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Genéricos na Imprensa
Notícias
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Concorrência
nos genéricos
Fonte:
Jornal do Brasil - 2/2/2003
Diferença
de preços entre medicamentos de laboratórios diferentes
chega a 70% e consumidor deve pesquisar
Desde
que o governo autorizou a fabricação dos seis primeiros
medicamentos genéricos do País, em 2 de fevereiro
de 2000, o mercado mudou. Hoje há 483 produtos, 37 laboratórios
e uma novidade para o consumidor: a necessidade de comparar os preços.
Pesquisa realizada pelo Jornal do Brasil com base na tabela da Associação
Brasileira do Comércio Farmacêutico (ABCFarma) mostra
que os preços dos mesmos genéricos fabricados por
laboratórios diferentes chegam a variar mais de 70%.
- Antes tínhamos os remédios de marca. Com a entrada
dos grandes fabricantes no mercado de genéricos, o nome do
laboratório é que está sendo usado como uma
grife para justificar os preços mais altos - diz Rogério
de Carvalho, gerente da Genérico Farma, única farmácia
do Rio especializada nesse tipo de medicamento.
Qualquer que seja o laboratório, o consumidor que optar pelo
genérico vai economizar no mínimo 35% em relação
ao medicamento de referência. Mas se for comprar a Amoxicilina
250 mg de 150ml, genérico do Amoxil, por exemplo, pagará
R$ 8,87 para levar o produto fabricado pela Eurofarma. Se optar
pelo mesmo medicamento do Apotex, o preço sobe para R$ 15,12,
ou 70,4% mais.
O mesmo acontece com o Cloridrato de Fluoxetina 20 mg, genérico
do Prozac. A caixa de 28 comprimidos do laboratório EMS Sigma
Pharma sai a R$ 43,55. Já o da Ranbaxy custa 43,2% mais caro:
R$ 62,40.
- O lançamento de vários genéricos de medicamentos
idênticos está produzindo muitas diferenças
de preços. Nós chegamos a reduzir o preço de
vários produtos por causa da concorrência dos outros
genéricos - conta Débora Mori, gerente de Marketing
da EMS.
O diretor de Vendas do Laboratório Apotex, Hélio Lourençon,
justifica os preços mais altos. Segundo ele, seus genéricos
não têm como ter os mesmos preços da concorrência
porque não são fabricados no Brasil.
- Estamos no país há menos de um ano e todos os nossos
produtos ainda são importados do Canadá, o que encarece
os custos. Acredito que quando a fábrica que estamos construindo
em Itatiba, São Paulo, estiver em operação,
teremos condições de oferecer preços mais competitivos
- diz.
O diretor-comercial do laboratório Ranbaxy, Ailton Wiliczinski,
também afirma que o vilão do genérico mais
caro é o dólar. Ele explica que os genéricos
da Ranbaxy são fabricados na Índia e importados para
o Brasil.
Já Geraldo Magella, do laboratório Biosintética,
põe a culpa no governo Fernando Henrique. - Em 2001, o governo
investiu pesado na divulgação dos genéricos.
Mas no ano passado isso praticamente não ocorreu e os laboratórios
tiveram que investir em propaganda, o que acabou por impactar o
preço final do remédio. Sem divulgação,
o produto fica patinando meses para atingir um volume de vendas
considerável.
Para Jailton Batista, do Pró-Genérico, entidade que
reúne laboratórios do setor, a disparidade dos preços
é saudável.
- Essa concorrência é boa para o consumidor, que economiza
no mínimo 35% em relação ao medicamento de
referência e ainda conta com a disputa entre os laboratórios
de genéricos. Estranho seria se os preços fossem todos
iguais - argumenta.
As diferenças de preços não são as únicas
fontes de polêmica no setor. Laboratórios nacionais
reclamam da invasão dos genéricos importados, que
estariam recebendo tratamento privilegiado do governo. Isso porque
a legislação obriga os fabricantes de genéricos
a submeterem seus produtos ao teste de bioequivalência, que
serve para comprovar que a droga faz exatamente o mesmo efeito do
medicamento de referência.
Quando os genéricos surgiram havia apenas dois laboratórios
no país capacitados para fazer esses testes. Hoje, são
mais de 20, mas, ainda assim, o processo leva meses. No caso dos
genéricos importados, basta um laudo comprovando que o medicamento
foi testado no país de origem. Há uma portaria da
Agência Nacional de Vigilância Sanitária exigindo
que, a partir de julho, esses remédios passem por exames
aqui no Brasil.
