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Partidos esperam guerra de insultos e dossiês

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Partidos esperam guerra de insultos e dossiês
Fonte:O Globo - 30/06/2002

O País

Isabela Abdala

BRASÍLIA. Passadas as convenções e com as candidaturas homologadas, a partir de hoje cada candidato se lança para valer na guerra pelos mandatos. E o eleitor deverá se preparar para, além de ver a campanha oficialmente nas ruas a partir do dia 6, continuar a assistir a um festival de denúncias, dossiês e insultos. A aposta dos políticos é de que o vale-tudo nessa campanha veio para ficar, dando às eleições de 2002 uma característica diferente das disputas de 1994 e 1998, quando a política se concentrou no debate econômico, que desta vez também será forte.

O PT, investigado pelo Ministério Público por supostamente comandar um esquema de cobrança de propina na prefeitura petista de Santo André, acusa o governo de espionagem política desde que descobriu que Luiz Inácio Lula da Silva foi alvo de investigação da Polícia Federal por 18 meses. Mas as investigações sobre a cobrança de propina em Santo André nada têm a ver com a apuração sobre Lula.

- Vai ser uma campanha pesada! O governo iniciou essa guerra. Eles manipulam a Polícia Federal, o Ministério Público. E agora tentam atingir o PT, mas não vamos cair na guerra de dossiês - diz José Genoino, candidato ao governo de São Paulo.

Em 1989, na primeira eleição presidencial direta pós-regime militar, o tema vida privada foi exaustivamente explorado. A principal vítima foi Lula. Nas eleições seguintes, ninguém ousou mexer com assuntos privados que pudessem desviar do Plano Real o mote da campanha. Na reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, a disputa ficou polarizada entre ele e Lula, sem maiores sobressaltos.

- Quem é especialista em denegrir a vida dos outros com dossiês fabricados por arapongas é o candidato do governo, o senhor José Serra - acusa o candidato da Frente Trabalhista (PPS-PDT-PTB), Ciro Gomes.

- Quero debater teses, idéias e projetos. Ciro Gomes e Garotinho já produziram mais de 50 insultos, mas não vou descer ao nível deles. Quero manter a campanha em alto nível - responde Serra.

Os aliados de Serra pretendem mantê-lo longe das acusações dos adversários, evitando que ele responda a elas.

Para o coordenador da campanha de Anthony Garotinho, Alexandre Cardoso, o governo não conseguiu explicar se teve responsabilidade ou não na investigação sobre Lula. Mas Cardoso destaca que o PT também fez terrorismo ao propagar a idéia de que Garotinho estaria desistindo de ser candidato:

- O PT não deveria fazer terrorismo eleitoral - critica.

O Brasil precisa mudar'

Isabel Braga

BRASÍLIA. Ciro Gomes tinha 15 anos e morava em Sobral, no interior do Ceará, quando ganhou uma viagem a Portugal por um trabalho escolar sobre a poesia de Luiz de Camões. Naquela época, conta o irmão Lúcio, no sertão ninguém sonhava em viajar para o exterior. Embarcou com um grupo de estudantes premiados e no avião já demonstrou o que amigos destacam e mesmo inimigos reconhecem: sua capacidade de liderar e seduzir. Foi o escolhido para fazer o discurso para o primeiro-ministro português.

- Ciro sempre foi um líder nato - diz o irmão.
A trajetória do candidato da Frente Trabalhista (PPS-PDT-PTB) é meteórica. Foi o primeiro aluno de direito, tornou-se professor universitário e aos 24 anos elegeu-se deputado estadual. Foi prefeito de Fortaleza e governador do Ceará aos 32 anos, deixando o cargo para assumir, por quatro meses, o Ministério da Fazenda no governo Itamar Franco. Depois de romper com o presidente Fernando Henrique, decidiu estudar nos Estados Unidos. Em 1998 concorreu à Presidência da República pela primeira vez e agora tenta novamente governar o Brasil. E por quê?

- O Brasil precisa mudar e eu tenho proposta, experiência e vida limpa - diz.
Comparado por adversários com o ex-presidente Collor, Ciro afirma:

- Não me irrita. É provocação boba e preconceituosa.
Ciro aponta a impaciência como seu principal defeito e diz que precisa aprender a se dominar. Nega a pecha de teimoso, destacada até por amigos, e justifica:

- Sou um homem de convicção, não teimoso. Sempre procuro ouvir muito.
Hoje em terceiro lugar nas pesquisas, ele tem pautado a campanha pela oposição ao governo, defendendo mudanças na política econômica e afirmando que não usará o sistema de metas de inflação.

O candidato não descuida da família. Pára entrevistas para ajudar, por telefone, os filhos nos deveres de casa. Patrícia Gomes, com quem foi casado por 13 anos, diz que ele continua um companheiro de todas as horas. O casamento acabou quando Ciro se apaixonou pela atriz Patrícia Pillar.

- Sempre fomos muito verdadeiros um com outro. Mantivemos o respeito e o carinho - diz Patrícia Gomes.

Resistindo às pressões

Chico Otavio

A primeira experiência do PSB numa corrida presidencial, em 1950, foi quase simbólica. Seu candidato, João Mangabeira, obteve apenas 9.466 votos contra os 3.849.040 do candidato vencedor, Getúlio Vargas, do PTB. Agora, na segunda vez que o partido participa da disputa, os socialistas garantem que é para valer. Apesar dos boatos que insistem em prever a sua desistência, o candidato do PSB, Anthony Garotinho, afirma que não só vai até o fim como estará no segundo turno contra Lula.

