratórios.
Injeção histórica
Marco Rezende
Em 1900, quando nascia o Instituto Soroterápico Federal,
mais tarde batizado de Fundação Oswaldo Cruz, o Brasil
era considerado o túmulo dos estrangeiros. Febre tifóide,
varíola, tuberculose, febre amarela, malária, difteria,
rubéola e peste bubônica afastavam os turistas a ponto
de países como a Itália proibirem a viagem a terras
brasileiras. De simples produtor, o instituto passou a se dedicar
à pesquisa e à medicina experimental, sobretudo depois
que o sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917) assumiu sua direção,
em 1902. Dois anos depois, num de seus arroubos para combater mosquitos,
Cruz enfrentou até um levante popular, que entrou para a
história como a Revolta da Vacina. Era a resistência
da população em se proteger contra a varíola,
doença contagiosa que se manifesta em erupções
cutâneas e mata um terço das vítimas.
Na semana passada, curiosamente, Bio-Manguinhos, divisão
da Fiocruz que produz vacinas e testes para diagnosticar doenças,
anunciou a volta da produção da injeção
contra a varíola, suspensa desde 1970. Dessa vez, a medida
foi tomada diante da iminente ameaça de uma guerra bacteriológica,
desencadeada pelos atentados de 11 de setembro. Mesmo antes da disseminação
da bactéria antraz pelo correio americano, Akira Homma, responsável
pela produção dos imunizantes, já pensava em
retomar a fabricação da vacina em vista da assustadora
rapidez com que o vírus da varíola se propaga. Brasil
e Estados Unidos serão os únicos países produtores
da vacina.
A luta contra a dengue também é travada na Fiocruz.
Far-Manguinhos desenvolveu uma vela feita com o bagaço da
andiroba, planta amazônica que reduz entre 70% e 100% o apetite
da fêmea do mosquito Aedes aegypti, responsável pela
picada que transmite a doença. Far-Manguinhos licenciou dez
laboratórios brasileiros para fabricar a vela, vendida entre
R$ 2 e R$ 8. Mais um ponto para essa ilha de excelência.
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