- Mas há um lobby muito grande do setor para impedir que
essa regra entre em vigor. É muito mais fácil trazer
um remédio de fora com um documento qualquer de lá
- diz um executivo do setor.
Procurados pelo JB, os laboratórios Medley, Merck e Novartis
não se pronunciaram sobre suas políticas de preços
Dúvida
no ar
Fonte:
Revista IstoÉ - 2/2/2003
Médicos relatam falhas na eficácia de remédios
genéricos e questionam a lei que regulamenta o setor
Não
há dúvida de que oferecer medicamentos mais baratos
à população é uma vitória. O
programa de distribuição dos remédios genéricos,
lançado em 1999, surgiu com o objetivo de tornar disponíveis
drogas que agem da mesma forma e apresentam a mesma eficácia
de produtos consagrados no mercado (remédios de marca). Com
a vantagem de custarem menos principalmente pelo fato de o fabricante
não ter investido em estudos para o desenvolvimento do fármaco.
Ele copia a fórmula de medicamentos com a patente vencida
e usa no rótulo o nome genérico da substância
ativa do produto.
Algumas metas desse plano foram atingidas com sucesso. Dados da
associação que reúne os laboratórios
genéricos, a Pró-Genéricos, mostram que há
três anos existiam 13 registros dessas drogas na Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Hoje, são
cerca de 700. O crescimento significa maior oferta de genéricos
para males como pneumonia e gastrite. E só em 2002 foram
vendidos 73 milhões de unidades desse gênero de remédio.
Mas, apesar do avanço, estão surgindo sinais de que
alguns genéricos podem não ser tão eficientes.
Há cerca de um mês, a Anvisa suspendeu a venda da isotretinoína
genérica fabricada pelo laboratório indiano Ranbaxy.
O remédio é usado contra acne grave. A medida foi
tomada depois que a Vigilância Sanitária de São
Paulo avaliou alguns lotes do medicamento. "A análise
mostrou que o produto tinha problemas de dissolução
e de absorção no corpo", conta Tamico Oguri,
da Vigilância paulista. Essas falhas podem comprometer a eficácia
do remédio. No entanto, embora a Vigilância afirme
ter feito a investigação no segundo semestre, o remédio
só foi retirado do mercado no final de dezembro, quando o
resultado da avaliação saiu no Diário Oficial
do Estado.
Quem tinha urgência em saber a qualidade do produto é
a médica Rosângela Assunção, de Natal.
Em julho de 2002, seu filho, de 17 anos, começou a usar a
isotretinoína genérica. "Ele tomava o remédio
de marca e nunca teve problema, mas, como estava caro, troquei pelo
genérico", conta a mãe. A partir do terceiro
mês de uso, o garoto teve tontura e foi levado para o hospital.
No caminho, sofreu um derrame. Exames foram feitos e não
revelaram a origem do problema. Rosângela procurou a Anvisa
no mesmo mês para dizer que desconfiava do remédio.
Quando usou genérico contra hipertensão, A.S. se sentiu
mal. Voltou para o de marca e melhorou O laboratório indiano
Ranbaxy teve direito a uma contraprova aos testes realizados pela
Vigilância.Os exames, feitos por um laboratório independente
indicado pela Anvisa, revelaram até o momento que alguns
dos lotes analisados estão adequados. Por
isso, esses remédios foram liberados na semana passada pela
agência.Falta verificar o restante.
O fabricante diz não entender o que aconteceu. "Fazemos
uma cópia fiel do remédio de marca", diz Ailton
Wiliczinski, diretor da empresa no Brasil.Nos consultórios,
também há relatos de problemas em relação
aos genéricos. Médicos paulistas já depararam
com casos de pacientes que não respondem bem a esses medicamentos.
O cardiologista José Ramires, diretor do Instituto do Coração
de São Paulo (Incor), viveu essa situação.
No ano passado, ele receitou o genérico enalapril, contra
a hipertensão, para dez pacientes. Em vários, a pressão
arterial aumentou e só foi controlada quando os pacientes
recorreram ao remédio de marca. Por causa disso, Ramires
desconfia da qualidade de alguns genéricos. "Sou favorável
à política de genéricos, mas após esse
episódio sinto mais confiança em prescrever remédios
originais na minha receita particular", afirma o médico.
Ramires receita os genéricos apenas no Incor (os hospitais
públicos são obrigados a receitá-los).
Medicamento
Depois de experiência ruim com genérico, Ramires passou
a desconfiar da qualidade desses medicamentos. Outro que registrou
falhas de eficácia foi o médico Fadlo Fraige Filho,
diretor da Associação Nacional de Assistência
à Diabete. Ele usou o enalapril genérico para tratar
diabéticos hipertensos. "Várias vezes não
funcionou", conta. "Não receito mais", afirma.