Aos 42 anos, Garotinho participou do movimento estudantil, entrou para a política no PT, partido que trocou depois pelo PDT e, com o rompimento com Leonel Brizola, pelo PSB. Foi duas vezes prefeito de Campos, perdeu uma disputa pelo governo do estado e conseguiu depois se eleger governador em 1998 numa aliança com o PT de Benedita da Silva, hoje adversária, que assumiu o governo em abril.

Adota uma receita pragmática na campanha: um discurso com forte apelo popular, recheado de passagens bíblicas, somado à imagem de um chefe de família zeloso e de um governante que adotou programas como o cheque-cidadão e os restaurantes populares, que lhe asseguram no estado seu melhor desempenho eleitoral.

Entre as muitas promessas que tem feito, garante que vai brigar para aumentar o salário-mínimo, diminuir o desemprego e dar um basta à violência no país.
Dentro do PSB, enfrentou pressões para desistir e abrir caminho para uma aliança branca do PSB com o PT, mas resistiu. Também demorou nas negociações para lançar seu candidato a vice depois que o primeiro deles, o ex-presidente do STJ Paulo da Costa Leite, desistiu diante das denúncias de que trabalhara 11 anos para o extinto Serviço Nacional de Informações (SNI).

Com o lançamento do deputado José Antônio Almeida (PSB-MA) como seu candidato a vice, espera ter vencido as dificuldades internas no partido. E, sem aliança com grandes partidos, diz não se abalar com o fato de que terá o menor tempo de TV entre os candidatos. Argumenta que o horário eleitoral não terá tanto peso nestas eleições.

Não tenho o direito de perder'

Ricardo Galhardo

SÃO PAULO. Candidato à Presidência pela quarta vez consecutiva pelo PT, o ex-vendedor de tapioca, ex-torneiro mecânico e ex-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva considera esta a sua última chance de chegar ao poder.

- Tenho que pensar muito bem no que vou fazer porque sou o único entre todos os possíveis candidatos que não tem o direito de perder - costuma dizer Lula.
Por isso, o partido decidiu apostar no pragmatismo, abandonando dogmas caros aos petistas tradicionais, ampliando o leque de alianças e dialogando com segmentos sociais antes desprezados.

Lula abrandou o discurso e até o tom de voz. Diversificou o cardápio de assuntos e mudou o corte de cabelo. Para os adversários, é o lobo de sempre, agora sob pele de cordeiro. Para os velhos conhecidos, ele apenas amadureceu.

- As pessoas vão aprendendo com a vida. Com os amigos e a família, seu comportamento não mudou - diz Eguiberto Guiba, metalúrgico e sindicalista, amigo de Lula há quase 30 anos.

Filho de pai e mãe analfabetos, nasceu em Garanhuns, no sertão de Pernambuco, há 56 anos. Cinco anos depois, enfrentou 13 dias num pau-de-arara e foi com a mãe e sete irmãos morar na periferia de Guarujá, numa casa de um cômodo. Em 1969, com um diploma de torneiro mecânico do Senai, elegeu-se suplente na diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema. Seis anos depois, foi eleito presidente do sindicato com 92% dos votos.

Mas só se tornou conhecido nacionalmente em 1978, quando comandou as primeiras greves de metalúrgicos do regime militar.

Desde o fim do mandato de deputado federal, em 1990, tem como única fonte de renda o salário de R$ 7 mil que recebe do partido. Embora não freqüente mais as rodas de cachaça e as peladas na frente das fábricas do ABC, mantém hábitos simples. Sua principal diversão nos fins de semana é ir com a família para o sítio.

Ele diz que considera a eleição o primeiro passo de uma missão quase impossível:
- Sei que sou o depositário das esperanças de milhões de brasileiros e por isso não posso errar.

Um obstinado administrador

Ilimar Franco

BRASÍLIA. Filho da dona de casa Serafina Chirico Serra e do verdureiro de família italiana Francisco Serra, o paulistano José Serra estudou engenharia civil e fez doutorado em Economia na Universidade de Cornell (EUA). Uma de suas escolas políticas, além da União Nacional dos Estudantes (UNE), que presidiu no regime militar, foi a AP (Ação Popular), organização política que tinha como objetivo formar líderes para participar de "uma transformação radical da estrutura brasileira em sua passagem do capitalismo para o socialismo". Quase quatro décadas depois, aos 60 anos, disputa o direito de presidir o Brasil dentro de um projeto neoliberal.

Os aliados dizem que Serra é melhor administrador que o amigo presidente, Fernando Henrique Cardoso, e que, se eleito, vai acompanhar pessoalmente o dia-a-dia da administração. Suas passagens pelos Ministérios do Planejamento (de janeiro de 1995 a maio de 1996) e da Saúde (de abril de 1998 a fevereiro de 2002), mostraram que Serra no Executivo é exigente na cobrança de resultados de seus subordinados e de rapidez na solução dos problemas.

Marcou sua gestão no Ministério da Saúde por programas de ação emergenciais, pelo lançamento dos remédios genéricos e pela queda-de-braço com a indústria farmacêutica.

Obstinado, enfrentou disputas internas no PSDB para ser candidato e, mesmo sabendo que o governador Mário Covas tinha a preferência de grande parte do PSDB, trabalhava em silêncio por sua candidatura.

Candidato do governo, é o principal alvo dos três candidatos de oposição e enfrentou acusações não provadas de envolvimento no caso que acabou tirando a ex-governadora Roseana Sarney da disputa.

Já os aliados elogiam a solidariedade do candidato tucano. O líder do PSDB na Câmara, Jutahy Magalhães (BA), não se esquece do gesto de Serra em 1995 quando foi ameaçado de expulsão por ter apoiado Lula, recusando a aliança com Antonio Carlos Magalhães.

- O Serra é solidário com os companheiros. Ele não me abandonou no momento mais difícil de minha vida política - diz Jutahy.

 
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