O nefrologista Artur Beltrame, presidente do Hospital do Rim, de
São Paulo, é menos radical. Já enfrentou complicações
com o genérico enalapril, mas continua receitando essa categoria
de drogas.
Porém,
toma o cuidado de optar por produtos de laboratórios conhecidos.
"Estão surgindo várias empresas e é preciso
ficar atento", recomenda. Ele tem razão. No início
do programa, 23 empresas abasteciam o mercado brasileiro. Hoje já
são 37. O administrador A.S., 43 anos, é hipertenso
e foi uma das vítimas do genérico enalapril. Quando
usava o remédio de marca, manteve a pressão sob controle
durante três anos. Como o produto estava caro, resolveu trocá-lo
pelo genérico. "No terceiro mês, comecei a me
sentir mal e minha pressão ficou alterada. Tomava o remédio,
mas não dava resultado", lembra-se. A.S. voltou a usar
o de marca e melhorou.
O empresário Ari Bergami, 68 anos, também passou por
um susto depois de comprar um genérico broncodilatador para
tratar a bronquite de sua mulher, Terezinha, 70 anos, há
cerca de três meses. "Ela quase desmaiou", conta.
Quando tomou o original, Terezinha não sentiu mais nada.
Esses casos reforçam a teoria de médicos como o oncologista
Antônio Buzaid, do Hospital Sírio-Libanês, de
São Paulo. O médico acredita que são necessários
mais estudos para mostrar que os genéricos são seguros.
"Por isso, não adotamos esses remédios no hospital",
afirma.
Em tese, os problemas com os genéricos não deveriam
ocorrer. Conforme determina a lei que regulamenta a comercialização
desses remédios no Brasil, antes de chegarem ao mercado os
produtos devem passar por dois testes para que seja verificado se
possuem eficácia igual à do medicamento de marca.
É feito o teste de biodisponibilidade, no qual é averiguado
se a droga está sendo metabolizada no corpo de voluntários.
Os pesquisadores analisam se o remédio entra nos vasos sanguíneos
e atinge o estômago, por exemplo. Depois, o genérico
passa pelo teste de bioequivalência, também feito em
voluntários. Nesse caso, é analisado se a substância
ativa do genérico é liberada na mesma velocidade e
quantidade que o de marca.
Bergami viu a esposa quase desmaiar após tomar genérico
contra bronquite
Na opinião de especialistas ouvidos por ISTOÉ, as
falhas que vêm sendo registradas podem ser resultantes de
brechas na lei dos genéricos. De acordo com eles, são
vários os pontos frágeis da regulamentação.
Um dos principais diz respeito aos genéricos importados.
Os especialistas não vêem com bons olhos as facilidades
concedidas aos laboratórios estrangeiros para introduzirem
os medicamentos aqui. As empresas podem fazer o teste de bioequivalência
e de biodisponibilidade nos seus países. "Os exames
deveriam ser feitos no Brasil, em laboratórios credenciados
pela Anvisa", diz o toxicologista Anthony Wong, coordenador
do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das
Clínicas de São Paulo (HC/SP).
A Anvisa garante que os laboratórios estrangeiros são
fiscalizados e os testes só são aceitos se estiverem
bem feitos.Muitos médicos não aceitam a explicação
e defendem sua posição. "A lei permitiu que laboratórios
desconhecidos de países como Paquistão e Índia
exportassem para cá", informa Wong. O professor de clínica
médica Antônio Carlos Costa Lopes, da Universidade
Federal de São Paulo, também desconfia da procedência
desses produtos. "Não consigo acreditar na qualidade
de um remédio feito num país menos desenvolvido que
o nosso. Não receito os genéricos estrangeiros",
garante. O médico Fadlo Fraige é mais enfático
e questiona: "Você compraria um carro
feito nesses países?"
De acordo
com a Anvisa, essa facilidade aos laboratórios estrangeiros
foi concedida para ampliar o mercado de genéricos. "Mas
tudo foi feito sem prejudicar a eficácia dos produtos",
garante Vera Valente, gerente-geral de medicamentos genéricos
da Agência. O órgão informa que são enviadas
equipes para fiscalizar os laboratórios onde são feitos
os testes. Na opinião de Eloan Pinheiro, diretora de Farmanguinhos
até a semana passada, muitos centros desses países
são tão bons quanto os daqui. "O problema é
que às vezes existe preconceito do médico contra os
genéricos e também falta de informação.
Os especialistas são seduzidos pelo marketing da indústria
farmacêutica", critica.
Outra
queixa dos médicos é com relação ao
fato de os testes de bioequivalência serem feitos apenas nos
primeiros lotes do medicamento a ser comercializado. De acordo com
os especialistas, o processo pode dar margem à falta de controle
de qualidade do restante da produção. A Anvisa, no
entanto, assegura que os laboratórios são fiscalizados
anualmente. "Mas a fiscalização precisa ser contínua
e inesperada. Aqui, o processo costuma ser anual, e geralmente o
laboratório sabe quando vai acontecer", afirma o farmacêutico
Wilson Follador,da Sociedade Brasileira de Farmácia Hospitalar.
Segundo ele, o Brasil deveria seguir o exemplo dos Estados Unidos.
"Lá, a fiscalização é inesperada
e frequente", conta.
Há mais críticas. Os especialistas reclamam do fato
de alguns laboratórios produtores de genéricos terem
o direito de realizar testes de bioequivalência em seus produtos
ou nos de terceiros. "É a mesma coisa que a raposa vigiando
o galinheiro", compara Wong. A Anvisa não vê problema
na questão. "É permitido, desde que os laboratórios
estejam qualificados para o serviço", diz Gonzalo Vecina,
diretor da agência.
Na avaliação de médicos ouvidos por ISTOÉ,
o motivo para a existência dessas brechas é político.
O programa dos genéricos foi uma das bandeiras da campanha
do ex-ministro da Saúde José Serra à Presidência
da República. Por isso, segundo os especialistas, o processo
foi montado de forma a permitir a chegada rápida desses remédios
ao mercado. "O governo usou essa estratégia para ganhar
força política. A política de genéricos
é boa. O problema é a forma como foi implantada",
afirma o cardiologista Ramires. Serra não quis comentar as
afirmações.
Um dos médicos garante que ouviu do próprio diretor
da Anvisa, Vecina, a concordância de que havia falhas na lei.
Mas segundo Vecina teria afirmado na ocasião, não
era possível fazer nada naquele momento, pois o ex-ministro
Serra queria ser presidente. Vecina nega a ocorrência dessa
conversa. Apesar de toda confusão, há médicos
que nunca tiveram problemas com genéricos e se sentem seguros
em prescrevê-los. Até porque é bom deixar claro
que, para ser comprovado qualquer tipo de suspeita, é preciso
a realização de testes clínicos rigorosos.
"Para saber se um remédio está funcionando é
necessário levar em conta aspectos como interação
com os alimentos e outras drogas, por exemplo", explica o clínico
Antônio Lopes.
O infectologista Caio Rosenthal, de São Paulo, garante que
tem segurança em relação aos genéricos.
"Meus pacientes nunca reclamaram e me sinto seguro sobre a
eficácia", diz. A mesma opinião tem o cardiologista
carioca Aloísio Tibiriçá Miranda, presidente
do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro. "Os genéricos
passam por testes e suponho que a vigilância seja constante.
Confio nisso", afirma. O novo ministro da Saúde, Humberto
Costa, defende que a lei deve ser aperfeiçoada, mas acredita
que, no geral, ela é eficiente.
"Neste ano, vamos investir no aprimoramento da qualidade dos
laboratórios nacionais e, se necessário, tornar as
regras mais rigorosas", afirma. Com certeza, não faltará
apoio. "A lei de genéricos precisa mesmo ser revista",
defende Antônio Carlos Zanini, coordenador do Sistema de Informações
de Medicamentos do HC/SP.
Similares também na mira Timerman teve problemas com antiviral
contra a Aids. Os médicos suspeitam ainda da eficácia
de alguns similares, drogas parecidas com os remédios de
marca, mas não exatamente iguais. Não há uma
resolução obrigando que os fabricantes submetam esses
produtos a testes de bioequivalência ou de biodisponibilidade,
por exemplo. Os remédios passam por testes menos sofisticados,
como o que verifica a presença do princípio ativo.
O médico Artur Timerman teve problemas com o similar de nevirapina
fabricado pelo laboratório Laob. A droga é usada contra
a Aids e distribuída pelo Ministério da Saúde.
"A quantidade de vírus HIV do paciente estava controlada
e voltou a aumentar", afirma. "Quando receitei o original,
a situação se normalizou", lembra. A empresa
Laob, de São Paulo, garante que seus produtos têm controle
de qualidade e são rigorosamentes fiscalizados pela Anvisa.
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